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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Sejam Perfeitos

CAPÍTULO XVII

Sejam Perfeitos

• Características da Perfeição •  O Homem de Bem
 • Os Bons Espíritas • Parábola do Semeador 


Instruções Dos Espíritos:

• O Dever • A Virtude • Os Superiores e os Inferiores
• O Homem no Mundo • Cuidar do Corpo e do Espírito


Características da Perfeição

1. Jesus disse: "Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, e orem por aqueles que perseguem e caluniam vocês. Assim, serão filhos de seu Pai que está nos Céus, e que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas aqueles que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que fazem mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito." (Mateus, 5:44, 46 a 48).

2. Uma vez que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, este ensinamento moral: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito", se tomado ao pé da letra, daria a entender a possibilidade do homem também atingir a perfeição absoluta. Se fosse dado à criatura ser tão perfeita quanto o Criador, ela O igualaria, o que é inadmissível. Os homens, aos quais Jesus falava, não tinham condições de compreender essa questão, por isso, Ele se limitou em apresentar-lhes um modelo, e pediu para que se esforçassem em atingi-lo.

Jesus falava de uma perfeição relativa, aquela que a Humanidade era capaz de compreender e que a aproximasse mais da Divindade. Mas em que consiste essa perfeição? Jesus mesmo disse: "Amar os inimigos, fazer o bem para aqueles que nos odeiam, orar por aqueles que nos perseguem.". Eles mostra, com isso, que a essência da perfeição é a caridade, pois, para praticá-la, é necessário possuir todas as outras virtudes.

De alguma forma, a prática da caridade é influenciada pelos vícios e pelos pequenos defeitos que o homem possui. Todos esses vícios nascem do egoísmo e do orgulho, que são sentimentos contrários. Tudo que estimula exageradamente a personalidade enfraquece os princípios da verdadeira caridade, que são: a bondade, a indulgência, a abnegação e o devotamento. Se aquele que ama o próximo consegue também amar os inimigos, isso é sempre um indício de superioridade moral. Assim, o grau de perfeição de uma pessoa está na razão direta do amor que ela consegue ter pelo seu próximo. Eis por que Jesus, após ter dado a Seus discípulos as regras da caridade, no que ela tem de mais sublime, disse: "Sejam, pois, perfeitos, como seu Pai Celestial é perfeito.".


O Homem de Bem

3. O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da Justiça, do Amor e da Caridade em toda sua pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa Lei, se não fez o mal, se fez todo bem que podia, se, de propósito, não deixou escapar uma ocasião de ser útil, se ninguém tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que os outros lhe fizessem.

O homem de bem tem fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria Divina. Sabe que nada acontece sem a Sua permissão e, em todas as ocasiões, se submete a Sua vontade.

Tem fé no futuro, razão pela qual coloca os bens espirituais acima dos bens materiais.

Sabe que todas as dificuldades da vida, todas as dores todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem se queixa.

O homem bondoso, que possui o sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem sem esperar recompensa, retribui o mal com o bem, defende o fraco contra o forte e sacrifica, sempre, seus interesses pela justiça.

Encontra satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas alegrias que proporciona ao próximo, nas lágrimas que seca, nas consolações que leva aos aflitos. Pensa primeiro nos outros, antes de pensar em si, procura os interesses alheios antes de procurar os seus. O egoísta, ao contrário, calcula os ganhos e as perdas de cada ação generosa. 

O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, não faz distinção de raças ou crenças, pois vê todos os homens como irmãos seus.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não amaldiçoa quem não pensa como ele.

O homem de bem, em todos os momentos, tem como guia a caridade. Sabe que todo aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que fere com seu orgulho e seu desprezo os sentimentos de alguém, que não se importa em causar um sofrimento quando este poderia ser evitado, e que não possui amor pelo próximo, não merecerá o perdão do Senhor até que se arrependa do fundo do coração.

Não tem ódio, nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e apenas se lembra dos benefícios, pois sabe que será perdoado assim como perdoou.

É tolerante para com as fraquezas alheias porque sabe que ele mesmo tem necessidade de tolerância e recorda das palavras do Cristo: Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.

Não se satisfaz em procurar os defeitos dos outros, nem coloca-los em evidência. Se a necessidade o obriga a fazer isso, procura sempre o bem que possa atenuar o mal.

