quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Haverá Falsos Cristos e Falsos Profetas

CAPÍTULO XXI
Haverá Falsos Cristos e Falsos Profetas

• Conhece-se A Árvore Pelos Seus Frutos
 •  Missão Dos Profetas • Prodígio Dos Falsos Profetas
 • Não Acreditem Em Todos Os Espíritos

Instruções Dos Espíritos:

• Os Falsos Profetas • Características Do Verdadeiro Profeta
• Os Falsos Profetas Da Erraticidade 
• Jeremias E Os Falsos Profetas



Conhece-se A Árvore Pelos Seus Frutos

1. A árvore que produz maus frutos não é boa, e a árvore que produz bons frutos não é má. Assim, cada árvore é conhecida pelo fruto que produz. Não se colhem figos dos espinheiros e nem cachos de uvas dos abrolhos. O homem de bem tira coisas boas do seu coração e o homem mau tira coisas ruins do seu coração, pois a boca fala daquilo que o coração está cheio. (Lucas, 6:43 a 45)

2. Jesus recomendou: "Guardem-se dos falsos profetas que, por fora, se disfarçam de ovelhas e que, por dentro, são lobos que roubam. Vocês os reconhecerão por seus atos. Por acaso se pode colher uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore que é boa produz bons frutos, e toda árvore que é má produz maus frutos. Uma árvore boa não pode produzir frutos ruins, e uma árvore má não pode produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Vocês a reconhecerão pelos seus frutos." (Mateus, 7:15 a 20).

3. Jesus disse: "Tomem cuidado para não serem enganados, pois vários virão em Meu nome dizendo: 'Sou o Cristo' e enganarão muita gente. Vários falsos profetas se levantarão e enganarão muitas pessoas, e a caridade, em muitos, se esfriará, porque a injustiça se multiplicará. Mas aquele que perseverar até o fim, será salvo.". "Então, se alguém disser: 'O Cristo está aqui, ou está ali', não acreditem, pois irão se levantar falsos cristos e falsos profetas que farão grandes prodígios e coisas espantosas, a ponto de enganar, se fosse possível, até mesmo os escolhidos." (Mateus, 24:4 e 5, 11 a 13, 23 e 24; Marcos, 13:5 e 6, 21 e 22).


Missão Dos Profetas

4. É comum atribuir-se aos profetas o dom de revelar o futuro e, por isso, as palavras profecia e predição tornaram-se sinônimos. No sentido evangélico, a palavra Profeta tem um significado mais amplo. Os Profetas são seres enviados por Deus, com a missão de instruir os homens e de revelar a eles as verdades do Mundo Espiritual. Assim, um homem pode ser Profeta sem fazer profecias, e essa era a ideia dos judeus, no tempo de Jesus. Eis por que, quando Jesus foi levado à presença do sumo sacerdote Caifás, os escribas e os anciãos, que ali estavam reunidos, Lhe cuspiram no rosto, Lhe deram socos e bofetadas, dizendo: "Cristo, profetiza e diz quem foi que Lhe bateu.". Entretanto, existiram Profetas que previram o futuro por intuição ou por revelação de Espíritos superiores, com a finalidade de prevenir os homens. Como suas previsões aconteceram, o dom de adivinhar o futuro foi considerado como sendo um dos atributos que os Profetas precisavam possuir.


Prodígio Dos Falsos Profetas

5. Jesus advertiu: "Surgirão falsos cristos e falsos profetas que farão grandes prodígios e coisas surpreendentes, a ponto de enganar, se fosse possível, até mesmo os escolhido.". Esta advertência alerta para o verdadeiro sentido da palavra prodígio. No estudo dos textos sagrados, os prodígios e os milagres são fenômenos excepcionais que se situam fora das Leis da Natureza. Sendo obra exclusiva do Criador, essa Leis somente por Ele podem ser alteradas, se assim Ele o quiser. O simples bom senso nos diz que Deus não daria a seres malvados e inferiores um poder igual ao Seu, e, menos ainda, o direito de desfazerem Suas Leis. Cristo não pode ter aprovado tal princípio. Pelas palavras de Jesus, o Espírito do mal teria o poder de fazer prodígios, pelos quais até mesmo os escolhidos seriam enganados. Disso resulta que, se o Espírito do mal pode fazer o que Deus faz, os prodígios e os milagres não são obras exclusivas dos enviados de Deus. Assim, esses fenômenos nada provam, pois nada distingue os milagres que são feitos pelos santos, dos milagres que são feitos pelos demônios. Portanto, é preciso procurar um sentido mais lógico para as advertências de Jesus.

Aos olhos do povo menos esclarecido, todo fenômeno cuja causa é desconhecida passa a ser algo sobrenatural, maravilhoso e miraculoso. Uma vez conhecida a causa, o fenômeno, por mais extraordinário que possa parecer, nada mais é do que a aplicação de uma Lei da Natureza. Assim, os fatos sobrenaturais vão diminuindo à medida que o conhecimento das Leis Científicas se ampliam. Em todas as época, os homens exploraram certos conhecimentos que os habilitaram a executar uma suposta missão Divina. ou usufruir de um poder supostamente sobre-humano. Faziam isso por ambição e pelo desejo de dominação.

Esses são os falsos cristos e os falsos profetas. A propagação dos conhecimentos acaba por desacreditá-los, eis por que seu número diminui à medida que os homens se esclarecem. O fato de realizarem o que algumas pessoas consideram prodígios não é sinal de uma missão Divina, visto que pode ser o resultado de conhecimentos que qualquer um pode adquirir, ou de faculdades orgânicas especiais, que podem acompanhar tanto o mais digno, quando o mais indigno. O verdadeiro Profeta se reconhece por características mais sérias, e que são, esclusivamente, de ordem moral.

domingo, 18 de dezembro de 2022

A Fé Que Transporta Montanhas

CAPÍTULO XIX

A Fé Que Transporta Montanhas

• O Poder da Fé •  A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável
 • Parábola da Figueira que Secou 

Instruções Dos Espíritos:

• A Fé, Mãe da Esperança e da Caridade
• A Fé Divina e a Fé Humana



O Poder da Fé

1. Quando Jesus veio ao encontro do povo, um homem aproximou-se Dele, ajoelhou-se a Seus pés e disse: "Senhor, tenha piedade de meu filho que está lunático e sofre muito, pois ele, seguidamente, cai, ora no fogo, ora na água. Apresentei meu filho aos Seus discípulos, mas eles não puderam curá-lo.". Jesus respondeu ao pai do menino, dizendo: "Ó, raça incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando sofrerei com vocês? Traga o menino até aqui.". E Jesus, repreendendo o Espírito mau que o acompanhava, fez com que este se afastasse, curando-o no mesmo instante. Então, os discípulos vieram encontrar Jesus e, em particular, Lhe perguntaram: "Por que nós não conseguimos expulsar este demônio?". E Jesus respondeu: "É por causa da pouca fé que possuem. Pois Eu digo, em verdade, que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, diriam a essa montanha: Transporte-se daqui para lá, e ela se transportaria, e nada seria impossível a vocês." (Mateus, 17:14 a 19).

2. A confiança do homem em sua próprias forças faz com que ele seja capaz de realizar coisas materiais que não pode fazer quando duvida de si mesmo. Porém, nesse caso, devemos entender as palavras de Jesus unicamente pelo seu sentido moral. As montanhas que a fé transporta são as dificuldades, as resistências, a má vontade dos homens, mesmo quando tudo está correndo bem. Os preconceitos, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo, as paixões orgulhosas, são, também, montanhas que travam o caminho de todo aquele que trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé, quando forte, fornece a perseverança, a energia e os recursos necessários para vencer os obstáculos, sejam eles pequenos sejam grandes. A fé que vacila provoca em nós a falta de confiança de que se aproveitam os adversários que devemos combater; e, mais ainda, a fé que vacila não procura os meios de vencer, pois nem sequer acredita na possibilidade da vitória.

3. A fé também pode ser considerada como sendo a confiança que se tem na realização de uma determinada tarefa, na certeza de atingir um objetivo. A fé dá uma espécie de lucidez, que faz com que se possa antever, pelo pensamento, a meta a ser alcançada e os meios de chegar até ela. Assim, aquele que a possui caminha com absoluta segurança. Em todos os sentidos, a fé é sempre a responsável pela realização das grandes obras.

A fé sincera e verdadeira é sempre calma, pois confere a paciência que sabe esperar e, também, porque, ao apoiar-se na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de atingir seu objetivo. A fé vacilante conhece sua própria fraqueza; quando é estimulada pelo interesse, torna-se furiosa e acredita suprir, pela violência, a força que lhe falta. A calma durante a luta é sempre um sinal de força e de confiança. A violência é sempre um sinal de fraqueza e descrença em si mesmo.

4. É preciso não confundir a fé com a soberba. A fé verdadeira é uma aliada da Humildade, e aquele que a possui confia mais em Deus do que em si próprio. Quem possui a fé verdadeira sabe que é um simples instrumento da vontade de Deus e que nada pode sem Ele, e é por isso que os bons Espíritos vêm em seu auxílio. A soberba é muito mais um sinal de orgulho do que fé; o orgulho, mais cedo ou mais tarde, é sempre castigado pela decepção e pelos fracassos que lhe são impostos.

