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domingo, 18 de dezembro de 2022

A Fé Que Transporta Montanhas

CAPÍTULO XIX

A Fé Que Transporta Montanhas

• O Poder da Fé •  A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável
 • Parábola da Figueira que Secou 

Instruções Dos Espíritos:

• A Fé, Mãe da Esperança e da Caridade
• A Fé Divina e a Fé Humana



O Poder da Fé

1. Quando Jesus veio ao encontro do povo, um homem aproximou-se Dele, ajoelhou-se a Seus pés e disse: "Senhor, tenha piedade de meu filho que está lunático e sofre muito, pois ele, seguidamente, cai, ora no fogo, ora na água. Apresentei meu filho aos Seus discípulos, mas eles não puderam curá-lo.". Jesus respondeu ao pai do menino, dizendo: "Ó, raça incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando sofrerei com vocês? Traga o menino até aqui.". E Jesus, repreendendo o Espírito mau que o acompanhava, fez com que este se afastasse, curando-o no mesmo instante. Então, os discípulos vieram encontrar Jesus e, em particular, Lhe perguntaram: "Por que nós não conseguimos expulsar este demônio?". E Jesus respondeu: "É por causa da pouca fé que possuem. Pois Eu digo, em verdade, que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, diriam a essa montanha: Transporte-se daqui para lá, e ela se transportaria, e nada seria impossível a vocês." (Mateus, 17:14 a 19).

2. A confiança do homem em sua próprias forças faz com que ele seja capaz de realizar coisas materiais que não pode fazer quando duvida de si mesmo. Porém, nesse caso, devemos entender as palavras de Jesus unicamente pelo seu sentido moral. As montanhas que a fé transporta são as dificuldades, as resistências, a má vontade dos homens, mesmo quando tudo está correndo bem. Os preconceitos, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo, as paixões orgulhosas, são, também, montanhas que travam o caminho de todo aquele que trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé, quando forte, fornece a perseverança, a energia e os recursos necessários para vencer os obstáculos, sejam eles pequenos sejam grandes. A fé que vacila provoca em nós a falta de confiança de que se aproveitam os adversários que devemos combater; e, mais ainda, a fé que vacila não procura os meios de vencer, pois nem sequer acredita na possibilidade da vitória.

3. A fé também pode ser considerada como sendo a confiança que se tem na realização de uma determinada tarefa, na certeza de atingir um objetivo. A fé dá uma espécie de lucidez, que faz com que se possa antever, pelo pensamento, a meta a ser alcançada e os meios de chegar até ela. Assim, aquele que a possui caminha com absoluta segurança. Em todos os sentidos, a fé é sempre a responsável pela realização das grandes obras.

A fé sincera e verdadeira é sempre calma, pois confere a paciência que sabe esperar e, também, porque, ao apoiar-se na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de atingir seu objetivo. A fé vacilante conhece sua própria fraqueza; quando é estimulada pelo interesse, torna-se furiosa e acredita suprir, pela violência, a força que lhe falta. A calma durante a luta é sempre um sinal de força e de confiança. A violência é sempre um sinal de fraqueza e descrença em si mesmo.

4. É preciso não confundir a fé com a soberba. A fé verdadeira é uma aliada da Humildade, e aquele que a possui confia mais em Deus do que em si próprio. Quem possui a fé verdadeira sabe que é um simples instrumento da vontade de Deus e que nada pode sem Ele, e é por isso que os bons Espíritos vêm em seu auxílio. A soberba é muito mais um sinal de orgulho do que fé; o orgulho, mais cedo ou mais tarde, é sempre castigado pela decepção e pelos fracassos que lhe são impostos.

5. O poder da fé tem aplicação direta e especial na ação magnética. É pelo pensamento que o homem atua sobre o fluído que está livre no universo, modifica-lhe as qualidades e dá a esse fluído um impulso irresistível. Aquele que já possui um grande poder sobre os fluídos e junta a esse poder uma fé ardente, podem simplesmente pela vontade dirigida ao bem, realizar fenômenos especiais de cura e muitos outros. Antigamente, esses fenômenos eram tidos como milagres, mas, na verdade, eles não passam de consequências da aplicação de uma Lei Natural. Esse é o motivo pelo qual Jesus disse a Seus apóstolos: "Se vocês não o curaram, é porque não tiveram fé.".


A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável

6. Do ponto de vista religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões. Todas as religiões têm seus artigos de fé, ou seja, a descrição do que os seguidores devem ou não acreditar. Sob esse aspecto, a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega não examina nada, aceita tudo sem verificar, tanto o que é falso quanto o que é verdadeiro, e, a cada passo, se choca com as evidências e a razão. A fé cega, levada ao excesso, produz o fanatismo. Quando a fé está apoiada no erro, cedo ou tarde desmorona. Somente a fé que tem por base a verdade possui um futuro assegurado, pois nada tem a temer com o progresso dos conhecimentos. O que é verdadeiro na sombra, também o é à luz do dia. Toda religião pretende ter a posse exclusiva da verdade, mas impor a alguém a fé cega sobre uma questão de crença é confessar sua impotência para demonstrar que está com a razão.

7. Geralmente, se diz que a não se receita, não se impõe, o que leva muitas pessoas a dizerem que não são culpadas pelo fato de não a possuírem. Sem dúvida, a fé não se receita, e o que é mais correto ainda: a fé não se impõe. A fé deve ser adquirida e ninguém está impedido de possuí-la, nem mesmo aqueles que tenham contra ela muita resistência. Falamos de verdades espirituais básicas, e não dessa ou daquela crença em particular. Não é a fé que deve procurar essas pessoas; elas é que devem procurar a fé, e se o fizerem com sinceridade irão encontrá-la. Fiquem certos de que aqueles que dizem: "Nada mais desejamos do que crer, mas infelizmente não conseguimos.", o dizem com os lábios e não com o coração, pois, ao mesmo tempo que dizem, fecham os ouvidos. São muitas as provas de que a fé existe, mas é o medo de serem forçadas a mudarem seus hábitos. Porém, na grande maioria, é o orgulho que se nega a reconhecer um poder superior, porque teriam que se inclinar diante dele.