Estuda suas próprias imperfeições e trabalha sem cessar para combatê-las. Emprega todos os seus esforços para poder dizer, no dia seguinte, que existe nele algo de melhor do que no dia anterior.

Procura não exaltar seus conhecimentos em detrimento de outros, ao contrário, aproveita todas as ocasiões para ressaltar as qualidades alheias.

O homem de bem não se envaidece de sua riqueza nem de suas vantagens pessoais, pois sabe que tudo que lhe foi dado pode ser retirado.

Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe que se trata de um depósito do qual terá que prestar contas. Sabe, também, que, se empregar esses bens na satisfação de suas paixões, o maior prejudicado será ele mesmo.

Se nas relações sociais alguns homens estão sob seu comando, trata-os com bondade e benevolência, pois são seus semelhantes perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes o moral e não para esmagá-los com seu orgulho. Evita tudo o que poderia tornar mais difícil a posição subalterna em que estão.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da posição que ocupa e se empenha em cumpri-los da melhor maneira possível (veja cap. 17:9).

Finalmente, o homem de bem respeita todos os direitos que as Leis da Natureza asseguram aos seus semelhantes, como deseja que os seus sejam respeitados.

Esta não é a relação completa de todas as qualidades que distinguem o homem de bem; mas aquele que se esforçar para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais virtudes.


Os Bons Espíritas

4. O Espiritismo, bem compreendido e bem vivenciado, leva o homem a possuir as qualidades descritas para o homem de bem. Essas qualidades caracterizam o verdadeiro Espírita, assim como o verdadeiro Cristão, pois tanto um quanto o outro são a mesma coisa. O Espiritismo não cria uma nova moral, ele apenas facilita aos homens a compreensão e a prática da moral do Cristo. Oferece uma fé sólida e traz o esclarecimento para aqueles que duvidam ou vacilam.

Muitos, que acreditam nas manifestações espíritas, não compreendem sias consequências, nem seu alcance moral, ou, se os compreendem, não aplicam a si mesmos. Por que isso acontece? Será falta de clareza da Doutrina? Não, pois a Doutrina Espírita não utiliza nenhuma linguagem figurada que possa dar margem a falsas interpretações. Sua essência está em sua própria clareza e é daí que vem sua força, pois ela explica as coisas de maneira fácil, atingindo diretamente a inteligência daqueles que a procuram. Ela não possui nada de misterioso, e seus seguidores não estão de posse de nenhum segredo oculto ao povo.

Será necessária, então, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, pois existem homens de reconhecida capacidade intelectual que não a compreendem, enquanto que, pessoas comuns, jovens recém-saídos da adolescência, apreendem-na com admirável facilidade, até mesmo nos seus detalhes mais sutis. Isso acontece porque a parte material da Ciência não requer mais do que os olhos para ser observada, ao passo que a essência do Espiritismo requer um certo grau de sensibilidade que independe da idade ou do nível de instrução da criatura. Essa sensibilidade pode ser chamada de maturidade do senso moral. Essa maturidade, que lhe é própria, corresponde ao grau de desenvolvimento que o Espírito encarnado já possui.

Em algumas pessoas, os laços que as prendem às coisas materiais estão ainda muito fortes para permitir que o Espírito se desprenda das coisas terrenas. O nevoeiro que as envolve impede-lhes a visão do infinito. Eis por que não conseguem romper facilmente com seus gostos e com seus hábitos, pois não compreendem que possa existir algo melhor do que aquilo que possuem. A crença nos Espíritos, para essas pessoas, é um simples fato que não modifica em nada suas tendências instintivas. Enxergam apenas um raio de luz, insuficiente para orientá-las e despertar uma vontade decidida que seja capaz de modificar seus pensamento. Elas apegam-se mais aos fenômenos espíritas do que à moral, que lhes parece banal e monótona. Pedem aos Espíritos para terem acesso de imediato aos novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignas de conhecer os segredos do Criador. São Espíritas imperfeitos, porque não se desenvolvem e acabam se afastando de seus irmão em crença, pois recuam ante a obrigação de se reformarem. Preferem reservar suas simpatias para os que possuem as mesmas fraquezas ou prevenções. De qualquer forma, aceitar os princípios da Doutrina Espírita é um primeiro passo que facilitará o segundo, numa outra existência.