5. O poder da fé tem aplicação direta e especial na ação magnética. É pelo pensamento que o homem atua sobre o fluído que está livre no universo, modifica-lhe as qualidades e dá a esse fluído um impulso irresistível. Aquele que já possui um grande poder sobre os fluídos e junta a esse poder uma fé ardente, podem simplesmente pela vontade dirigida ao bem, realizar fenômenos especiais de cura e muitos outros. Antigamente, esses fenômenos eram tidos como milagres, mas, na verdade, eles não passam de consequências da aplicação de uma Lei Natural. Esse é o motivo pelo qual Jesus disse a Seus apóstolos: "Se vocês não o curaram, é porque não tiveram fé.".


A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável

6. Do ponto de vista religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões. Todas as religiões têm seus artigos de fé, ou seja, a descrição do que os seguidores devem ou não acreditar. Sob esse aspecto, a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega não examina nada, aceita tudo sem verificar, tanto o que é falso quanto o que é verdadeiro, e, a cada passo, se choca com as evidências e a razão. A fé cega, levada ao excesso, produz o fanatismo. Quando a fé está apoiada no erro, cedo ou tarde desmorona. Somente a fé que tem por base a verdade possui um futuro assegurado, pois nada tem a temer com o progresso dos conhecimentos. O que é verdadeiro na sombra, também o é à luz do dia. Toda religião pretende ter a posse exclusiva da verdade, mas impor a alguém a fé cega sobre uma questão de crença é confessar sua impotência para demonstrar que está com a razão.

7. Geralmente, se diz que a não se receita, não se impõe, o que leva muitas pessoas a dizerem que não são culpadas pelo fato de não a possuírem. Sem dúvida, a fé não se receita, e o que é mais correto ainda: a fé não se impõe. A fé deve ser adquirida e ninguém está impedido de possuí-la, nem mesmo aqueles que tenham contra ela muita resistência. Falamos de verdades espirituais básicas, e não dessa ou daquela crença em particular. Não é a fé que deve procurar essas pessoas; elas é que devem procurar a fé, e se o fizerem com sinceridade irão encontrá-la. Fiquem certos de que aqueles que dizem: "Nada mais desejamos do que crer, mas infelizmente não conseguimos.", o dizem com os lábios e não com o coração, pois, ao mesmo tempo que dizem, fecham os ouvidos. São muitas as provas de que a fé existe, mas é o medo de serem forçadas a mudarem seus hábitos. Porém, na grande maioria, é o orgulho que se nega a reconhecer um poder superior, porque teriam que se inclinar diante dele.

Para algumas pessoas, a fé parece ter nascido com elas, pois basta uma faísca para desenvolvê-la. Essa facilidade em aceitar as verdades espirituais é sinal evidente de um progresso anterior. Em outras, ao contrário, as verdades espirituais são assimiladas com muita dificuldade, sinal também evidente de uma natureza em atraso. Aqueles que já possuíam conhecimentos espirituais trazem ao renascer, a intuição do que sabiam. Nesse caso, sua educação já foi realizada. Naqueles que não possuem conhecimentos espirituais e que precisam aprender tudo, a educação está por se realizar. Se ela não for concluída nessa existência, certamente, será na outra.

A resistência daquele que não crê quase sempre se deve à maneira pela qual as coisas lhe são apresentadas. A fé necessita de uma base, e essa base é a perfeita compreensão daquilo em que se deve acreditar. Para acreditar, não basta ver, é preciso compreender. A fé cega não pertence mais aos dias de hoje. É justamente o dogma da fé cega que, atualmente, produz o maior número de incrédulos, pois ela quer se impor exigindo que o homem abra mão do seu raciocínio e do seu livre-arbítrio, que são as maiores conquistas do Espírito. É, principalmente, contra a cega que o incrédulo se revolta, o que prova ser verdade que esse tipo de fé não se impõe. Ao não admitir provas, a fé cega deixa, no Espírito, um vazio que lhe abre o caminho para a dúvida. A fé raciocinada é aquela que se apoia nos fatos e na lógica, é clara e não deixa atrás de si nenhuma dúvida. Acredita-se porque se tem certeza, e só se tem certeza porque se compreende. Eis por que ela não se dobra. Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade. Assim, o Espiritismo triunfa sobre a incredulidade, sempre que não encontra oposição sistemática e interesseira. 


Parábola Da Figueira Que Secou

8. Quando saíram de Betânia, Jesus teve fome e, vendo uma figueira ao longe, foi até ela, para ver se encontrava algum fruto para comer. Ao se aproximar, encontrou apenas folhas, pois não era época de figos. Então, Jesus disse à figueira: "Que ninguém como de você nenhum fruto.", e os discípulos ouviram. No dia seguinte, ao passarem pela figueira, perceberam que ela estava seca até a raiz. Pedro, lembrando-se das palavras de Jesus, disse-Lhe: "Mestre, olha como a figueira, que o Senhor amaldiçoou, tornou-se seca." E Jesus respondeu: "Tenham fé em Deus. Em verdade, Eu lhes digo que todo aquele que disser a esta montanha "Saia daqui e vá para o mar, sem que seu coração hesite, acreditando firmemente no que está dizendo, verá, de fato, sua ordem se cumprir." (Marcos, 11:12 a 14, 20 a 23).

9. A figueira que secou é o símbolo das pessoas que apenas aparentam fazer o bem, mas que, na verdade, não produzem nada de bom. São os oradores que possuem mais brilho do que conhecimento, cujas palavras não têm profundidade e apenas agradam aos ouvidos, mas que, ao serem analisadas, não trazem nada de proveitoso ao coração. Pode-se, então, perguntar: que proveito elas trouxeram a quem as ouviu?

A figueira que secou é, também, o símbolo de todas as pessoas que têm a oportunidade de serem úteis, mas não o são. Representa, ainda, todas as utopias, todos os sistemas sem conteúdo e todas as doutrinas sem base sólida. O que falta, na maioria das vezes, é a fé que transporta montanhas. São árvores que têm folhas, mas não têm frutos. Foi por isso que Jesus as condenou à esterilidade, pois chegará o dia em que elas ficarão secas até a raiz. Todos os sistemas, todas as doutrinas que não produzem nenhum bem para a Humanidade, serão reduzidos ao nada. Todos os homens voluntariamente inúteis, que não utilizam seus recursos, também serão tratados como a figueira que secou.

10. Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos. Por possuírem faculdades específicas para essa atividade, eles emprestam seu corpo físico para que os Espíritos possam transmitir suas instruções. Nos tempos atuais, de renovação social, os médiuns têm uma missão particular: são árvores que devem dar alimento espiritual aos seus irmão. Eles são muitos para que o alimento seja farto. São encontrados em todos os países, em todas as classes sociais, entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos. Eles precisam estar em todos os lugares, a fim de que todos recebam os ensinamentos e para mostrar aos homens que todos estão sendo chamados. O objetivo principal da mediunidade é ajudar o próximo e melhorar aquele que a possui. Porém, existem médiuns que a utilizam para coisas fúteis, para prejudicar outras pessoas, para conseguir benefícios materiais em proveito próprio, enfim, deturpam-na de várias maneiras. Esses médiuns serão tratados como a figueira que secou. Deus retirará deles um dom que se tornou inútil em suas mãos, uma semente que não souberam fazer frutificar, e é assim que eles se tornarão alvo dos maus Espíritos.


Instruções Dos Espíritos:

A Fé, Mãe Da Esperança E Da Caridade
José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862.
 
11. A fé, para ser proveitosa, deve ser ativa, não deve ficar adormecida. A fé é a mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus e deve estar sempre atenta para que essas virtudes se desenvolvam.

A esperança e a caridade são as consequências da fé. Essas três virtudes formam um trio inseparável. Não é a fé que dá a esperança de se ver cumprir as promessas do Senhor? Pois, se não há fé, que esperança ter? Não é a fé que dá o amor? E se não há fé, que amor se pode ter? E que amor será esse?

A fé é a divina inspiração de Deus, que desperta todos os nobres sentimentos que conduzem o homem para a prática do bem, tornando-se a base de sua renovação. Porém, é necessários que essa base seja forte e durável, pois se alguma dúvida abalar esse alicerce, o que será do edifício construído sobre ele? Construam esse edifício sobre fundações sólidas, e que a fé de vocês seja mais forte que a zombaria dos incrédulos, pois a fé que não encara a zombaria dos homens não é a fé verdadeira.

A fé sincera é atraente, contagiante e envolve até mesmo aqueles que não a possuem, como também aqueles que não fazem questão de possuí-la. A fé sincera encontra as palavras harmoniosas, deixa aqueles que as escutam frios e indiferentes. Preguem pelo exemplo das boas obras, para que eles vejam o mérito da fé. Preguem através da esperança inabalável, para que os homens percebam a confiança que frutifica e ainda estimula a enfrentar as contrariedades da vida.

Tenham, portanto, a verdadeira fé, na plenitude da sua beleza, da sua bondade, da sua pureza e da sua racionalidade. Não aceitem a fé sem comprovação, pois ela é a filha cega da ignorância. Amem a Deus, mais saibam por que O amam. Acreditem em Suas promessas, mas saibam por que acreditam nelas. Sigam os nossos conselhos, mas sejam conscientes do objetivo que apontamos e dos meios que indicamos para atingi-los. Acreditem e esperem, sem nunca fraquejar, pois os milagres são produzidos pela fé.


A Fé Divina E A Fé Humana
U Espírito Protetor - Paris, 1863.
 