Para algumas pessoas, a fé parece ter nascido com elas, pois basta uma faísca para desenvolvê-la. Essa facilidade em aceitar as verdades espirituais é sinal evidente de um progresso anterior. Em outras, ao contrário, as verdades espirituais são assimiladas com muita dificuldade, sinal também evidente de uma natureza em atraso. Aqueles que já possuíam conhecimentos espirituais trazem ao renascer, a intuição do que sabiam. Nesse caso, sua educação já foi realizada. Naqueles que não possuem conhecimentos espirituais e que precisam aprender tudo, a educação está por se realizar. Se ela não for concluída nessa existência, certamente, será na outra.

A resistência daquele que não crê quase sempre se deve à maneira pela qual as coisas lhe são apresentadas. A fé necessita de uma base, e essa base é a perfeita compreensão daquilo em que se deve acreditar. Para acreditar, não basta ver, é preciso compreender. A fé cega não pertence mais aos dias de hoje. É justamente o dogma da fé cega que, atualmente, produz o maior número de incrédulos, pois ela quer se impor exigindo que o homem abra mão do seu raciocínio e do seu livre-arbítrio, que são as maiores conquistas do Espírito. É, principalmente, contra a cega que o incrédulo se revolta, o que prova ser verdade que esse tipo de fé não se impõe. Ao não admitir provas, a fé cega deixa, no Espírito, um vazio que lhe abre o caminho para a dúvida. A fé raciocinada é aquela que se apoia nos fatos e na lógica, é clara e não deixa atrás de si nenhuma dúvida. Acredita-se porque se tem certeza, e só se tem certeza porque se compreende. Eis por que ela não se dobra. Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade. Assim, o Espiritismo triunfa sobre a incredulidade, sempre que não encontra oposição sistemática e interesseira. 


Parábola Da Figueira Que Secou

8. Quando saíram de Betânia, Jesus teve fome e, vendo uma figueira ao longe, foi até ela, para ver se encontrava algum fruto para comer. Ao se aproximar, encontrou apenas folhas, pois não era época de figos. Então, Jesus disse à figueira: "Que ninguém como de você nenhum fruto.", e os discípulos ouviram. No dia seguinte, ao passarem pela figueira, perceberam que ela estava seca até a raiz. Pedro, lembrando-se das palavras de Jesus, disse-Lhe: "Mestre, olha como a figueira, que o Senhor amaldiçoou, tornou-se seca." E Jesus respondeu: "Tenham fé em Deus. Em verdade, Eu lhes digo que todo aquele que disser a esta montanha "Saia daqui e vá para o mar, sem que seu coração hesite, acreditando firmemente no que está dizendo, verá, de fato, sua ordem se cumprir." (Marcos, 11:12 a 14, 20 a 23).

9. A figueira que secou é o símbolo das pessoas que apenas aparentam fazer o bem, mas que, na verdade, não produzem nada de bom. São os oradores que possuem mais brilho do que conhecimento, cujas palavras não têm profundidade e apenas agradam aos ouvidos, mas que, ao serem analisadas, não trazem nada de proveitoso ao coração. Pode-se, então, perguntar: que proveito elas trouxeram a quem as ouviu?

A figueira que secou é, também, o símbolo de todas as pessoas que têm a oportunidade de serem úteis, mas não o são. Representa, ainda, todas as utopias, todos os sistemas sem conteúdo e todas as doutrinas sem base sólida. O que falta, na maioria das vezes, é a fé que transporta montanhas. São árvores que têm folhas, mas não têm frutos. Foi por isso que Jesus as condenou à esterilidade, pois chegará o dia em que elas ficarão secas até a raiz. Todos os sistemas, todas as doutrinas que não produzem nenhum bem para a Humanidade, serão reduzidos ao nada. Todos os homens voluntariamente inúteis, que não utilizam seus recursos, também serão tratados como a figueira que secou.

10. Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos. Por possuírem faculdades específicas para essa atividade, eles emprestam seu corpo físico para que os Espíritos possam transmitir suas instruções. Nos tempos atuais, de renovação social, os médiuns têm uma missão particular: são árvores que devem dar alimento espiritual aos seus irmão. Eles são muitos para que o alimento seja farto. São encontrados em todos os países, em todas as classes sociais, entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos. Eles precisam estar em todos os lugares, a fim de que todos recebam os ensinamentos e para mostrar aos homens que todos estão sendo chamados. O objetivo principal da mediunidade é ajudar o próximo e melhorar aquele que a possui. Porém, existem médiuns que a utilizam para coisas fúteis, para prejudicar outras pessoas, para conseguir benefícios materiais em proveito próprio, enfim, deturpam-na de várias maneiras. Esses médiuns serão tratados como a figueira que secou. Deus retirará deles um dom que se tornou inútil em suas mãos, uma semente que não souberam fazer frutificar, e é assim que eles se tornarão alvo dos maus Espíritos.


Instruções Dos Espíritos:

A Fé, Mãe Da Esperança E Da Caridade
José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862.
 
11. A fé, para ser proveitosa, deve ser ativa, não deve ficar adormecida. A fé é a mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus e deve estar sempre atenta para que essas virtudes se desenvolvam.

A esperança e a caridade são as consequências da fé. Essas três virtudes formam um trio inseparável. Não é a fé que dá a esperança de se ver cumprir as promessas do Senhor? Pois, se não há fé, que esperança ter? Não é a fé que dá o amor? E se não há fé, que amor se pode ter? E que amor será esse?

A fé é a divina inspiração de Deus, que desperta todos os nobres sentimentos que conduzem o homem para a prática do bem, tornando-se a base de sua renovação. Porém, é necessários que essa base seja forte e durável, pois se alguma dúvida abalar esse alicerce, o que será do edifício construído sobre ele? Construam esse edifício sobre fundações sólidas, e que a fé de vocês seja mais forte que a zombaria dos incrédulos, pois a fé que não encara a zombaria dos homens não é a fé verdadeira.

A fé sincera é atraente, contagiante e envolve até mesmo aqueles que não a possuem, como também aqueles que não fazem questão de possuí-la. A fé sincera encontra as palavras harmoniosas, deixa aqueles que as escutam frios e indiferentes. Preguem pelo exemplo das boas obras, para que eles vejam o mérito da fé. Preguem através da esperança inabalável, para que os homens percebam a confiança que frutifica e ainda estimula a enfrentar as contrariedades da vida.