Aquele que pode ser qualificado como verdadeiro Espírita já se encontra num grau superior de adiantamento moral. Seu Espírito já possui um domínio maior sobre a matéria, por isso, tem uma percepção mais clara do futuro. Os princípios da Doutrina Espírita fazem vibrar nele o lado espiritual, que ainda permanece adormecido nas outras criaturas. Podemos dizer que ele foi tocado no coração, que sua fé tornou-se inabalável. O Espírita é como um músico que se comove com os acordes, enquanto que a maioria ouve apenas o som. O verdadeiro Espírita é reconhecido por sua transformação moral e pelos esforças que faz para dominar suas más tendências. Enquanto o homem comum se satisfaz com seu horizonte limitado, o Espírita compreende a existência de alguma coisa melhor e procura libertar-se para atingi-la. Ele sempre conseguirá, se tiver uma vontade firme e determinada.


Parábola do Semeador

5. Jesus, ao sair de casa, sentou-se à beira-mar, e uma grande multidão de pessoas reuniu-se ao seu redor. Assim, Ele subiu em um barco, e todos ficaram em pé na praia. Foi então que Ele falou ao povo, em forma de parábolas:

Aquele que semeia, saiu a semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíam ao longo da estrada, e os pássaros do Céu vieram e comeram-nas.

Uma outra quantidade caiu nas pedras, onde havia pouca terra, por isso, logo germinaram. Como a terra era pouca, não puderam criar raízes e, quando o sol nasceu, as sementes secaram.

Outras caíram nos espinhos e, quando eles cresceram, sufocaram as sementes. 

Finalmente, outras caíram em terra boa e deram frutos. Alguns grãos renderam cem por u, outros sessenta, e outros, trinta.

Que ouçam aqueles que têm ouvido para ouvir. (Mateus, 13:1 a 9)

Escutem, vocês também, a parábola do semeador.

Todo aquele que ouve a palavra do Reino De Deus e não presta atenção, faz surgir o Espírito mau, que arrebata tudo o que havia sido semeado em seu coração. Esse é aquele que deixou s semente cair ao longo da estrada.

O que deixou a semente cair junto às pedras é aquele que ouve a palavra do Cristo, e a recebe na mesma hora, com alegria, mas, por não ter raízes em si, essa alegria dura pouco tempo. Quando surgem os problemas e as perseguições por causa da palavra, ele logo se revolta e abandona tudo.

O que deixou a semente cair entre os espinhos é aquele que ouve a palavra, mas é sufocado pelas modernidades e pelas ilusões da riqueza. Por isso, a palavra, para ele torna-se sem valor.

O que deixou a semente cair em uma terra boa é aquele que escuta a palavra de Cristo, presta atenção e procura segui-la. É nele que a palavra produzirá frutos que irão render cem ou sessenta ou trinta por um. (Mateus, 13:18 a 23).

6. A parábola do semeador descreve as diversas maneira de se por em prática os ensinamentos do Evangelho. Quantas pessoas existem para as quais os ensinamentos não passam de palavras sem valor. Elas são como as sementes que caíram sobre as pedras, nada produzem, nada frutificam!

Essa parábola se aplica, também, aos diversos tipos de Espíritas. Ela é o símbolo daqueles que se apegam somente aos fenômenos materiais, sem tirar deles nenhum proveito. Veem os fenômenos como mero objeto de curiosidade. Simboliza, também, os que procuram somente o lado brilhante das comunicações dos Espíritos, interessando-se apenas enquanto elas satisfazem a sua imaginação. Porém, depois de ouvi-las, continuam frios e indiferentes como eram antes. A parábola do semeador também simboliza aqueles que acham os conselhos muito bons, mas para serem aplicados aos outros, e não em si mesmos. E, finalmente, simboliza aqueles para quem os ensinamentos são como a semente que caiu em terra boa e produz bons frutos.


Instruções Dos Espíritos:
Lázaro - Paris, 1863

7. O dever é a obrigação moral do homem, primeiro para consigo mesmo, em seguida, para com os outros. O dever é uma Lei da Vida, pois é encontrado tanto nos atos mais simples como nos mais elevados. Quero examinar, aqui, apenas o dever moral e não o dever que as profissões impõem.