12. A fé é um sentimento que nasce com o homem sobre o seu destino futuro. É a consciência das imensas faculdades que ele possui e que estão, como uma semente, adormecidas no seu íntimo. Cabe ao homem, pela ação da sua vontade, fazer desabrochar e crescer essas faculdades, ao longo do tempo.

Até hoje, a fé é a mais compreendida pelo seu aspecto religioso. Isso acontece porque as pessoas não entenderam o verdadeiro caráter da missão de Cristo, considerando-O apenas como um chefe de religião, capaz de operar milagres através da fé. Porém, esse não é o único objetivo da fé na vida do homem; ela também reflete a confiança que se tem na possibilidade de se realizar alguma coisa.

O Cristo realizou verdadeiros milagres, demonstrando, com eles, o que pode o homem quando possui fé, ou seja, quando tem a vontade de querer e a certeza de que com esta vontade pode realizar muitas coisas. Os apóstolos, tal como Ele, também não realizaram milagres? Os milagres nada maus são do que a ocorrência de fenômenos naturais, que se operam mediante a vontade de quem quer que seja, desde que possua uma fé ardente, sincera e verdadeira. As causas desses efeitos naturais eram desconhecidas pelos homens daquela época. Hoje são, em grande parte, explicados e compreendidos pelo estudo do Espiritismo e do Magnetismo.

A fé pode ser humana, se o homem aplicar suas faculdades na realização de coisas materiais, ou pode ser Divina, quando ele, pensando em seu futuro, usar essas faculdades para seu aperfeiçoamento espiritual. O homem inteligente, que se lança na realização de um grande empreendimento, triunfa se tem fé. Ele sente, em si mesmo, que pode e deve atingir seu objetivo, e é justamente essa certeza íntima que lhe dá uma força extraordinária. O homem de bem, que acredita na continuação da vida após a morte e deseja preencher sua existência com nobres e belas ações, retira de sua fé e da certeza na felicidade que o aguarda, a força necessária para realizar os milagres da caridade, do devotamento e do desapego. Com a fé não existem tendências más que não possam ser vencidas.

O magnetismo, quando colocado em ação, é uma das maiores provas do poder que a fé possui. É pela fé que o Magnetismo cura e produz fenômenos especiais que, antigamente, eram qualificados como milagres.

Repito: A fé é humana e Divina. Se todos os encarnados tivessem consciência da força que trazem consigo, e se quisessem colocar sua vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que até agora chamamos de prodígios, mas que não passam do desenvolvimento das faculdades humanas.


Comentário

1. Lunático - Essa expressão era muito usada, na época de Jesus, referindo-se às pessoas que sofriam de obsessões ou problemas mentais.
 

domingo, 11 de dezembro de 2022

Muitos São Os Chamados E Poucos Os Escolhidos

CAPÍTULO XVIII

Muitos São Os Chamados 
E Poucos Os Escolhidos

• Parábola da Festa de Núpcias •  A Porta Estreita
 • Nem Todos Os Que Dizem "Senhor! Senhor!" Entrarão no Reino Dos Céus • A Quem Muito Foi Dado, Muito Será Pedido


Instruções Dos Espíritos:

• Será Dado Àquele Que Já Tem
• Reconhece-se O Cristão Pelas Suas Obras


Parábola da Festa de Núpcias

1. Jesus, falando, ainda, em parábolas disse: "O Reino dos Céus é semelhante a um rei que, querendo fazer uma festa para o casamento de seu filho, enviou seus servidores para que chamassem os convidados para as bodas, mas eles se recusaram a vir. O rei, então, enviou outros servidores, com o seguinte recado aos convidados: 'Digam a eles que já preparei meu banquete, mandei matar meus bois e todos os animais que tinha engordado, tudo já está pronto, digam a eles que venham para as festividades.'. Porém, os convidados desprezaram novamente o convite e se foram, uns para suas casas de campo, outros para os seus negócios. Outros, após terem insultado os servidores do rei, ainda os mataram. O rei, após saber o que aconteceu, ficou muito furioso, e enviou seus soldados, matando os assassinos e queimando suas cidades.

Então, o rei disse a seus servidores: 'As festividades estão prontas, mas os que foram convidados não eram dignos de participar. Vão pelas encruzilhadas e convidem para os festejos todos aqueles que encontrarem.'. Os servidores do rei foram, então, para as ruas e convidaram todos que encontravam, bons e maus e a sala do banquete de núpcias ficou repleta de pessoas.

Em seguida o rei entrou na sala para ver o que estavam à mesa, e percebendo um homem que não estava com a roupa nupcial, lhe disse: 'Meu amigo, como entrou aqui sem ter a roupa nupcial?'. E o homem permaneceu em silêncio. Então, o rei disse a seus servidores: 'Atem as mãos e os pés e lancem esse homem nas trevas exteriores onde haverá pranto e ranger de dentes, pois muitos são os chamados e poucos os escolhidos.'" (Mateus, 22:1 a 14)

2. O incrédulo ri desta parábola que lhe parece uma ingenuidade, pois não compreende que possa haver tanta dificuldade para ir a uma festa, ainda mais quando os convidados chegam ao ponto de massacrar os enviados do dono da casa. "As parábolas", diz o incrédulo, "trazem, sem dúvida, uma linguagem figurada, mas é preciso que elas não ultrapassem o limite do aceitável.".

O mesmo pode-se dizer das fábulas mais criativas, quando não entendemos o seu verdadeiro sentido. Jesus criava Suas fábulas com os fatos mais comuns do dia a dia, e as adaptava aos costumes e ao caráter do povo a quem falava. A maioria delas tinha como objetivo fazer o povo compreender a ideia da vida Espiritual. Quando aqueles que interpretam as fábulas de Jesus não levam em conta o aspecto Espiritual, seu significado não é compreendido.

Nessa parábola, Jesus compara o Reino dos Céus, onde tudo é alegria e felicidade, a uma festa de núpcias. Em relação aos primeiros convidados, Ele refere-se aos hebreus, que foram os primeiros a serem chamados por Deus, para que conhecessem Suas Leis. Os enviados do rei são os Profetas, que convidaram os hebreus a seguirem o caminho da verdadeira felicidade. As palavras dos Profetas foram pouco escutadas, seus ensinamentos desprezados e muitos foram mesmo massacrados, como os servidores do rei na parábola da festa de núpcias. Os convidados que deixaram de comparecer, alegando que tinham que cuidar de seus campos e de seus negócios, simbolizam as pessoas absorvidas pelos problemas materiais e que não dão importância às coisa Espirituais.

Os judeus daquela época acreditavam que sua nação deveria ter o domínio sobre todas as outras. Deus não tinha prometido a Abraão que seus descendentes cobririam toda a Terra? Mas, como sempre acontece, os homens usaram o ensinamento Divino em interesse próprio, acreditando, realmente, que sua nação deveria dominar as outras no Plano Material.

Antes da vinda de Jesus, todos os povos, com exceção dos hebreus, eram idólatras, ou seja, adoravam ídolos de barro, estátuas, e eram, também, politeístas, pois acreditavam em vários deuses. Se alguns homens mais instruídos tinham a ideia do Deus único, essa ideia ficava para eles, pois em nenhuma parte ela era aceita como verdade fundamental, a não ser por alguns iniciado, que escondiam seus conhecimentos sob um véu de mistério, inacessível à compreensão do povo. Os hebreu foram os primeiros que praticaram publicamente o monoteísmo, ou seja, a crença em um Deus único. Foi a eles que Deus transmitiu Sua Lei, primeiro por Moisés, depois por Jesus. E foi desse pequeno foco que partiu a luz que deveria se espalhar pelo mundo inteiro, vencer o politeísmo e dar a Abraão, que foi o primeiro patriarca judeu a divulgar a crença em Deus único, vários seguidores pelo mundo afora.

Os judeus, embora rejeitassem a idolatria, descuidaram-se do cumprimento das Leis Morais, para se dedicarem ao culto dos rituais exteriores, que era uma prática bem mais fácil. O mal tinha chegado a seu ponto mais alto. A nação, dominada pelos romanos, estava desfigurada pelas facções políticas, dividida pelas várias seitas. A descrença havia penetrado até mesmo no Templo de Jerusalém. Foi nesse período que Jesus foi enviado para chamar a atenção do povo judeu quanto à observância da Lei, e abrir para eles os novos horizontes da vida futura. Os judeus foram os primeiros a serem convidados para o grande banquete da fé universal, e, além de rejeitarem a palavra do Messias, ainda o crucificaram. Foi assim que perderam o fruto que poderiam ter colhido por sua própria iniciativa.

Entretanto, não é justo acusar todo o povo hebreu por esse estado de coisas. A responsabilidade coube, principalmente, aos fariseus, com seu orgulho e fanatismo, e aos saduceus, com sua incredulidade. Juntos, esses dois segmentos arruinaram a nação. É a eles que Jesus comparou os convidados que se recusaram a comparecer à festa de núpcias. Depois, Jesus acrescenta: "O rei, vendo isso, mandou convidar todos aqueles que se encontravam nas encruzilhadas, bons e maus.". Quis dizer, desse modo, que a palavra de Deus seria pregada a todos os outros povos, incluindo os pagãos, que não acreditavam em Deus, e os idólatras que adoravam ídolos de barro. Se estes aceitassem a palavra, seriam admitidos na festa de núpcias, no lugar dos primeiros convidados.