Tenham, portanto, a verdadeira fé, na plenitude da sua beleza, da sua bondade, da sua pureza e da sua racionalidade. Não aceitem a fé sem comprovação, pois ela é a filha cega da ignorância. Amem a Deus, mais saibam por que O amam. Acreditem em Suas promessas, mas saibam por que acreditam nelas. Sigam os nossos conselhos, mas sejam conscientes do objetivo que apontamos e dos meios que indicamos para atingi-los. Acreditem e esperem, sem nunca fraquejar, pois os milagres são produzidos pela fé.


A Fé Divina E A Fé Humana
U Espírito Protetor - Paris, 1863.
 
12. A fé é um sentimento que nasce com o homem sobre o seu destino futuro. É a consciência das imensas faculdades que ele possui e que estão, como uma semente, adormecidas no seu íntimo. Cabe ao homem, pela ação da sua vontade, fazer desabrochar e crescer essas faculdades, ao longo do tempo.

Até hoje, a fé é a mais compreendida pelo seu aspecto religioso. Isso acontece porque as pessoas não entenderam o verdadeiro caráter da missão de Cristo, considerando-O apenas como um chefe de religião, capaz de operar milagres através da fé. Porém, esse não é o único objetivo da fé na vida do homem; ela também reflete a confiança que se tem na possibilidade de se realizar alguma coisa.

O Cristo realizou verdadeiros milagres, demonstrando, com eles, o que pode o homem quando possui fé, ou seja, quando tem a vontade de querer e a certeza de que com esta vontade pode realizar muitas coisas. Os apóstolos, tal como Ele, também não realizaram milagres? Os milagres nada maus são do que a ocorrência de fenômenos naturais, que se operam mediante a vontade de quem quer que seja, desde que possua uma fé ardente, sincera e verdadeira. As causas desses efeitos naturais eram desconhecidas pelos homens daquela época. Hoje são, em grande parte, explicados e compreendidos pelo estudo do Espiritismo e do Magnetismo.

A fé pode ser humana, se o homem aplicar suas faculdades na realização de coisas materiais, ou pode ser Divina, quando ele, pensando em seu futuro, usar essas faculdades para seu aperfeiçoamento espiritual. O homem inteligente, que se lança na realização de um grande empreendimento, triunfa se tem fé. Ele sente, em si mesmo, que pode e deve atingir seu objetivo, e é justamente essa certeza íntima que lhe dá uma força extraordinária. O homem de bem, que acredita na continuação da vida após a morte e deseja preencher sua existência com nobres e belas ações, retira de sua fé e da certeza na felicidade que o aguarda, a força necessária para realizar os milagres da caridade, do devotamento e do desapego. Com a fé não existem tendências más que não possam ser vencidas.

O magnetismo, quando colocado em ação, é uma das maiores provas do poder que a fé possui. É pela fé que o Magnetismo cura e produz fenômenos especiais que, antigamente, eram qualificados como milagres.

Repito: A fé é humana e Divina. Se todos os encarnados tivessem consciência da força que trazem consigo, e se quisessem colocar sua vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que até agora chamamos de prodígios, mas que não passam do desenvolvimento das faculdades humanas.


Comentário

1. Lunático - Essa expressão era muito usada, na época de Jesus, referindo-se às pessoas que sofriam de obsessões ou problemas mentais.
 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Sejam Perfeitos

CAPÍTULO XVII

Sejam Perfeitos

• Características da Perfeição •  O Homem de Bem
 • Os Bons Espíritas • Parábola do Semeador 


Instruções Dos Espíritos:

• O Dever • A Virtude • Os Superiores e os Inferiores
• O Homem no Mundo • Cuidar do Corpo e do Espírito


Características da Perfeição

1. Jesus disse: "Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, e orem por aqueles que perseguem e caluniam vocês. Assim, serão filhos de seu Pai que está nos Céus, e que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas aqueles que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que fazem mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito." (Mateus, 5:44, 46 a 48).

2. Uma vez que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, este ensinamento moral: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito", se tomado ao pé da letra, daria a entender a possibilidade do homem também atingir a perfeição absoluta. Se fosse dado à criatura ser tão perfeita quanto o Criador, ela O igualaria, o que é inadmissível. Os homens, aos quais Jesus falava, não tinham condições de compreender essa questão, por isso, Ele se limitou em apresentar-lhes um modelo, e pediu para que se esforçassem em atingi-lo.

Jesus falava de uma perfeição relativa, aquela que a Humanidade era capaz de compreender e que a aproximasse mais da Divindade. Mas em que consiste essa perfeição? Jesus mesmo disse: "Amar os inimigos, fazer o bem para aqueles que nos odeiam, orar por aqueles que nos perseguem.". Eles mostra, com isso, que a essência da perfeição é a caridade, pois, para praticá-la, é necessário possuir todas as outras virtudes.

De alguma forma, a prática da caridade é influenciada pelos vícios e pelos pequenos defeitos que o homem possui. Todos esses vícios nascem do egoísmo e do orgulho, que são sentimentos contrários. Tudo que estimula exageradamente a personalidade enfraquece os princípios da verdadeira caridade, que são: a bondade, a indulgência, a abnegação e o devotamento. Se aquele que ama o próximo consegue também amar os inimigos, isso é sempre um indício de superioridade moral. Assim, o grau de perfeição de uma pessoa está na razão direta do amor que ela consegue ter pelo seu próximo. Eis por que Jesus, após ter dado a Seus discípulos as regras da caridade, no que ela tem de mais sublime, disse: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito.".


O Homem de Bem

3. O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da Justiça, do Amor e da Caridade em toda sua pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa Lei, se não fez o mal, se fez todo bem que podia, se, de propósito, não deixou escapar uma ocasião de ser útil, se ninguém tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que os outros lhe fizessem.

O homem de bem tem fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria Divina. Sabe que nada acontece sem a Sua permissão e, em todas as ocasiões, se submete a Sua vontade.

Tem fé no futuro, razão pela qual coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.

Sabe que todas as dificuldades da vida, todas as dores todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem se queixa.

O homem bondoso, que possui o sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem sem esperar recompensa, retribui o mal com o bem, defende o fraco contra o forte e sacrifica, sempre, seus interesses pela justiça.

Encontra satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas alegrias que proporciona ao próximo, nas lágrimas que seca, nas consolações que leva aos aflitos. Pensa primeiro nos outros, antes de pensar em si, procura os interesses alheios antes de procurar os seus. O egoísta, ao contrário, calcula os ganhos e as perdas de cada ação generosa. 