O dever é um sentimento muito difícil de ser cumprido, pois será em oposição com os interesses materiais e os interesses do coração. Quando cumprimos com o dever, não fazemos mais do que a nossa obrigação e não nos elogiamos por isso. Quando não cumprimos, também não permitimos que nossa consciência nos repreenda.

O dever íntimo do homem é governado pelo seu livre-arbítrio; a consciência está sempre o advertindo contra as condutas erradas. Ainda assim, ele, muitas vezes, se deixa levar pelos enganos da paixão. O homem se eleva quando observa, fielmente, os deveres do coração, que nada maus são que os seus valores interiores. Mas como esses deveres podem ser determinados? Onde começam? Onde terminam? Os deveres começam, precisamente, no ponto onde se ameaça a felicidade ou a tranquilidade do próximo e terminam no limite em que não se desejaria ver a própria felicidade ou a tranquilidade ameaçadas.

Deus criou todos os homens iguais perante a dor. Pequenos ou grandes, incultos ou esclarecidos, todos sofrem pelas mesmas coisas, a fim de que cada um avalie, de maneira consciente, o mal que pode fazer. O mesmo critério de que todos são iguais perante a dor não pode ser aplicado para o bem, pois nem todos são iguais em suas capacidades de fazer o bem. A igualdade perante a dor é uma sublime providência de Deus, pois Ele quer que Seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal alegando a ignorância de seus efeitos.

Na prática, o dever reflete todas as virtudes morais; é uma fortaleza da alma que enfrenta as angústias da luta diária. O dever é severo e dócil. Está sempre pronto a se submeter às mais diversas situações, mas permanece sempre firme perante as tentações. Aquele que cumpre seu , ama mais a Deus do que os homens, e aos homens mais do que a si mesmo. É, ao mesmo tempo, juiz e escrevo em causa própria.

O dever é o que a razão possui de mais belo. Ele provém da razão, assim como o filho provém de sua mãe. O homem deve amar o dever, não porque ele o preserve dos males da vida, aos quais a Humanidade está sujeita, mas porque ele fornece à alma a força necessária ao seu desenvolvimento.

Nos estágios superiores da Humanidade, o dever se apresenta sob uma forma mais elevada. A obrigação moral da criatura para com Deus nunca cessa. Ela deve refletir as virtudes do Criador, que não aceita um esboço imperfeito, pois quer que a beleza de Sua obra resplandeça aos Seus próprios olhos.



A Virtude
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

8. A virtude é o conjunto de todas as qualidades que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, trabalhador, moderado, modesto, são qualidades do homem que possui virtudes. Infelizmente, elas são quase sempre acompanhadas de pequenas falhas morais que as desmerecem e as enfraquecem. Aquele que se vangloria de sias virtudes não é virtuoso, pois lhe falta a principal qualidade: a modéstia, e porque tem o principal vício: orgulho. A verdadeira virtude não gosta de se exibir, ao contrário, é preciso descobri-la, pois ela se esconde no anonimato e foge da admiração das massas. Vicente de Paulo e Jean Marie Vianney, digno páraco da cidade de Ars, eram virtuosos. Deixavam-se ir ao sabor de suas inspirações e praticavam o bem com total desinteressante e completo esquecimento de si mesmos.

Meus filhos! É para a virtude verdadeiramente cristã e espírita, praticada com desinteresse, que eu os convoco. Afastem de seus corações o sentimento de orgulho, de vaidade, de amor-próprio, que sempre desvalorizam as mais belas qualidades. Não imitem o homem que se apresenta como modelo a ser seguido e que se gaba de suas próprias qualidades para aqueles que estão dispostos a ouvi-lo. Essa virtude com ostentação esconde, quase sempre, muitas mesquinharias e fraquezas.

Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que ergue uma estátua a sua própria virtude, aniquila todos os méritos que efetivamente possa ter. E o que dizer daquele que dá valor em parecer aquilo que não é? Compreendo que o homem que faz o bem, sinta no fundo do coração uma satisfação íntima Porém, se essa satisfação for usada para lhe render elogios, ela se transforma em amor-próprio. 