Porém, não basta ser convidado, não basta dizer-se cristão, nem sentar-se à mesa para fazer parte do Banquete Celestial. É preciso estar vestido com a roupa nupcial, ou seja, ter a pureza de coração e praticar a Lei levando em conta seu aspecto espiritual.

A Lei está toda contida nestas palavras: Fora da caridade não há salvação. Mas, dentre todos aqueles que ouvem a palavra de Deus, poucos são os que se interessam por ela e a colocam em prática. Por isso, poucos são, também, aqueles que se tornam dignos de entrar no Reino dos Céus! Foi por isso que Jesus disse: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos."

A Porta Estreita

3. Entrem pela porta estreita, pois a porta da perdição é larga e o caminho que a ela conduz é espaçoso, e há muitos que por ela entram. Como é pequena a porta da vida! Como o caminho que conduz a essa porta é estreito! E como há poucos que a encontram! (Mateus, 7:13 e 14).

4. Alguém da multidão perguntou a Jesus: "Senhor, são poucos os que se salvam?". E Ele respondeu: "Vocês devem se esforçar para entrar pela porta estreita, pois Eu asseguro que muitos tentarão entrar por ela e não conseguirão. E depois que o pai de família entrar e fechar a porta, vocês, tendo ficado do lado de fora, irão bater à porta dizendo: 'Senhor, abra a porta para nós.' E Ele responderá: 'Eu não sei de onde vocês são.' Então, começarão a dizer: 'Comemos e bebemos na Sua presença, recebemos seus ensinamentos em nossas praças públicas.'. E Ele responderá: 'Não sei de onde são, afastem-se de Mim, todos vocês que cometem atoa de injustiça. Quando virem Abraão, Isaac e Jacó e todos os Profetas no Reino de Deus, e vocês ficarem excluídos, haverá choro e ranger de dentes. Virão do Oriente e do Ocidente, do Sul e do Norte, muitos os que terão lugar na festa do Reino de Deus. Então, aqueles que foram os últimos, serão os primeiro, e os que foram os primeiros, serão os últimos.". (Lucas, 13:23 a 30)

5. A porta da perdição é larga porque as más paixões são numerosas e o caminho do mal é frequentado pela maioria. A porta da salvação é estreita porque o homem que deseja transpô-la deve fazer grandes esforços para vencer suas más tendências e poucos se submetem a isso. É a constatação do ensinamento moral: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos.".

Esse é o estado atual da Humanidade terrena, e a Terra é um mundo de expiações onde o mal ainda predomina. Quando a Humanidade terrena evoluir, moral e intelectualmente, transformará a Terra em um mundo de regeneração, e o caminho do bem será mais frequentado. Esse ensinamento deve ser sempre entendido no seu verdadeiro significado, ou seja, de que a Humanidade está sempre em evolução. Se o estado normal da Humanidade fosse viver em um mundo de expiações, Deus estaria condenando, voluntariamente, à perdição, a maior parte de Suas criaturas, suposição esta que não pode ser admitida, desde que se reconheça que Deus é todo justiça e todo bondade.

A ideia de viver uma única existência faz o bem estar sempre em condição consigo mesmo e com a Justiça de Deus. Se a alma nada fez de ruim antes dessa vida, por que a Humanidade mereceria uma sorte tão triste, no presente e no futuro, tendo que viver num mundo de expiações como a Terra? Por que tanto entraves no caminho? Qual a necessidade de uma porta tão estreita, onde somente poucos conseguem transpor, se a sorte da alma está definitivamente fixada após a morte? Com o ensinamento de que a alma já viveu várias existências e de que existem diversos mundos habitados, o horizonte do homem de alarga e a luz ilumina os pontos menos esclarecidos da fé. O presente e o futuro tornam-se consequência do passado. Só assim podemos compreender toda grandeza, toda a verdade e toda a sabedoria dos ensinamentos morais do Cristo.


Nem Todos Os Que Dizem "Senhor! Senhor!"
Entrarão No Reino Dos Céus

6. Nem todos os que dizem: "Senhor! Senhor!" entrarão no Reino dos Céus. Apenas entrarão aqueles que fazem a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos vão dizer "Senhor! Senhor!" Não profetizamos em Seu nome? Não expulsamos os demônios, e também não fizemos diversos milagres em Seu nome?". E então, Eu direi em voz alta: "Afastem-se de Mim, todos vocês que cometem atos de injustiça" (Mateus, 7:21 a 23).

7. Todo aquele que ouvir e praticar as palavras que Eu digo, será comparado a um homem sábio que construiu sua casa sobre a rocha. Quando a chuva veio e os rios transbordaram e os ventos sopraram, ela não caiu, pois foi construída sobre uma base firme. Mas todo aquele que ouvir e não praticar as palavras que Eu digo, será como o homem insensato que construiu sua casa sobre a areia. Quando a chuva caiu e os rios transbordaram e os ventos sopraram, ela desmoronou e foi grande o prejuízo de seu dono (Mateus, 7:24 a 27; Lucas, 6:46 a 49).

8. Aquele que viola os mandamentos e que ensinar os homens a violá-los, será considerado como o último no Reino dos Céus. Porém, aquele que seguir os mandamentos e ainda ensinar a outros, será o primeiro no Reino dos Céus (Mateus, 5:19).

9. Todos os que reconhecem a missão de Jesus dizem "Senhor! Senhor!". Mas para que server chamá-lo de Mestre ou Senhor, se os Seus ensinamentos não são seguidos? Será que são Cristãos aqueles que O adoram apenas pela aparência e, ao mesmo tempo, se entregam ao orgulho, ao egoísmo, à ambição e a todas as paixões? Será que são Seus discípulos, aqueles que passam dias rezando e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais tolerantes para com seus semelhantes? Não! Porque, assim como os fariseus, eles têm a prece nos lábios e não no coração. Com o ritual, eles podem se impor aos homens, mas não a Deus. É em vão que eles dirão a Jesus: "Senhor, profetizamos, ou seja, ensinamos em Seu nome, expulsamos os demônios em Seu nome, bebemos e comemos com o Senhor.", pois Eles lhes responderá: "Não sei quem são vocês, afastem-se de Mim, todos vocês que cometem atos de injustiça, que desmentem suas palavras com suas ações, que caluniam o próximo, que despojam as viúvas e cometem adultério. Afastem-se de Mim, vocês cujo coração destila ódio e fel, que derramam o sangue de seus irmãos em Meu nome, que fazem correr as lágrimas em vez de secá-las. Para vocês, haverá choro e ranger de dentes, porque o Reino de Deus é para aqueles que são mansos, humildes e caridosos. Não esperem enganar a justiça do Senhor pela quantidade de palavras que dizem ao rezar e pelo número de vezes que se ajoelham. O único meio para alcançar a graça perante Ele é a prática sincera da Lei do Amor e da Caridade". 

As palavras de Jesus são eternas porque representam a verdade. Elas garantem a passagem para a Vida Celeste, como também garantem a paz, a tranquilidade e a estabilidade para os homens durante a Vida Terrena. Eis por que todas as instituições humanas, políticas, sociais e religiosas que se apoiarem em Suas palavras serão estáveis como a casa construída sobre a rocha, e os homens irão conservá-las porque nelas encontrarão sua felicidade. Porém, aquelas instituições que violarem a palavra de Jesus, serão como a casa construída sobre a areia, onde o vendo das transformações e o rio do progresso irão arrastá-las.


A Quem Muito Foi Dado, Muito Será Cobrado

10. O servidor que conhece a vontade do seu Senhor, e não fez o que lhe foi pedido, será punido com muito mais rigor. Aquele que não conhece a vontade do seu Senhor e fez coisas dignas de castigo, será punido com menos rigor. Aquele a quem muito foi dado, muito será pedido e cobrado. Uma grande prestação de contas será exigida daquele a quem muitas coisas foram confiadas (Lucas, 12:47 e 48).

11. Jesus disse: "Eu vim a este mundo para fazer um julgamento, a fim de que aqueles que não enxergam as verdades que foram ensinadas, passem a enxergá-las. E aqueles que já as enxergam se tornem cegos para as coisas que atrapalham o seu progresso." Alguns fariseus que estavam com Jesus, ao ouvirem essas palavras, Lhe perguntaram: "Por acaso, nós também somo cegos?". E Jesus lhes respondeu: "Se vocês fossem cegos, não teriam pecados. Porém, agora estão me dizendo que enxergam, ou melhor, que conhecem a Lei de Deus. E, se ainda assim não a praticam, é por isso que o pecado permanece em vocês." (João, 9:31 a 41).

12. Essas palavras de Jesus encontra, sua aplicação, especialmente, no ensinamento dos Espíritos. É certamente culpado todo aquele que conhece a Doutrina do Cristo e não a pratica. O Evangelho, que contém os ensinamentos de Jesus, é difundido apenas entre as religiões cristãs. E, mesmo entre essas religiões, muitas pessoas não o leem, e, entre aquelas que leem, muitas não conseguem compreendê-lo" Disso resulta que as palavras do Cristo ficam perdidas para um grande número de pessoas.