O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, não faz distinção de raças ou crenças, pois vê todos os homens como irmãos seus.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não amaldiçoa quem não pensa como ele.

O homem de bem, em todos os momentos, tem como guia a caridade. Sabe que todo aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que fere com seu orgulho e seu desprezo os sentimentos de alguém, que não se importa em causar um sofrimento quando este poderia ser evitado, e que não possui amor pelo próximo, não merecerá o perdão do Senhor até que se arrependa do fundo do coração.

Não tem ódio, nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e apenas se lembra dos benefícios, pois sabe que será perdoado assim como perdoou.

É tolerante para com as fraquezas alheias porque sabe que ele mesmo tem necessidade de tolerância e recorda das palavras do Cristo: Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.

Não se satisfaz em procurar os defeitos dos outros, nem coloca-los em evidência. Se a necessidade o obriga a fazer isso, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.

Estuda suas próprias imperfeições e trabalha sem cessar para combatê-las. Emprega todos os seus esforços para poder dizer, no dia seguinte, que existe nele algo de melhor do que no dia anterior.

Procura não exaltar seus conhecimentos em detrimento de outros, ao contrário, aproveita todas as ocasiões para ressaltar as qualidades alheias.

O homem de bem não se envaidece de sua riqueza nem de suas vantagens pessoais, pois sabe que tudo que lhe foi dado pode ser retirado.

Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe que se trata de um depósito do qual terá que prestar contas. Sabe, também, que, se empregar esses bens na satisfação de suas paixões, o maior prejudicado será ele mesmo.

Se nas relações sociais alguns homens estão sob seu comando, trata-os com bondade e benevolência, pois são seus semelhantes perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes o moral e não para esmagá-los com seu orgulho. Evita tudo o que poderia tornar mais difícil a posição subalterna em que estão.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los da melhor maneira possível (veja cap. 17:9).

Finalmente, o homem de bem respeita todos os direitos que as Leis da Natureza asseguram aos seus semelhantes, como deseja que os seus sejam respeitados.

Esta não é a relação completa de todas as qualidades que distinguem o homem de bem; mas aquele que se esforçar para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais virtudes.


Os Bons Espíritas

4. O Espiritismo, bem compreendido e bem vivenciado, leva o homem a possuir as qualidades descritas para o homem de bem. Essas qualidades caracterizam o verdadeiro Espírita, assim como o verdadeiro Cristão, pois tanto um quanto o outro são a mesma coisa. O Espiritismo não cria uma nova moral, ele apenas facilita aos homens a compreensão e a prática da moral do Cristo. Oferece uma fé sólida e traz o esclarecimento para aqueles que duvidam ou vacilam.

Muitos, que acreditam nas manifestações espíritas, não compreendem sias consequências, nem seu alcance moral, ou, se os compreendem, não aplicam a si mesmos. Por que isso acontece? Será falta de clareza da Doutrina? Não, pois a Doutrina Espírita não utiliza nenhuma linguagem figurada que possa dar margem a falsas interpretações. Sua essência está em sua própria clareza e é daí que vem sua força, pois ela explica as coisas de maneira fácil, atingindo diretamente a inteligência daqueles que a procuram. Ela não possui nada de misterioso, e seus seguidores não estão de posse de nenhum segredo oculto ao povo.

Será necessária, então, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, pois existem homens de reconhecida capacidade intelectual que não a compreendem, enquanto que, pessoas comuns, jovens recém-saídos da adolescência, apreendem-na com admirável facilidade, até mesmo nos seus detalhes mais sutis. Isso acontece porque a parte material da Ciência não requer mais do que os olhos para ser observada, ao passo que a essência do Espiritismo requer um certo grau de sensibilidade que independe da idade ou do nível de instrução da criatura. Essa sensibilidade pode ser chamada de maturidade do senso moral. Essa maturidade, que lhe é própria, corresponde ao grau de desenvolvimento que o Espírito encarnado já possui.

Em algumas pessoas, os laços que as prendem às coisas materiais estão ainda muito fortes para permitir que o Espírito se desprenda das coisas terrenas. O nevoeiro que as envolve impede-lhes a visão do infinito. Eis por que não conseguem romper facilmente com seus gostos e com seus hábitos, pois não compreendem que possa existir algo melhor do que aquilo que possuem. A crença nos Espíritos, para essas pessoas, é um simples fato que não modifica em nada suas tendências instintivas. Enxergam apenas um raio de luz, insuficiente para orientá-las e despertar uma vontade decidida que seja capaz de modificar seus pensamento. Elas apegam-se mais aos fenômenos espíritas do que à moral, que lhes parece banal e monótona. Pedem aos Espíritos para terem acesso de imediato aos novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignas de conhecer os segredos do Criador. São Espíritas imperfeitos, porque não se desenvolvem e acabam se afastando de seus irmão em crença, pois recuam ante a obrigação de se reformarem. Preferem reservar suas simpatias para os que possuem as mesmas fraquezas ou prevenções. De qualquer forma, aceitar os princípios da Doutrina Espírita é um primeiro passo que facilitará o segundo, numa outra existência.

Aquele que pode ser qualificado como verdadeiro Espírita já se encontra num grau superior de adiantamento moral. Seu Espírito já possui um domínio maior sobre a matéria, por isso, tem uma percepção mais clara do futuro. Os princípios da Doutrina Espírita fazem vibrar nele o lado espiritual, que ainda permanece adormecido nas outras criaturas. Podemos dizer que ele foi tocado no coração, que sua fé tornou-se inabalável. O Espírita é como um músico que se comove com os acordes, enquanto que a maioria ouve apenas o som. O verdadeiro Espírita é reconhecido por sua transformação moral e pelos esforças que faz para dominar suas más tendências. Enquanto o homem comum se satisfaz com seu horizonte limitado, o Espírita compreende a existência de alguma coisa melhor e procura libertar-se para atingi-la. Ele sempre conseguirá, se tiver uma vontade firme e determinada.


Parábola do Semeador

5. Jesus, ao sair de casa, sentou-se à beira-mar, e uma grande multidão de pessoas reuniu-se ao seu redor. Assim, Ele subiu em um barco, e todos ficaram em pé na praia. Foi então que Ele falou ao povo, em forma de parábolas:

Aquele que semeia, saiu a semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíam ao longo da estrada, e os pássaros do Céu vieram e comeram-nas.