Todos vocês. a quem a fé espírita reanimou com seus ensinamento, que sabem o quanto o homem está longe da perfeição, não cometam nunca uma tolice dessas. A virtude é uma graça que desejo a todos os Espíritas sinceros, mas advirto: mais valem poucas virtudes com modéstia, do que muitas com orgulho; é pelo orgulho que as civilizações vêm, sucessivamente, se perdendo e será pela humildade que elas irão se redimir um dia.

Os Superiores e os Inferiores
François - Nicolas - Madeleine - Cardeal Morlot - Paris, 1863

9. Aquele que recebe a autoridade terá que prestar contas, assim como aquele que recebe a riqueza. Não acreditem que a autoridade seja dada para satisfazer o vão prazer de mandar, assim como acreditam erroneamente a maior parte dos poderosos da Terra, que pensam que a autoridade lhes foi dada como um direito ou uma propriedade.

Deus tem provado, constantemente, que a autoridade não é um direito e, muito menos, uma propriedade, pois a retira dos que dela se acham proprietários quando Lhe convém. Se a autoridade fosse um privilégio ligado à pessoa, ela seria intransferível. Ninguém pode dizer que uma coisa lhe pertence, quando ela pode lhe ser retirada sem o seu consentimento. Deus concede a autoridade a título de missão ou de prova, quando quer, e a retira quando julga necessário.

Todo aquele que recebe a autoridade, seja qual for o tamanho dessa autoridade, desde um patrão para com seu empregado até o soberano para com seu povo, não poderá esquecer que é um encarregado de almas e que responderá pela boa ou má orientação que der a seus subordinados. Toda responsabilidade recairá sobre aquele que, tendo autoridade, deixar que seus comandados cometam faltas e sejam levados pelo vício ou pelos maus exemplos; da mesma maneira que colherá os frutos de seu esforço por conduzi-los ao bem. Todo homem tem, na Terra, uma missão, seja ela pequena seja grande, sempre lhe será dada para o bem. Desviá-la do seu verdadeiro objetivo é fracassar em sua execução.

Assim como Deus pergunta aos ricos: "O que fizeram da riqueza que, em suas mãos, deveria ser uma fonte espalhando fecundidade ao redor de todos?", também perguntará para aqueles que receberam alguma autoridade: "Que uso fizeram dessa autoridade? Que mal impediram? Que progresso promoveram?". Se Eu dei a vocês subordinados, não foi para que fizessem deles escravos de suas vontades, nem instrumentos dóceis dos seus caprichos ou de suas ambições. Se eu fiz vocês fortes e confiei-lhes os fracos, foi para que pudessem ampará-los, ajudando-os a chegarem até Mim.

Aqueles que possuem autoridade e seguem as palavras do Cristo, não desprezam nenhum dos que estão abaixo, pois sabem que as diferenças sociais não existem perante Deus. O Espiritismo ensina que devem tratar de maneira igual a todos os seus subordinados; que aqueles que hoje lhe obedecem, talvez, já tenham lhe dado ordens ou poderão vir a dar em uma existência futura. Ensina, também, que serão tratados amanhã, conforme estão tratando, hoje, aqueles sobre os quais exercem sua autoridade.

Tanto os superiores quanto os inferiores possuem sagrados deveres a cumprir. Se o subordinado é Espírita, sua consciência lhe dirá, com mais forte razão, que não pode deixar de desempenhar seus deveres, mesmo que seu chefe não cumpra com os seus; o Espírita sabe que não deve pagar o mal com o mal e que as faltas de uns não justificam as faltas de outros. Se sofre, na condição de subalterno, sabe que esse sofrimento é merecido, porque ele mesmo pode já ter abusado, em existências anteriores, da autoridade que possuía. Experimenta agora, por sua vez, o que fez os outros sofrem. Se precisa suportar o emprego atual, por não encontrar outro melhor, o Espiritismo lhe ensina a aceitar essa situação sem reclamar, como sendo uma prova para sua humildade e necessária ao seu adiantamento. Sua conduta é norteada pelo conhecimento espiritual que possui e ele age para com seu patrão como gostaria que seus subordinados agissem para consigo, caso ele fosse o chefe. Assim, é mais cuidadoso no cumprimento de suas obrigações, pois sabe que toda negligência em seu trabalho é um prejuízo para aquele que o remunera e a quem deve seu tempo e seus esforços. Resumindo, ele é guiado pelo sentimento do dever que sua fé lhe fornece e pela certeza de que todo afastamento do caminho reto é uma dívida que, cedo ou tarde, terá que pagar.