Os Espíritos, pelo fato de se comunicarem em todos os lugares, procuram explicar as palavras de Jesus de uma forma universal, para que todos possam entendê-las. Cultos ou incultos, crentes ou incrédulos, cristãos ou não, qualquer um pode recebê-las. Ninguém que recebeu o ensinamento, diretamente dos Espíritos ou por intermédio de outras pessoas, poderá alegar ignorância, nem desculpar-se por não possuir instrução, nem dizer que o ensinamento não possui clareza ou que possui sentido figurado. Assim, aquele que conhece os ensinamentos de Jesus e não os utiliza para melhorar sua conduta, tornando-se menos fútil, menos orgulhoso, menos egoísta, menos apegado aos bens materiais, que não se melhora em relação ao próximo, é muito mais culpado porque teve mais meios de conhecer a verdade. Essas pessoas admiram os ensinamentos como coisas interessantes e curiosas, mas eles não tocam seus corações.

Os médiuns que recebem boas comunicações são ainda mais culpados se persistirem no mal, pois, muitas vezes, escrevem sua própria condenação. Se não fossem cegos pelo orgulho, reconheceriam que é a eles mesmos que os Espíritos se dirigem. Mas em vez de tomarem para si as lições das mensagens que recebem, seu único pensamento é o de aplicá-las aos outros, confirmando, assim, as palavras de Jesus: "Veem o cisco que está no olho do próximo e não veem a trave que está no seu." (ver nesta obra, cap. 10:9)

Por essas palavras: "Se fossem cegos, não teriam pecados.", Jesus confirma que a culpa está na razão direta do conhecimento que possui. Os fariseus, que tinham a pretensão de ser, e que, de fato, eram, a parcela mais esclarecida da nação, eram mais culpados aos olhos de Deus do que o povo ignorante.

O mesmo acontece hoje. Aos Espíritas, muito será pedido, porque muito receberam, mas aqueles que aproveitarem o ensinamento, muito receberão em troca.

O primeiro pensamento de todo Espírita sincero deve ser o de procurar, no conselho dado pelos Espíritos, se não existe alguma coisa que lhe diga respeito.

O Espiritismo vem multiplicar o número dos chamados, e, pela fé que proporciona, multiplicará, também, o número de escolhidos.



Instruções dos Espíritos

Será dado Àquele Que Já Tem
Um Espírito Amigo - Bordeaux, 1862.

13. Os discípulos de Jesus lhe perguntaram: "Por que o Senhor fala por parábolas?" E Ele respondeu: "Aos Meus discípulos foi permitido conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas aos outros isso não foi permitido. Porque aquele que já tem conhecimento, que trabalhou e produziu boas obras, será dado ainda mais, e ele ficará na abundância. Aquele que não tem, porque não se interessou em aprender, não trabalhou, nem produziu boas obras, lhe será retirado até mesmo o pouco que tem. É por isso que Eu falo por parábolas, porque ai ver, eles nada enxergam, e, ao ouvir, nada compreendem. Neles se cumpre a profecia de Isaías, que disse: "Escutarão com seus ouvidos e não entenderão, olharão com seus olhos e não enxergarão." (Mateus, 13:10 a 14)

14. Jesus disse: "Prestem atenção ao que vão ouvir - vocês serão medidos com a mesma medida que usarem para medir os outros e ainda lhes será acrescido um pouco mais. Porque aqueles que têm, receberão ainda mais e aqueles que não têm, até mesmo o pouco que possuem lhes será retirado." (Marcos, 4:24 a 25)

15. Dar para aqueles que têm e retirar daqueles que não têm. Meditemos um pouco sobre esse grande ensinamento, que, muitas vezes, parece contraditório.

Aqueles que receberam são aqueles que entenderam i ensinamento de Deus. Receberam porque se esforçaram e se tornaram dignos para tanto. O Senhor, em Seus amor misericordioso, encoraja aqueles cujos esforços tendem para o bem. A dedicação daqueles que perseveram atraem as graças do Senhor. É como um ímã que atrai as coisas boas e os torna fortes para subirem a montanha sagrada, no alto da qual encontrarão o repouso após o trabalho.

Tirar daqueles que nada têm, ou têm pouco. Entendamos isso como um ensinamento figurado. Deus não retira de Suas criaturas o bem que se dignou a fazer-lhes. Homens cegos e surdos! Abram suas inteligências e seus corações. Vejam pelo Espírito, entendam pela alma e não interpretem de maneira tão grosseira as palavras de Jesus. Não é Deus quem retira daqueles que receberam pouco, são os próprios homens que, esbanjadores e descuidados, não sabem conservar o que possuem. Não sabe, aumentar, pelo esforço de seus trabalhos, a dádiva que receberam em seus corações.

O filho que herdou de seu pai um campo e que, por não cultivá-lo, vê esse campo cobrir-se de ervas daninhas, poderá dizer que seu pai é culpado pelas colheitas que não colheu? Se ele, por falta de cuidado, deixou morrer no campo os grãos que estavam destinados a produzir, deve acusar seu pai pela falta de produção? Em vez de acusar o pai, que tudo lhe deu e agora lhe retoma os bens, deve acusar a si mesmo, porque ele é o verdadeiro responsável por seu fracasso. Quando se arrepender, deve se entregar ao trabalho, com fé e coragem, preparando o solo improdutivo com o esforço de sua vontade. Deve trabalhar com amor no coração, pois com o auxílio do arrependimento e da esperança semeará, com confiança, os grãos que escolheu como bons e os regará com seu amor e sua dedicação. Assim, o Deus de amor e bondade dará ainda mais para aquele que já tem, e ele verá seus esforços coroados de sucesso, vendo um grão produzir cem e outro mil. Coragem, trabalhadores! Peguem seus arados e retirem a discórdia de seus corações. Semeiem a boa semente que o Senhor fornece, e o sentimento de amor fará com que produzam frutos de caridade.


Reconhece-se o Cristão Pelas Suas Obras
Simeão - Bordeaux, 1863.

16. "Nem todos os que dizem "Senhor, Senhor!" entrarão no Reino dos Céus, mas apenas aqueles que fizerem a vontade de Meu Pai que está nos Céus.".

Escutem a palavra do Mestre, todos vocês que rejeitam a Doutrina Espírita e a tem como obra do demônio. Abram os ouvidos, pois já é tempo de compreender.

Será que basta trazer o símbolo do Senhor para ser Seu fiel servidor? Será que basta dizer "Eu sou Cristão" para seguir o Cristo? Procurem os verdadeiros cristãos e eles serão reconhecidos por suas obras. Jesus falou: "Uma árvore boa não pode dar maus frutos, assim como uma árvore ruim não pode dar bons frutos. Toda árvore que não dá bons frutos, será cortada e lançada ao fogo.". Discípulos do Cristo! Compreendam bem essas palavras. Quais são os frutos que deve produzir a árvore do Cristianismo, árvore majestosa, cujos ramos frondosos cobrem com sua sombra uma parte do mundo, mas que ainda não abriga todos aqueles que deveriam se reunir ao seu redor? Os frutos da árvore da vida são os frutos da esperança e da fé. O Cristianismo, como vem fazendo há muitos séculos, continua pregando sempre as virtudes Divinas, procurando distribuir seus frutos, mas são poucos aqueles que os colhem! A árvore é sempre boa, mas os jardineiros são maus. Eles procuram moldá-la segundo suas ideias e necessidades. Por isso, cortaram, diminuíram e mutilaram a árvore do Cristianismo. Seus ramos já não produzem mais frutos. O viajante cansado, que sob a sua sombra procura o fruto da esperança, que deveria lhe dar força e coragem, encontra apenas ramos áridos que prenunciam o mau tempo. Em vão, ele pede para a árvore da vida que lhe dê o fruto da vida. As folhas caem secas aos seus pés. A mão do homem mexeu tanto, que ela secou!

Abram seus ouvidos e seus corações, meus bem-amados! Cultivem a árvore da vida, cujos frutos dão a vida eterna. Aquele que a plantou os convida a cuidar dela com amor, para vê-la dar, ainda, com abundância, seus frutos Divinos. Deixem a árvore da vida tal como o Cristo a entregou a vocês: não a mutilem; ela quer estender, sobre o Universo, sua imensa sombra, portanto, não cortem seus ramos. Seus frutos generosos caem em abundância para sustentar o viajante faminto que anseia deixá-los apodrecer, a fim de que não sirvam a ninguém. Se muitos são os chamados e poucos os escolhidos, é porque existem os monopolizadores do pão da vida, como existem os monopolizadores do pão material. Não estejam entre eles, pois a árvore que produz bons frutos deve distribuí-los para todos. Procurem aqueles que estão famintos e os tragam para a sombra da árvore, dividindo com eles o abrigo que ela oferece. Não se colhem uvas dos espinheiros. Meus irmãos, afastem-se daqueles que os chamam somente para mostrar o lado ruim das coisas e sigam aqueles que irão conduzi-los à sombra da árvore da vida.

Jesus disse, e Suas palavras não passarão: "Nem todos aqueles que Me dizem 'Senhor, Senhor!' entrarão no Reino dos Céus, mas só aqueles que fizerem a vontade de Meu Pai que está nos Céus.".

Que o Senhor de bênçãos os abençoe, que Deus de luz os ilumine, que a árvore da vida lhes ofereça seus frutos com abundância! Creiam e orem!