Uma outra quantidade caiu nas pedras, onde havia pouca terra, por isso, logo germinaram. Como a terra era pouca, não puderam criar raízes e, quando o sol nasceu, as sementes secaram.

Outras caíram nos espinhos e, quando eles cresceram, sufocaram as sementes. 

Finalmente, outras caíram em terra boa e deram frutos. Alguns grãos renderam cem por u, outros sessenta, e outros, trinta.

Que ouçam aqueles que têm ouvido para ouvir. (Mateus, 13:1 a 9)

Escutem, vocês também, a parábola do semeador.

Todo aquele que ouve a palavra do Reino De Deus e não presta atenção, faz surgir o Espírito mau, que arrebata tudo o que havia sido semeado em seu coração. Esse é aquele que deixou s semente cair ao longo da estrada.

O que deixou a semente cair junto às pedras é aquele que ouve a palavra do Cristo, e a recebe na mesma hora, com alegria, mas, por não ter raízes em si, essa alegria dura pouco tempo. Quando surgem os problemas e as perseguições por causa da palavra, ele logo se revolta e abandona tudo.

O que deixou a semente cair entre os espinhos é aquele que ouve a palavra, mas é sufocado pelas modernidades e pelas ilusões da riqueza. Por isso, a palavra, para ele torna-se sem valor.

O que deixou a semente cair em uma terra boa é aquele que escuta a palavra de Cristo, presta atenção e procura segui-la. É nele que a palavra produzirá frutos que irão render cem ou sessenta ou trinta por um. (Mateus, 13:18 a 23).

6. A parábola do semeador descreve as diversas maneira de se por em prática os ensinamentos do Evangelho. Quantas pessoas existem para as quais os ensinamentos não passam de palavras sem valor. Elas são como as sementes que caíram sobre as pedras, nada produzem, nada frutificam!

Essa parábola se aplica, também, aos diversos tipos de Espíritas. Ela é o símbolo daqueles que se apegam somente aos fenômenos materiais, sem tirar deles nenhum proveito. Veem os fenômenos como mero objeto de curiosidade. Simboliza, também, os que procuram somente o lado brilhante das comunicações dos Espíritos, interessando-se apenas enquanto elas satisfazem a sua imaginação. Porém, depois de ouvi-las, continuam frios e indiferentes como eram antes. A parábola do semeador também simboliza aqueles que acham os conselhos muito bons, mas para serem aplicados aos outros, e não em si mesmos. E, finalmente, simboliza aqueles para quem os ensinamentos são como a semente que caiu em terra boa e produz bons frutos.


Instruções Dos Espíritos:
Lázaro - Paris, 1863

7. O dever é a obrigação moral do homem, primeiro para consigo mesmo, em seguida, para com os outros. O dever é uma Lei da Vida, pois é encontrado tanto nos atos mais simples como nos mais elevados. Quero examinar, aqui, apenas o dever moral e não o dever que as profissões impõem.

O dever é um sentimento muito difícil de ser cumprido, pois será em oposição com os interesses materiais e os interesses do coração. Quando cumprimos com o dever, não fazemos mais do que a nossa obrigação e não nos elogiamos por isso. Quando não cumprimos, também não permitimos que nossa consciência nos repreenda.

O dever íntimo do homem é governado pelo seu livre-arbítrio; a consciência está sempre o advertindo contra as condutas erradas. Ainda assim, ele, muitas vezes, se deixa levar pelos enganos da paixão. O homem se eleva quando observa, fielmente, os deveres do coração, que nada maus são que os seus valores interiores. Mas como esses deveres podem ser determinados? Onde começam? Onde terminam? Os deveres começam, precisamente, no ponto onde se ameaça a felicidade ou a tranquilidade do próximo e terminam no limite em que não se desejaria ver a própria felicidade ou a tranquilidade ameaçadas.

Deus criou todos os homens iguais perante a dor. Pequenos ou grandes, incultos ou esclarecidos, todos sofrem pelas mesmas coisas, a fim de que cada um avalie, de maneira consciente, o mal que pode fazer. O mesmo critério de que todos são iguais perante a dor não pode ser aplicado para o bem, pois nem todos são iguais em suas capacidades de fazer o bem. A igualdade perante a dor é uma sublime providência de Deus, pois Ele quer que Seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal alegando a ignorância de seus efeitos.

Na prática, o dever reflete todas as virtudes morais; é uma fortaleza da alma que enfrenta as angústias da luta diária. O dever é severo e dócil. Está sempre pronto a se submeter às mais diversas situações, mas permanece sempre firme perante as tentações. Aquele que cumpre seu , ama mais a Deus do que os homens, e aos homens mais do que a si mesmo. É, ao mesmo tempo, juiz e escrevo em causa própria.

O dever é o que a razão possui de mais belo. Ele provém da razão, assim como o filho provém de sua mãe. O homem deve amar o dever, não porque ele o preserve dos males da vida, aos quais a Humanidade está sujeita, mas porque ele fornece à alma a força necessária ao seu desenvolvimento.

Nos estágios superiores da Humanidade, o dever se apresenta sob uma forma mais elevada. A obrigação moral da criatura para com Deus nunca cessa. Ela deve refletir as virtudes do Criador, que não aceita um esboço imperfeito, pois quer que a beleza de Sua obra resplandeça aos Seus próprios olhos.



A Virtude
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

8. A virtude é o conjunto de todas as qualidades que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, trabalhador, moderado, modesto, são qualidades do homem que possui virtudes. Infelizmente, elas são quase sempre acompanhadas de pequenas falhas morais que as desmerecem e as enfraquecem. Aquele que se vangloria de sias virtudes não é virtuoso, pois lhe falta a principal qualidade: a modéstia, e porque tem o principal vício: orgulho. A verdadeira virtude não gosta de se exibir, ao contrário, é preciso descobri-la, pois ela se esconde no anonimato e foge da admiração das massas. Vicente de Paulo e Jean Marie Vianney, digno páraco da cidade de Ars, eram virtuosos. Deixavam-se ir ao sabor de suas inspirações e praticavam o bem com total desinteressante e completo esquecimento de si mesmos.

Meus filhos! É para a virtude verdadeiramente cristã e espírita, praticada com desinteresse, que eu os convoco. Afastem de seus corações o sentimento de orgulho, de vaidade, de amor-próprio, que sempre desvalorizam as mais belas qualidades. Não imitem o homem que se apresenta como modelo a ser seguido e que se gaba de suas próprias qualidades para aqueles que estão dispostos a ouvi-lo. Essa virtude com ostentação esconde, quase sempre, muitas mesquinharias e fraquezas.

Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que ergue uma estátua a sua própria virtude, aniquila todos os méritos que efetivamente possa ter. E o que dizer daquele que dá valor em parecer aquilo que não é? Compreendo que o homem que faz o bem, sinta no fundo do coração uma satisfação íntima Porém, se essa satisfação for usada para lhe render elogios, ela se transforma em amor-próprio. 

Todos vocês. a quem a fé espírita reanimou com seus ensinamento, que sabem o quanto o homem está longe da perfeição, não cometam nunca uma tolice dessas. A virtude é uma graça que desejo a todos os Espíritas sinceros, mas advirto: mais valem poucas virtudes com modéstia, do que muitas com orgulho; é pelo orgulho que as civilizações vêm, sucessivamente, se perdendo e será pela humildade que elas irão se redimir um dia.

Os Superiores e os Inferiores
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

9. Aquele que recebe a autoridade terá que prestar contas, assim como aquele que recebe a riqueza. Não acreditem que a autoridade seja dada para satisfazer o vão prazer de mandar, assim como acreditam erroneamente a maior parte dos poderosos da Terra, que pensam que a autoridade lhes foi dada como um direito ou uma propriedade.

Deus tem provado, constantemente, que a autoridade não é um direito e, muito menos, uma propriedade, pois a retira dos que dela se acham proprietários quando Lhe convém. Se a autoridade fosse um privilégio ligado à pessoa, ela seria intransferível. Ninguém pode dizer que uma coisa lhe pertence, quando ela pode lhe ser retirada sem o seu consentimento. Deus concede a autoridade a título de missão ou de prova, quando quer, e a retira quando julga necessário.

Todo aquele que recebe a autoridade, seja qual for o tamanho dessa autoridade, desde um patrão para com seu empregado até o soberano para com seu povo, não poderá esquecer que é um encarregado de almas e que responderá pela boa ou má orientação que der a seus subordinados. Toda responsabilidade recairá sobre aquele que, tendo autoridade, deixar que seus comandados cometam faltas e sejam levados pelo vício ou pelos maus exemplos; da mesma maneira que colherá os frutos de seu esforço por conduzi-los ao bem. Todo homem tem, na Terra, uma missão, seja ela pequena seja grande, sempre lhe será dada para o bem. Desviá-la do seu verdadeiro objetivo é fracassar em sua execução.

Assim como Deus pergunta aos ricos: "O que fizeram da riqueza que, em suas mãos, deveria ser uma fonte espalhando fecundidade ao redor de todos?", também perguntará para aqueles que receberam alguma autoridade: "Que uso fizeram dessa autoridade? Que mal impediram? Que progresso promoveram?". Se Eu dei a vocês subordinados, não foi para que fizessem deles escravos de suas vontades, nem instrumentos dóceis dos seus caprichos ou de suas ambições. Se eu fiz vocês fortes e confiei-lhes os fracos, foi para que pudessem ampará-los, ajudando-os a chegarem até Mim.

Aqueles que possuem autoridade e seguem as palavras do Cristo, não desprezam nenhum dos que estão abaixo, pois sabem que as diferenças sociais não existem perante Deus. O Espiritismo ensina que devem tratar de maneira igual a todos os seus subordinados; que aqueles que hoje lhe obedecem, talvez, já tenham lhe dado ordens ou poderão vir a dar em uma existência futura. Ensina, também, que serão tratados amanhã, conforme estão tratando, hoje, aqueles sobre os quais exercem sua autoridade.

Tanto os superiores quanto os inferiores possuem sagrados deveres a cumprir. Se o subordinado é Espírita, sua consciência lhe dirá, com mais forte razão, que não pode deixar de desempenhar seus deveres, mesmo que seu chefe não cumpra com os seus; o Espírita sabe que não deve pagar o mal com o mal e que as faltas de uns não justificam as faltas de outros. Se sofre, na condição de subalterno, sabe que esse sofrimento é merecido, porque ele mesmo pode já ter abusado, em existências anteriores, da autoridade que possuía. Experimenta agora, por sua vez, o que fez os outros sofrem. Se precisa suportar o emprego atual, por não encontrar outro melhor, o Espiritismo lhe ensina a aceitar essa situação sem reclamar, como sendo uma prova para sua humildade e necessária ao seu adiantamento. Sua conduta é norteada pelo conhecimento espiritual que possui e ele age para com seu patrão como gostaria que seus subordinados agissem para consigo, caso ele fosse o chefe. Assim, é mais cuidadoso no cumprimento de suas obrigações, pois sabe que toda negligência em seu trabalho é um prejuízo para aquele que o remunera e a quem deve seu tempo e seus esforços. Resumindo, ele é guiado pelo sentimento do dever que sua fé lhe fornece e pela certeza de que todo afastamento do caminho reto é uma dívida que, cedo ou tarde, terá que pagar.


O Homem no Mundo
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1863.

10. Um sentimento de piedade deve sempre orientar o coração daqueles que se reúnem sob os olhos do Senhor e imploram a assistência dos bons Espíritos. Purifiquem seus corações, não se perturbem por pensamentos fúteis ou mundanos. Elevem seus pensamentos em direção aos Espíritos que evocam, para que eles possam encontrar em vocês as condições necessárias para poder ajudá-los, inspirando-lhes os sentimentos da caridade e da justiça.

Não acreditem que, ao incentiva a prece e a evocação dos bons Espíritos, desejamos que vocês vivam como eles vivem. Se sacrificarem as necessidades, ou até mesmo as banalidade do dia a dia, façam isso com um sentimento de pureza, para que essa renúncia possa ser santificada.

Se forem obrigados a conviver com Espíritos de natureza diferente, com características opostas às que possuem, não devem afrontar nem contrariar esses Espíritos. Sejam alegres e felizes, mas com uma alegria que venha de uma consciência tranquila. Vivam com felicidade de um herdeiro do Céu, que conta os dias quem faltam para o seu retorno.