O Homem no Mundo
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1863.

10. Um sentimento de piedade deve sempre orientar o coração daqueles que se reúnem sob os olhos do Senhor e imploram a assistência dos bons Espíritos. Purifiquem seus corações, não se perturbem por pensamentos fúteis ou mundanos. Elevem seus pensamentos em direção aos Espíritos que evocam, para que eles possam encontrar em vocês as condições necessárias para poder ajudá-los, inspirando-lhes os sentimentos da caridade e da justiça.

Não acreditem que, ao incentiva a prece e a evocação dos bons Espíritos, desejamos que vocês vivam como eles vivem. Se sacrificarem as necessidades, ou até mesmo as banalidade do dia a dia, façam isso com um sentimento de pureza, para que essa renúncia possa ser santificada.

Se forem obrigados a conviver com Espíritos de natureza diferente, com características opostas às que possuem, não devem afrontar nem contrariar esses Espíritos. Sejam alegres e felizes, mas com uma alegria que venha de uma consciência tranquila. Vivam com felicidade de um herdeiro do Céu, que conta os dias quem faltam para o seu retorno.

A virtude não consiste em assumir um aspecto severo e sombrio, rejeitando os prazeres que a condição humana permite. Basta que todos os atos de vocês sejam regidos pela Lei do Criador, que deu a vida a todos. Ao começarem uma obra, elevem o pensamento a Deus e peçam a Ele proteção, para que essa obra tenha êxito. Ao terminarem, peçam a Deus para que abençoe essa obra. Ao realizarem qualquer atividade, elevem também o pensamento a Deus, e procurem não realizar nada sem a lembrança do Criador venha purificar e santificar a execução dessas tarefas. 

A perfeição está inteiramente, como disse Cristo, na prática da caridade sem limites. O dever da caridade se estende a todas as posições sociais, desde a maior até a menor. O homem, se vivesse sozinho, não teria como praticar a caridade. É no contato com seus semelhantes, na luta difícil do dia a dia, que ele encontra a ocasião para praticá-la. Aquele que se isola, priva-se, voluntariamente, do meio mais poderoso para se aperfeiçoar. Ao pensar em si, sua vida é a de um egoísta (veja, nesta obra cap. 5:26).

Não imaginem que para viver em comunicação constante conosco, para viver sob a observação do Senhor, seja preciso entregar-se ao cilício e cobrir-se de cinzas. Não! Mais uma vez, não! Sejam felizes, de acordo com as necessidades humanas, mas que essa felicidade nunca tenha um pensamento ou um ato que possa ofender a Deus, ou entristecer o semblante daqueles que amam e dirigem vocês. Deus é amor e abençoa aqueles que sabem amar.


Cuidar do Corpo e do Espírito
Georges, Espírito Protetor - Paris, 1863.

11. Será válido, ao homem, maltratar o próprio corpo para buscar a purificação de seu Espírito? Para responder essa questão, me apoiarei em princípios básicos, demonstrando a necessidade de cuidar do corpo. O corpo influi sobre a alma de uma maneira muito importante, conforme esteja sadio ou doente, pois precisamos considerar a alma como uma prisioneira do corpo físico. Para que a alma viva, se expanda e chegue mesmo a criar as ilusões de liberdade, o corpo tem que estar sadio, disposto e forte. O corpo e a alma devem manter o equilíbrio entre suas aptidões e necessidades tão diferentes. O segredo está justamente em achar esse equilíbrio.