Comentários

1. Roupa Nupcial - Naquela época, quando alguém recebia do rei o convite para um banquete de núpcias, recebia junto uma roupa que era uma espécie de túnica, e seu uso era obrigatório na festa. Entrar sem vestir os trajes que o rei oferecia era uma grande ofensa, uma demonstração de desprezo para quem fez o convite e um desrespeito. O sentido da roupa nupcial, nessa parábola, é o de que não basta ser convidado, é preciso estar preparado, ou seja, fazer boas obras, ajudar o próximo, possuir amor, pureza, humildade, bondade e todas as qualidades necessárias para entrar no Reino dos Céus.

Trevas exteriores - O termo ser lançado nas trevas exteriores significa ir para um lugar ruim, onde não existe o bem. Provavelmente, Jesus refere-se ao umbral, mas, naquela época, essa palavra não era utilizada, uma vez que o conhecimento sobre esse assunto veio bem mais tarde.

Pranto e ranger de dentes - Significa o extremo sofrimento, o remorso daqueles que não reformaram sua conduta, que não se emprenharam em vencer seus vícios e defeitos, substituindo-os por virtudes. Terão encarnações dolorosas, onde passarão pela dor da expiação.

2. Hebreus - Era o nome primitivo do povo judaico.

13. Parábola - É a narração de uma história figurada, simbólica, sob a qual se escondem ensinamentos importantes, geralmente, de cunho moral e que devem ser seguidos.

14. Aqueles que têm, receberão ainda mais - Jesus refere-se ao conhecimento espiritual, pois, para aquele que possui conhecimento dos bens espirituais, mais conhecimento lhe será dado, porque ele já está pronto para receber, e ele ficará na abundância. Entretanto, aquele que não desenvolve os bens espirituais, o pouco progresso que possui fica estacionados e ele tem a sensação de perda.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Sejam Perfeitos

CAPÍTULO XVII

Sejam Perfeitos

• Características da Perfeição •  O Homem de Bem
 • Os Bons Espíritas • Parábola do Semeador 


Instruções Dos Espíritos:

• O Dever • A Virtude • Os Superiores e os Inferiores
• O Homem no Mundo • Cuidar do Corpo e do Espírito


Características da Perfeição

1. Jesus disse: "Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, e orem por aqueles que perseguem e caluniam vocês. Assim, serão filhos de seu Pai que está nos Céus, e que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas aqueles que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que fazem mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito." (Mateus, 5:44, 46 a 48).

2. Uma vez que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, este ensinamento moral: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito", se tomado ao pé da letra, daria a entender a possibilidade do homem também atingir a perfeição absoluta. Se fosse dado à criatura ser tão perfeita quanto o Criador, ela O igualaria, o que é inadmissível. Os homens, aos quais Jesus falava, não tinham condições de compreender essa questão, por isso, Ele se limitou em apresentar-lhes um modelo, e pediu para que se esforçassem em atingi-lo.

Jesus falava de uma perfeição relativa, aquela que a Humanidade era capaz de compreender e que a aproximasse mais da Divindade. Mas em que consiste essa perfeição? Jesus mesmo disse: "Amar os inimigos, fazer o bem para aqueles que nos odeiam, orar por aqueles que nos perseguem.". Eles mostra, com isso, que a essência da perfeição é a caridade, pois, para praticá-la, é necessário possuir todas as outras virtudes.

De alguma forma, a prática da caridade é influenciada pelos vícios e pelos pequenos defeitos que o homem possui. Todos esses vícios nascem do egoísmo e do orgulho, que são sentimentos contrários. Tudo que estimula exageradamente a personalidade enfraquece os princípios da verdadeira caridade, que são: a bondade, a indulgência, a abnegação e o devotamento. Se aquele que ama o próximo consegue também amar os inimigos, isso é sempre um indício de superioridade moral. Assim, o grau de perfeição de uma pessoa está na razão direta do amor que ela consegue ter pelo seu próximo. Eis por que Jesus, após ter dado a Seus discípulos as regras da caridade, no que ela tem de mais sublime, disse: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito.".


O Homem de Bem

3. O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da Justiça, do Amor e da Caridade em toda sua pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa Lei, se não fez o mal, se fez todo bem que podia, se, de propósito, não deixou escapar uma ocasião de ser útil, se ninguém tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que os outros lhe fizessem.

O homem de bem tem fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria Divina. Sabe que nada acontece sem a Sua permissão e, em todas as ocasiões, se submete a Sua vontade.

Tem fé no futuro, razão pela qual coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.

Sabe que todas as dificuldades da vida, todas as dores todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem se queixa.

O homem bondoso, que possui o sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem sem esperar recompensa, retribui o mal com o bem, defende o fraco contra o forte e sacrifica, sempre, seus interesses pela justiça.

Encontra satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas alegrias que proporciona ao próximo, nas lágrimas que seca, nas consolações que leva aos aflitos. Pensa primeiro nos outros, antes de pensar em si, procura os interesses alheios antes de procurar os seus. O egoísta, ao contrário, calcula os ganhos e as perdas de cada ação generosa. 

O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, não faz distinção de raças ou crenças, pois vê todos os homens como irmãos seus.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não amaldiçoa quem não pensa como ele.

O homem de bem, em todos os momentos, tem como guia a caridade. Sabe que todo aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que fere com seu orgulho e seu desprezo os sentimentos de alguém, que não se importa em causar um sofrimento quando este poderia ser evitado, e que não possui amor pelo próximo, não merecerá o perdão do Senhor até que se arrependa do fundo do coração.

Não tem ódio, nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e apenas se lembra dos benefícios, pois sabe que será perdoado assim como perdoou.

É tolerante para com as fraquezas alheias porque sabe que ele mesmo tem necessidade de tolerância e recorda das palavras do Cristo: Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.

Não se satisfaz em procurar os defeitos dos outros, nem coloca-los em evidência. Se a necessidade o obriga a fazer isso, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.

Estuda suas próprias imperfeições e trabalha sem cessar para combatê-las. Emprega todos os seus esforços para poder dizer, no dia seguinte, que existe nele algo de melhor do que no dia anterior.

Procura não exaltar seus conhecimentos em detrimento de outros, ao contrário, aproveita todas as ocasiões para ressaltar as qualidades alheias.

O homem de bem não se envaidece de sua riqueza nem de suas vantagens pessoais, pois sabe que tudo que lhe foi dado pode ser retirado.

Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe que se trata de um depósito do qual terá que prestar contas. Sabe, também, que, se empregar esses bens na satisfação de suas paixões, o maior prejudicado será ele mesmo.

Se nas relações sociais alguns homens estão sob seu comando, trata-os com bondade e benevolência, pois são seus semelhantes perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes o moral e não para esmagá-los com seu orgulho. Evita tudo o que poderia tornar mais difícil a posição subalterna em que estão.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los da melhor maneira possível (veja cap. 17:9).

Finalmente, o homem de bem respeita todos os direitos que as Leis da Natureza asseguram aos seus semelhantes, como deseja que os seus sejam respeitados.

Esta não é a relação completa de todas as qualidades que distinguem o homem de bem; mas aquele que se esforçar para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais virtudes.


Os Bons Espíritas

4. O Espiritismo, bem compreendido e bem vivenciado, leva o homem a possuir as qualidades descritas para o homem de bem. Essas qualidades caracterizam o verdadeiro Espírita, assim como o verdadeiro Cristão, pois tanto um quanto o outro são a mesma coisa. O Espiritismo não cria uma nova moral, ele apenas facilita aos homens a compreensão e a prática da moral do Cristo. Oferece uma fé sólida e traz o esclarecimento para aqueles que duvidam ou vacilam.

Muitos, que acreditam nas manifestações espíritas, não compreendem sias consequências, nem seu alcance moral, ou, se os compreendem, não aplicam a si mesmos. Por que isso acontece? Será falta de clareza da Doutrina? Não, pois a Doutrina Espírita não utiliza nenhuma linguagem figurada que possa dar margem a falsas interpretações. Sua essência está em sua própria clareza e é daí que vem sua força, pois ela explica as coisas de maneira fácil, atingindo diretamente a inteligência daqueles que a procuram. Ela não possui nada de misterioso, e seus seguidores não estão de posse de nenhum segredo oculto ao povo.

Será necessária, então, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, pois existem homens de reconhecida capacidade intelectual que não a compreendem, enquanto que, pessoas comuns, jovens recém-saídos da adolescência, apreendem-na com admirável facilidade, até mesmo nos seus detalhes mais sutis. Isso acontece porque a parte material da Ciência não requer mais do que os olhos para ser observada, ao passo que a essência do Espiritismo requer um certo grau de sensibilidade que independe da idade ou do nível de instrução da criatura. Essa sensibilidade pode ser chamada de maturidade do senso moral. Essa maturidade, que lhe é própria, corresponde ao grau de desenvolvimento que o Espírito encarnado já possui.

Em algumas pessoas, os laços que as prendem às coisas materiais estão ainda muito fortes para permitir que o Espírito se desprenda das coisas terrenas. O nevoeiro que as envolve impede-lhes a visão do infinito. Eis por que não conseguem romper facilmente com seus gostos e com seus hábitos, pois não compreendem que possa existir algo melhor do que aquilo que possuem. A crença nos Espíritos, para essas pessoas, é um simples fato que não modifica em nada suas tendências instintivas. Enxergam apenas um raio de luz, insuficiente para orientá-las e despertar uma vontade decidida que seja capaz de modificar seus pensamento. Elas apegam-se mais aos fenômenos espíritas do que à moral, que lhes parece banal e monótona. Pedem aos Espíritos para terem acesso de imediato aos novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignas de conhecer os segredos do Criador. São Espíritas imperfeitos, porque não se desenvolvem e acabam se afastando de seus irmão em crença, pois recuam ante a obrigação de se reformarem. Preferem reservar suas simpatias para os que possuem as mesmas fraquezas ou prevenções. De qualquer forma, aceitar os princípios da Doutrina Espírita é um primeiro passo que facilitará o segundo, numa outra existência.