A virtude não consiste em assumir um aspecto severo e sombrio, rejeitando os prazeres que a condição humana permite. Basta que todos os atos de vocês sejam regidos pela Lei do Criador, que deu a vida a todos. Ao começarem uma obra, elevem o pensamento a Deus e peçam a Ele proteção, para que essa obra tenha êxito. Ao terminarem, peçam a Deus para que abençoe essa obra. Ao realizarem qualquer atividade, elevem também o pensamento a Deus, e procurem não realizar nada sem a lembrança do Criador venha purificar e santificar a execução dessas tarefas. 

A perfeição está inteiramente, como disse Cristo, na prática da caridade sem limites. O dever da caridade se estende a todas as posições sociais, desde a maior até a menor. O homem, se vivesse sozinho, não teria como praticar a caridade. É no contato com seus semelhantes, na luta difícil do dia a dia, que ele encontra a ocasião para praticá-la. Aquele que se isola, priva-se, voluntariamente, do meio mais poderoso para se aperfeiçoar. Ao pensar em si, sua vida é a de um egoísta (veja, nesta obra cap. 5:26).

Não imaginem que para viver em comunicação constante conosco, para viver sob a observação do Senhor, seja preciso entregar-se ao cilício e cobrir-se de cinzas. Não! Mais uma vez, não! Sejam felizes, de acordo com as necessidades humanas, mas que essa felicidade nunca tenha um pensamento ou um ato que possa ofender a Deus, ou entristecer o semblante daqueles que amam e dirigem vocês. Deus é amor e abençoa aqueles que sabem amar.


Cuidar do Corpo e do Espírito
Georges, Espírito Protetor - Paris, 1863.

11. Será válido, ao homem, maltratar o próprio corpo para buscar a purificação de seu Espírito? Para responder essa questão, me apoiarei em princípios básicos, demonstrando a necessidade de cuidar do corpo. O corpo influi sobre a alma de uma maneira muito importante, conforme esteja sadio ou doente, pois precisamos considerar a alma como uma prisioneira do corpo físico. Para que a alma viva, se expanda e chegue mesmo a criar as ilusões de liberdade, o corpo tem que estar sadio, disposto e forte. O corpo e a alma devem manter o equilíbrio entre suas aptidões e necessidades tão diferentes. O segredo está justamente em achar esse equilíbrio.

Aqui, dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que não dão nenhuma importância ao corpo, e o dos materialistas que querem negar a alma. Dois sistemas violentos e insensatos, tanto um quanto o outro. A lado dessas duas grandes correntes de pensamento, existe um grande número de pessoas diferentes, que, sem convicções e sem afeições, amam com frieza e não sabem aproveitar a vida. Onde está, então, a sabedoria e a ciência de viver? Em nenhum lugar. Esse problema ficaria sem solução, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando as relações que existem entre o corpo e a alma, ensinando-lhes que é preciso cuidar dos dois, pois que um depende do outro. Amem a alma, mas cuidem também do corpo, que é seu instrumento. Ignorar as necessidades que a própria natureza indica é desconhecer a Lei de Deus. Não castiguem o corpo pelas faltas que o próprio livre-arbítrio os leva a cometer, pois são tão responsáveis por elas quanto um cavalo mal guiado o é pelos acidentes que causa. Por acaso serão mais perfeitos se martirizarem o corpo e continuarem egoístas, orgulhosos e não praticando a caridade para com o próximo? Não! A perfeição não está nessa tortura. Ela encontra-se nas reformas que conseguirem impor a seu Espírito, e não ao corpo. O Espírito precisa ter o egoísmo e o orgulho dobrados, humilhados, dominados, pois esse é o meio de torná-los mais dócil à vontade de Deus. É, também, o único caminho que o conduzirá à perfeição.

Comentários

1. Pagãos - São todos os povos que praticavam o politeísmo (crença em vários deuses), que não acreditavam em um Deus único; aqueles contrários aos dogmas do judaísmo e, posteriormente, aos da Igreja Romana.

6. Parábola do semeador - Jesus é o semeador da mensagem divina, e cada Espírito, encarnado ou desencarnado, é um tipo de solo que renderá, ou não, frutos, conforme sua disposição em receber essa semente.

10. Cilício - Túnica grosseira feita de crina ou lã áspera. Vestia-se sobre a pele como uma forma de fazer penitência, ou, melhor, sacrifício voluntário. 

Cobrir-se de cinzas - Alusão ao hábito dos antigos hebreus, que se cobriam de cinzas, como uma forma de penitência.

11. Ascetas - Pessoas inteiramente consagradas à prática da meditação e da penitência. Desenvolvem apenas o lado espiritual, não dando nenhuma importância aos relacionamentos sociais nem ao corpo físico.


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Não Se Pode Servir A Deus E A Mamon

CAPÍTULO XVI

Não Se Pode Servir 
A Deus E A Mamon

• Salvação dos Ricos
•  Resguardar-se Da Avareza • Jesus Na Casa de Zaqueu
• Parábola do Mau Rico • Parábola dos Talentos
• Utilidade Providencial da Riqueza - Provas da Riqueza e da Miséria
• Desigualdade das Riquezas



Instruções Dos Espíritos:

• A Verdadeira Propriedade
• Emprego da Riqueza
• Desprendimento dos Bens Terrenos
• Transmissão da Riqueza


Salvação dos Ricos

1. Ninguém pode servir a dois senhores porque, ou ele vai odiar a um e amar o outro, ou vai se afeiçoar a um e desprezar o outro. Não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamon (Lucas, 16:13).

2. Um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou: "Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?". E Jesus lhe respondeu: "Por que você Me chama de bom? Só Deus é bom. Se você quer alcançar a vida eterna, siga os mandamentos." "Que mandamentos?", perguntou o jovem. E Jesus respondeu: "Não matar, não cometer adultério, não roubar, não prestar falso testemunho, honrar o pai e a mãe, e amar o próximo como a si mesmo." O jovem, então, replicou: "Sigo todos esses mandamentos desde que cheguei à mocidade, o que ainda me falta?". E Jesus respondeu: "Se você quer alcançar a vida eterna, venda tudo o que tem e dê aos pobres, e então receberá um tesouro no Céu, depois venha e Me siga." Porém, o jovem, ouvindo essas palavras, retirou-se, muito triste, porque possuía muitos bens. Então, Jesus disse a Seus discípulos: "Em verdade, Eu digo a vocês que é bem difícil um rico entrar no Reino dos Céus." E acrescentou: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que que um rico entrar no Reino dos Céus." (Mateus, 16:19 a 24; Lucas, 18:18 a 25; Marcos, 10:17 a 25).