Aqui, dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que não dão nenhuma importância ao corpo, e o dos materialistas que querem negar a alma. Dois sistemas violentos e insensatos, tanto um quanto o outro. A lado dessas duas grandes correntes de pensamento, existe um grande número de pessoas diferentes, que, sem convicções e sem afeições, amam com frieza e não sabem aproveitar a vida. Onde está, então, a sabedoria e a ciência de viver? Em nenhum lugar. Esse problema ficaria sem solução, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando as relações que existem entre o corpo e a alma, ensinando-lhes que é preciso cuidar dos dois, pois que um depende do outro. Amem a alma, mas cuidem também do corpo, que é seu instrumento. Ignorar as necessidades que a própria natureza indica é desconhecer a Lei de Deus. Não castiguem o corpo pelas faltas que o próprio livre-arbítrio os leva a cometer, pois são tão responsáveis por elas quanto um cavalo mal guiado o é pelos acidentes que causa. Por acaso serão mais perfeitos se martirizarem o corpo e continuarem egoístas, orgulhosos e não praticando a caridade para com o próximo? Não! A perfeição não está nessa tortura. Ela encontra-se nas reformas que conseguirem impor a seu Espírito, e não ao corpo. O Espírito precisa ter o egoísmo e o orgulho dobrados, humilhados, dominados, pois esse é o meio de torná-los mais dócil à vontade de Deus. É, também, o único caminho que o conduzirá à perfeição.

Comentários

1. Pagãos - São todos os povos que praticavam o politeísmo (crença em vários deuses), que não acreditavam em um Deus único; aqueles contrários aos dogmas do judaísmo e, posteriormente, aos da Igreja Romana.

6. Parábola do semeador - Jesus é o semeador da mensagem divina, e cada Espírito, encarnado ou desencarnado, é um tipo de solo que renderá, ou não, frutos, conforme sua disposição em receber essa semente.

10. Cilício - Túnica grosseira feita de crina ou lã áspera. Vestia-se sobre a pele como uma forma de fazer penitência, ou, melhor, sacrifício voluntário. 

Cobrir-se de cinzas - Alusão ao hábito dos antigos hebreus, que se cobriam de cinzas, como uma forma de penitência.

11. Ascetas - Pessoas inteiramente consagradas à prática da meditação e da penitência. Desenvolvem apenas o lado espiritual, não dando nenhuma importância aos relacionamentos sociais nem ao corpo físico.


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Amem Os Seus Inimigos


CAPÍTULO XII

Amem Os Seus Inimigos

• Pagar O Mal Com O Bem
•  Os Inimigos Desencarnados
• Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, Apresenta-lhe, Também, A Outra


Instruções Dos Espíritos:
• A Vingança • O Ódio • O Duelo

Pagar O Mal Com O Bem

1. Jesus disse para aqueles que O escutavam: "Aprenderam o que foi dito: Amem o próximo e odeiem os inimigos. Porém, Eu digo a vocês: Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, orem por aqueles que os perseguem e caluniam, para que sejam filhos do Meu Pai, que está nos Céus, que faz nascer o sol sobre os bons e os maus e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas os que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E, se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que estarão fazendo mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Porém, Eu digo a vocês que, se não aplicarem uma justiça maior e mais perfeita que a dos escribas e fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus" (Mateus, 5:5 a 20, 43 a 47).


2. "Se saudarem apenas os parentes e amigos, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não fazem o mesmo? E se fizerem o bem apenas para aqueles que fazem o bem a vocês que recompensa terão? E se emprestarem somente para aqueles que podem lhes retribuir, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não se ajudam umas às outras para receberem a mesma vantagem?"

"Quanto a vocês, amem os inimigos, façam o bem a todos, emprestem sem nada esperar em troca, e suas recompensas serão bem maiores. Serão os filhos do Altíssimo. Pois Ele é bom para os ingratos e também para os maus. Sejam, pois, misericordiosos, assim como seu Pai o é" (Lucas, 6:32 a 36).

3. Se a caridade tem como princípio amar o próximo, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio. A virtude de amar os inimigos é uma das maiores vitórias alcançadas sobre o egoísmo e o orgulho.

A palavra amar, utilizada por Jesus neste ensinamento, pode causar algum equívoco quanto a sua interpretação, pois Ele não quis dizer que devemos ter pelo inimigo a mesma ternura que temos por um amigo. A ternura requer confiança e não podemos depositar confiança em uma pessoa sabendo que ela nos quer mal. Não podemos ter por ela a mesma demonstração de amizade, sabendo que ela pode abusar dessa amizade. Entre pessoas que desconfiam umas das outras, não pode haver a mesma simpatia que existe entre aqueles que possuem as mesmas ideias. Quando encontramos um inimigo, não podemos sentir por ele a mesma alegria que sentimos quando encontramos um amigo.