Aquele que pode ser qualificado como verdadeiro Espírita já se encontra num grau superior de adiantamento moral. Seu Espírito já possui um domínio maior sobre a matéria, por isso, tem uma percepção mais clara do futuro. Os princípios da Doutrina Espírita fazem vibrar nele o lado espiritual, que ainda permanece adormecido nas outras criaturas. Podemos dizer que ele foi tocado no coração, que sua fé tornou-se inabalável. O Espírita é como um músico que se comove com os acordes, enquanto que a maioria ouve apenas o som. O verdadeiro Espírita é reconhecido por sua transformação moral e pelos esforças que faz para dominar suas más tendências. Enquanto o homem comum se satisfaz com seu horizonte limitado, o Espírita compreende a existência de alguma coisa melhor e procura libertar-se para atingi-la. Ele sempre conseguirá, se tiver uma vontade firme e determinada.


Parábola do Semeador

5. Jesus, ao sair de casa, sentou-se à beira-mar, e uma grande multidão de pessoas reuniu-se ao seu redor. Assim, Ele subiu em um barco, e todos ficaram em pé na praia. Foi então que Ele falou ao povo, em forma de parábolas:

Aquele que semeia, saiu a semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíam ao longo da estrada, e os pássaros do Céu vieram e comeram-nas.

Uma outra quantidade caiu nas pedras, onde havia pouca terra, por isso, logo germinaram. Como a terra era pouca, não puderam criar raízes e, quando o sol nasceu, as sementes secaram.

Outras caíram nos espinhos e, quando eles cresceram, sufocaram as sementes. 

Finalmente, outras caíram em terra boa e deram frutos. Alguns grãos renderam cem por u, outros sessenta, e outros, trinta.

Que ouçam aqueles que têm ouvido para ouvir. (Mateus, 13:1 a 9)

Escutem, vocês também, a parábola do semeador.

Todo aquele que ouve a palavra do Reino De Deus e não presta atenção, faz surgir o Espírito mau, que arrebata tudo o que havia sido semeado em seu coração. Esse é aquele que deixou s semente cair ao longo da estrada.

O que deixou a semente cair junto às pedras é aquele que ouve a palavra do Cristo, e a recebe na mesma hora, com alegria, mas, por não ter raízes em si, essa alegria dura pouco tempo. Quando surgem os problemas e as perseguições por causa da palavra, ele logo se revolta e abandona tudo.

O que deixou a semente cair entre os espinhos é aquele que ouve a palavra, mas é sufocado pelas modernidades e pelas ilusões da riqueza. Por isso, a palavra, para ele torna-se sem valor.

O que deixou a semente cair em uma terra boa é aquele que escuta a palavra de Cristo, presta atenção e procura segui-la. É nele que a palavra produzirá frutos que irão render cem ou sessenta ou trinta por um. (Mateus, 13:18 a 23).

6. A parábola do semeador descreve as diversas maneira de se por em prática os ensinamentos do Evangelho. Quantas pessoas existem para as quais os ensinamentos não passam de palavras sem valor. Elas são como as sementes que caíram sobre as pedras, nada produzem, nada frutificam!

Essa parábola se aplica, também, aos diversos tipos de Espíritas. Ela é o símbolo daqueles que se apegam somente aos fenômenos materiais, sem tirar deles nenhum proveito. Veem os fenômenos como mero objeto de curiosidade. Simboliza, também, os que procuram somente o lado brilhante das comunicações dos Espíritos, interessando-se apenas enquanto elas satisfazem a sua imaginação. Porém, depois de ouvi-las, continuam frios e indiferentes como eram antes. A parábola do semeador também simboliza aqueles que acham os conselhos muito bons, mas para serem aplicados aos outros, e não em si mesmos. E, finalmente, simboliza aqueles para quem os ensinamentos são como a semente que caiu em terra boa e produz bons frutos.


Instruções Dos Espíritos:
Lázaro - Paris, 1863

7. O dever é a obrigação moral do homem, primeiro para consigo mesmo, em seguida, para com os outros. O dever é uma Lei da Vida, pois é encontrado tanto nos atos mais simples como nos mais elevados. Quero examinar, aqui, apenas o dever moral e não o dever que as profissões impõem.

O dever é um sentimento muito difícil de ser cumprido, pois será em oposição com os interesses materiais e os interesses do coração. Quando cumprimos com o dever, não fazemos mais do que a nossa obrigação e não nos elogiamos por isso. Quando não cumprimos, também não permitimos que nossa consciência nos repreenda.

O dever íntimo do homem é governado pelo seu livre-arbítrio; a consciência está sempre o advertindo contra as condutas erradas. Ainda assim, ele, muitas vezes, se deixa levar pelos enganos da paixão. O homem se eleva quando observa, fielmente, os deveres do coração, que nada maus são que os seus valores interiores. Mas como esses deveres podem ser determinados? Onde começam? Onde terminam? Os deveres começam, precisamente, no ponto onde se ameaça a felicidade ou a tranquilidade do próximo e terminam no limite em que não se desejaria ver a própria felicidade ou a tranquilidade ameaçadas.

Deus criou todos os homens iguais perante a dor. Pequenos ou grandes, incultos ou esclarecidos, todos sofrem pelas mesmas coisas, a fim de que cada um avalie, de maneira consciente, o mal que pode fazer. O mesmo critério de que todos são iguais perante a dor não pode ser aplicado para o bem, pois nem todos são iguais em suas capacidades de fazer o bem. A igualdade perante a dor é uma sublime providência de Deus, pois Ele quer que Seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal alegando a ignorância de seus efeitos.

Na prática, o dever reflete todas as virtudes morais; é uma fortaleza da alma que enfrenta as angústias da luta diária. O dever é severo e dócil. Está sempre pronto a se submeter às mais diversas situações, mas permanece sempre firme perante as tentações. Aquele que cumpre seu , ama mais a Deus do que os homens, e aos homens mais do que a si mesmo. É, ao mesmo tempo, juiz e escrevo em causa própria.

O dever é o que a razão possui de mais belo. Ele provém da razão, assim como o filho provém de sua mãe. O homem deve amar o dever, não porque ele o preserve dos males da vida, aos quais a Humanidade está sujeita, mas porque ele fornece à alma a força necessária ao seu desenvolvimento.

Nos estágios superiores da Humanidade, o dever se apresenta sob uma forma mais elevada. A obrigação moral da criatura para com Deus nunca cessa. Ela deve refletir as virtudes do Criador, que não aceita um esboço imperfeito, pois quer que a beleza de Sua obra resplandeça aos Seus próprios olhos.



A Virtude
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

8. A virtude é o conjunto de todas as qualidades que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, trabalhador, moderado, modesto, são qualidades do homem que possui virtudes. Infelizmente, elas são quase sempre acompanhadas de pequenas falhas morais que as desmerecem e as enfraquecem. Aquele que se vangloria de sias virtudes não é virtuoso, pois lhe falta a principal qualidade: a modéstia, e porque tem o principal vício: orgulho. A verdadeira virtude não gosta de se exibir, ao contrário, é preciso descobri-la, pois ela se esconde no anonimato e foge da admiração das massas. Vicente de Paulo e Jean Marie Vianney, digno páraco da cidade de Ars, eram virtuosos. Deixavam-se ir ao sabor de suas inspirações e praticavam o bem com total desinteressante e completo esquecimento de si mesmos.

Meus filhos! É para a virtude verdadeiramente cristã e espírita, praticada com desinteresse, que eu os convoco. Afastem de seus corações o sentimento de orgulho, de vaidade, de amor-próprio, que sempre desvalorizam as mais belas qualidades. Não imitem o homem que se apresenta como modelo a ser seguido e que se gaba de suas próprias qualidades para aqueles que estão dispostos a ouvi-lo. Essa virtude com ostentação esconde, quase sempre, muitas mesquinharias e fraquezas.

Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que ergue uma estátua a sua própria virtude, aniquila todos os méritos que efetivamente possa ter. E o que dizer daquele que dá valor em parecer aquilo que não é? Compreendo que o homem que faz o bem, sinta no fundo do coração uma satisfação íntima Porém, se essa satisfação for usada para lhe render elogios, ela se transforma em amor-próprio. 

Todos vocês. a quem a fé espírita reanimou com seus ensinamento, que sabem o quanto o homem está longe da perfeição, não cometam nunca uma tolice dessas. A virtude é uma graça que desejo a todos os Espíritas sinceros, mas advirto: mais valem poucas virtudes com modéstia, do que muitas com orgulho; é pelo orgulho que as civilizações vêm, sucessivamente, se perdendo e será pela humildade que elas irão se redimir um dia.

Os Superiores e os Inferiores
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

9. Aquele que recebe a autoridade terá que prestar contas, assim como aquele que recebe a riqueza. Não acreditem que a autoridade seja dada para satisfazer o vão prazer de mandar, assim como acreditam erroneamente a maior parte dos poderosos da Terra, que pensam que a autoridade lhes foi dada como um direito ou uma propriedade.