Resguardar a Avareza

3. No meio da multidão, um homem disse a Jesus: "Mestre, ordena a meu irmão que divida comigo a herança que recebemos." E Jesus lhe perguntou: "Homem, que lhe disse que Eu sou juiz para fazer partilhas?". Depois acrescentou: "Tenha cuidado para não ser avarento, porque a nossa vida não dependerá da abundância dos bens que possuímos."

Jesus depois lhe contou essa parábola: "Existia um homem rico, cujas terras haviam produzido muito, e esse homem pensava consigo mesmo: O que farei? Não tenho lugar para guardar tudo o que vou colher. Já sei, pensou ele: derrubarei os meus celeiros e construirei outros maiores ainda, onde colocarei toda minha colheita e todos os meus bens, e então direi a minha alma: você tem agora muitos bens de reserva que irão durar anos. Descanse, coma, beba, divirta-se." Porém, Deus, nesse mesmo instante, disse a esse homem: "Como você é insensato! Sua alma será arrebatada ainda esta noite, e para quem ficará tudo o que acumulou?".

"O mesmo acontece com aquele que guarda tesouros para si mesmo, mas não é rico perante Deus." (Lucas, 12:13 a 21)


Jesus Na Casa De Zaqueu

4. Jesus entrou em Jericó e atravessou a cidade. Lá existia um homem muito rico chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos. Zaqueu queria encontrar Jesus para conhecê-Lo, mas não conseguia devido à multidão e à sua baixa estatura. Assim, correu na frente e subiu em uma grande árvore para vê-Lo, pois Ele deveria passar por ali. Quando Jesus chegou, levantou os olhos e, vendo Zaqueu desceu, rápido, e O recebeu com alegria. Vendo isso, todos murmuraram, dizendo: "Ele vai se hospedar na casa de um homem de má conduta?" (ver, ma Introdução desta obra: Publicanos).

Entretanto, Zaqueu apresentou-se diante de Jesus e Lhe disse: "Senhor, dou a metade dos meus bens ao pobres, e, se fiz o mal a quem quer que seja, pago-lhe quatro vezes mais." E Jesus lhe respondeu: "Esta casa recebeu hoje a salvação, pois você também é filho de Abraão. Porque Eu vim para procurar e salvar o que estava perdido." (Lucas, 19:1 a 10).


Parábola do Mau Rico

5. Havia um homem muito rico que se vestia de púrpura e linho, e que se banqueteava todos os dias. Havia, também, um mendigo chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de chagas e que desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Mas não lhe sobrava quase nada, e os cães ainda vinham lamber suas feridas. O mendigo morreu e foi levado pelos anjos ao encontro de Abraão. O rico também morreu e foi para o inferno. Quando o rico estava no auge do seu sofrimento, elevou os olhos ao alto e viu de longe Abraão com Lázaro ao seu lado, e, aos gritos, disse: "Meu pai Abraão, tenha piedade de mim e mande Lázaro aqui, para que ele molhe a ponta do seu dedo na água e refresque minha sede, pois sofro muito nesse lugar."

Porém, Abraão lhe respondeu: "Meu filho, você deve lembrar que recebeu seus bens em vida, enquanto Lázaro apenas recebeu migalhas. Por isso, ele está agora na consolação e você nos tormentos. Além disso, nesse momento, existe um grande abismo entre nós, pois aqueles que estão aqui não conseguem chegar até aí, e os que estão aí também não conseguem passar para o lado de cá."

Então, o rico disse: "Eu lhe suplico, pai Abraão, para que envie Lázaro à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, a fim de contar-lhes o quanto estou sofrendo, para que eles também não venham parar nesse lugar horrível." E Abraão lhe respondeu: "Eles já têm os ensinamentos de Moisés e dos Profetas, que eles sigam esses ensinamentos." "Meu pai Abraão", disse o rico, "se algum dos mortos for encontrá-los, eles se submeterão a sacrifícios a fim de resgatar os pecados que cometeram." Abraão lhe respondeu: "Se eles não ouvem nem a Moisés e nem aos Profetas, não acreditarão em mais nada, ainda que algum dos mortos ressuscite." (Lucas, 16:19 a 31)


Parábola dos Talentos

6. O Senhor age como um homem que, tendo que fazer uma longa viagem para fora de seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Distribuiu seus talentos segundo a capacidade de cada um. Ao primeiro, deu cinco, ao segundo, dois e ao terceiro, somente um, e depois partiu. Aquele que havia recebido cinco talentos negociou com o dinheiro e ganhou outros cinco. Aquele que havia recebido dois, também negociou e ganhou mais dois talentos. Porém, o servidor que recebeu apenas um talento, cavou um buraco na Terra e lá guardou o dinheiro de seu amo. Depois de muito tempo, o Senhor retornou da viagem e chamou seus servidores para que lhe prestassem contas. Aquele que recebeu cinco talentos, apresentou-se e disse: "Senhor, recebi cinco talentos e trago, além desses, outros cinco que ganhei." E o amo lhe disse: "Bom e fiel servidor, porque você foi fiel com pouca coisa, vou dar-lhe muito mais, venha e compartilhe da minha alegria." Aquele que recebeu dois talentos também se apresentou e disse: "Senhor, recebi dois talentos e trago, além desses, outros dois que ganhei." E o amo lhe disse: "Bom e fiel servidor, porque você foi fiel com pouca coisa, vou dar-lhe muito mais, venha e compartilhe, também, da minha alegria." Aquele que tinha recebido apenas um talento apresentou-se em seguida e disse: "Senhor, sei o quanto é exigente e que colhe onde não semeou, por isso, com medo, escondi o talento na Terra, devolvo agora o que lhe pertence." Porém, o amo lhe disse: "Servidor mau e preguiçoso, se você sabia que eu era exigente, deveria ter colocado meu dinheiro no banco para que, após o meu retorno, eu pudesse retirar com juros o que me pertencia. Tirem dele o talento e deem ao servidor que possui dez talentos. Porque é preciso dar a todos os que têm e eles ficarão na abundância, mas daquele que nada tem, deve-se tirar até mesmo o que ele parece ter. Joguem, portanto, esse servidor inútil nas trevas, onde haverá prantos e ranger de dentes." (Mateus, 25:14 a 30)


Utilidade Providencial da Riqueza - Provas
da Riqueza e da Miséria