Deus tem provado, constantemente, que a autoridade não é um direito e, muito menos, uma propriedade, pois a retira dos que dela se acham proprietários quando Lhe convém. Se a autoridade fosse um privilégio ligado à pessoa, ela seria intransferível. Ninguém pode dizer que uma coisa lhe pertence, quando ela pode lhe ser retirada sem o seu consentimento. Deus concede a autoridade a título de missão ou de prova, quando quer, e a retira quando julga necessário.

Todo aquele que recebe a autoridade, seja qual for o tamanho dessa autoridade, desde um patrão para com seu empregado até o soberano para com seu povo, não poderá esquecer que é um encarregado de almas e que responderá pela boa ou má orientação que der a seus subordinados. Toda responsabilidade recairá sobre aquele que, tendo autoridade, deixar que seus comandados cometam faltas e sejam levados pelo vício ou pelos maus exemplos; da mesma maneira que colherá os frutos de seu esforço por conduzi-los ao bem. Todo homem tem, na Terra, uma missão, seja ela pequena seja grande, sempre lhe será dada para o bem. Desviá-la do seu verdadeiro objetivo é fracassar em sua execução.

Assim como Deus pergunta aos ricos: "O que fizeram da riqueza que, em suas mãos, deveria ser uma fonte espalhando fecundidade ao redor de todos?", também perguntará para aqueles que receberam alguma autoridade: "Que uso fizeram dessa autoridade? Que mal impediram? Que progresso promoveram?". Se Eu dei a vocês subordinados, não foi para que fizessem deles escravos de suas vontades, nem instrumentos dóceis dos seus caprichos ou de suas ambições. Se eu fiz vocês fortes e confiei-lhes os fracos, foi para que pudessem ampará-los, ajudando-os a chegarem até Mim.

Aqueles que possuem autoridade e seguem as palavras do Cristo, não desprezam nenhum dos que estão abaixo, pois sabem que as diferenças sociais não existem perante Deus. O Espiritismo ensina que devem tratar de maneira igual a todos os seus subordinados; que aqueles que hoje lhe obedecem, talvez, já tenham lhe dado ordens ou poderão vir a dar em uma existência futura. Ensina, também, que serão tratados amanhã, conforme estão tratando, hoje, aqueles sobre os quais exercem sua autoridade.

Tanto os superiores quanto os inferiores possuem sagrados deveres a cumprir. Se o subordinado é Espírita, sua consciência lhe dirá, com mais forte razão, que não pode deixar de desempenhar seus deveres, mesmo que seu chefe não cumpra com os seus; o Espírita sabe que não deve pagar o mal com o mal e que as faltas de uns não justificam as faltas de outros. Se sofre, na condição de subalterno, sabe que esse sofrimento é merecido, porque ele mesmo pode já ter abusado, em existências anteriores, da autoridade que possuía. Experimenta agora, por sua vez, o que fez os outros sofrem. Se precisa suportar o emprego atual, por não encontrar outro melhor, o Espiritismo lhe ensina a aceitar essa situação sem reclamar, como sendo uma prova para sua humildade e necessária ao seu adiantamento. Sua conduta é norteada pelo conhecimento espiritual que possui e ele age para com seu patrão como gostaria que seus subordinados agissem para consigo, caso ele fosse o chefe. Assim, é mais cuidadoso no cumprimento de suas obrigações, pois sabe que toda negligência em seu trabalho é um prejuízo para aquele que o remunera e a quem deve seu tempo e seus esforços. Resumindo, ele é guiado pelo sentimento do dever que sua fé lhe fornece e pela certeza de que todo afastamento do caminho reto é uma dívida que, cedo ou tarde, terá que pagar.


O Homem no Mundo
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1863.

10. Um sentimento de piedade deve sempre orientar o coração daqueles que se reúnem sob os olhos do Senhor e imploram a assistência dos bons Espíritos. Purifiquem seus corações, não se perturbem por pensamentos fúteis ou mundanos. Elevem seus pensamentos em direção aos Espíritos que evocam, para que eles possam encontrar em vocês as condições necessárias para poder ajudá-los, inspirando-lhes os sentimentos da caridade e da justiça.

Não acreditem que, ao incentiva a prece e a evocação dos bons Espíritos, desejamos que vocês vivam como eles vivem. Se sacrificarem as necessidades, ou até mesmo as banalidade do dia a dia, façam isso com um sentimento de pureza, para que essa renúncia possa ser santificada.

Se forem obrigados a conviver com Espíritos de natureza diferente, com características opostas às que possuem, não devem afrontar nem contrariar esses Espíritos. Sejam alegres e felizes, mas com uma alegria que venha de uma consciência tranquila. Vivam com felicidade de um herdeiro do Céu, que conta os dias quem faltam para o seu retorno.

A virtude não consiste em assumir um aspecto severo e sombrio, rejeitando os prazeres que a condição humana permite. Basta que todos os atos de vocês sejam regidos pela Lei do Criador, que deu a vida a todos. Ao começarem uma obra, elevem o pensamento a Deus e peçam a Ele proteção, para que essa obra tenha êxito. Ao terminarem, peçam a Deus para que abençoe essa obra. Ao realizarem qualquer atividade, elevem também o pensamento a Deus, e procurem não realizar nada sem a lembrança do Criador venha purificar e santificar a execução dessas tarefas. 

A perfeição está inteiramente, como disse Cristo, na prática da caridade sem limites. O dever da caridade se estende a todas as posições sociais, desde a maior até a menor. O homem, se vivesse sozinho, não teria como praticar a caridade. É no contato com seus semelhantes, na luta difícil do dia a dia, que ele encontra a ocasião para praticá-la. Aquele que se isola, priva-se, voluntariamente, do meio mais poderoso para se aperfeiçoar. Ao pensar em si, sua vida é a de um egoísta (veja, nesta obra cap. 5:26).

Não imaginem que para viver em comunicação constante conosco, para viver sob a observação do Senhor, seja preciso entregar-se ao cilício e cobrir-se de cinzas. Não! Mais uma vez, não! Sejam felizes, de acordo com as necessidades humanas, mas que essa felicidade nunca tenha um pensamento ou um ato que possa ofender a Deus, ou entristecer o semblante daqueles que amam e dirigem vocês. Deus é amor e abençoa aqueles que sabem amar.


Cuidar do Corpo e do Espírito
Georges, Espírito Protetor - Paris, 1863.

11. Será válido, ao homem, maltratar o próprio corpo para buscar a purificação de seu Espírito? Para responder essa questão, me apoiarei em princípios básicos, demonstrando a necessidade de cuidar do corpo. O corpo influi sobre a alma de uma maneira muito importante, conforme esteja sadio ou doente, pois precisamos considerar a alma como uma prisioneira do corpo físico. Para que a alma viva, se expanda e chegue mesmo a criar as ilusões de liberdade, o corpo tem que estar sadio, disposto e forte. O corpo e a alma devem manter o equilíbrio entre suas aptidões e necessidades tão diferentes. O segredo está justamente em achar esse equilíbrio.

Aqui, dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que não dão nenhuma importância ao corpo, e o dos materialistas que querem negar a alma. Dois sistemas violentos e insensatos, tanto um quanto o outro. A lado dessas duas grandes correntes de pensamento, existe um grande número de pessoas diferentes, que, sem convicções e sem afeições, amam com frieza e não sabem aproveitar a vida. Onde está, então, a sabedoria e a ciência de viver? Em nenhum lugar. Esse problema ficaria sem solução, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando as relações que existem entre o corpo e a alma, ensinando-lhes que é preciso cuidar dos dois, pois que um depende do outro. Amem a alma, mas cuidem também do corpo, que é seu instrumento. Ignorar as necessidades que a própria natureza indica é desconhecer a Lei de Deus. Não castiguem o corpo pelas faltas que o próprio livre-arbítrio os leva a cometer, pois são tão responsáveis por elas quanto um cavalo mal guiado o é pelos acidentes que causa. Por acaso serão mais perfeitos se martirizarem o corpo e continuarem egoístas, orgulhosos e não praticando a caridade para com o próximo? Não! A perfeição não está nessa tortura. Ela encontra-se nas reformas que conseguirem impor a seu Espírito, e não ao corpo. O Espírito precisa ter o egoísmo e o orgulho dobrados, humilhados, dominados, pois esse é o meio de torná-los mais dócil à vontade de Deus. É, também, o único caminho que o conduzirá à perfeição.

Comentários

1. Pagãos - São todos os povos que praticavam o politeísmo (crença em vários deuses), que não acreditavam em um Deus único; aqueles contrários aos dogmas do judaísmo e, posteriormente, aos da Igreja Romana.

6. Parábola do semeador - Jesus é o semeador da mensagem divina, e cada Espírito, encarnado ou desencarnado, é um tipo de solo que renderá, ou não, frutos, conforme sua disposição em receber essa semente.

10. Cilício - Túnica grosseira feita de crina ou lã áspera. Vestia-se sobre a pele como uma forma de fazer penitência, ou, melhor, sacrifício voluntário. 

Cobrir-se de cinzas - Alusão ao hábito dos antigos hebreus, que se cobriam de cinzas, como uma forma de penitência.

11. Ascetas - Pessoas inteiramente consagradas à prática da meditação e da penitência. Desenvolvem apenas o lado espiritual, não dando nenhuma importância aos relacionamentos sociais nem ao corpo físico.