Esse sentimento de amor e aversão resulta de uma das Leis da Física: A Lei da Assimilação e da Repulsão dos Fluidos. A corrente fluídica emitida pelo mau pensamento traz consigo uma influência muito ruim; já o bom pensamento nos envolve agradavelmente. Por isso a diferença das sensações que experimentamos quando nos aproximamos de um amigo ou de um inimigo. Portanto, amar os inimigos não pode significar que não se deva fazer nenhuma distinção entre amigos e inimigos. Este ensinamento nos parece difícil e até mesmo impossível de ser praticado, porque entendemos, erradamente, que ele manda dar aos amigos e aos inimigos o mesmo lugar no coração. Devido à pobreza das línguas humanas, somos obrigados a usar a palavra AMAR para expressar diversas formas de sentimentos. Assim, precisamos completar seu significado, explicando que amar os inimigos é ter para com eles um sentimento desprovido de animosidade.

Amar os inimigos não é ter para com eles uma afeição forçada, que não seja natural, já que o encontro com um inimigo faz bater nosso coração de uma maneira diferente da que quando encontramos um amigo. Amar os inimigos, segundo esse ensinamento de Jesus, é não ter contra eles nem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança. É perdoar o mal que eles nos fazem, sem impor condições e sem ter segundas intenções. É não colocar nenhum obstáculo à reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É alegrar-se pelo bem que lhes aconteça, em vez de ficarmos tristes. É socorrê-los em caso de necessidade. É não usar palavras nem cometer atos que possam prejudicá-los. É, enfim, pagar-lhes todo o mal com o bem, sem intenção de humilhá-los. Quem fizer isso, estará seguindo o mandamento: "Amem os seus inimigos".

4. O ensinamento amar os inimigos é um absurdo para o incrédulo. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê em seu inimigo um ser nocivo e perturbador de sua tranquilidade. Pensa que somente a morte poderá livrá-lo de sua presença, surgindo, assim, o desejo de vingança. O incrédulo não possui nenhum interesse em perdoar, a menos que seja para satisfazer seu orgulho aos olhos do mundo. O próprio ato de perdoar, em certos casos, parece mesmo uma fraqueza, indigna de sua personalidade. Se não consegue se vingar, nem por isso deixará de guardar rancor e um desejo secreto de lhe fazer o mal.

Para aquele que crê, e especialmente para o Espírita, a maneira de ver as coisas é completamente diferente. Ao observar os fatos olhando para o passado e também para o futuro, ele percebe que a vida presente não passa de um momento. O Espírita também sabe que, pela própria destinação da Terra, é natural encontrar, nela, homens maus e perversos. Sabe que a maldade da qual é vítima faz parte das provas que precisa suportar. O esclarecimento maior que possui faz com que ele veja os problemas da vida de maneiro menos amarga, venham eles dos homens ou das coisas. Se o Espírito não reclama das provas, não deve reclamar também dos que servem de instrumento para que essas provas se cumpram. Em vez de se lamentar, deve agradecer a Deus por querer experimentá-lo. Deve agradecer também àquele que lhe oferece a oportunidade de testar sua paciência e sua resignação. Esse pensamento leva o Espírita, naturalmente, ao perdão. Ele sente que, quanto mais generoso for, mais se engrandece aos seus próprios olhos, ficando, desse modo, fora do alcance do ódio de seu inimigo.

O homem que ocupa no mundo uma posição de destaque não se ofende com os insultos de seus inferiores. O mesmo ocorre com aquele que se eleva, moralmente, acima da Humanidade material. Ele compreende que o ódio e o rancor o fariam sentir-se desprezível e o rebaixariam. Para ser superior ao seu adversário, é preciso possuir uma alma maior, mais nobre e mais generosa.


Os Inimigos Desencarnados

5. O Espírita tem, ainda, outros motivos para perdoar seus inimigos. Ele sabe que a maldade não é o estado permanente dos homens, mas que ela é fruto de uma imperfeição temporária. Assim como a criança se corrige de seus defeitos, o homem mau, um dia, reconhecerá seus erros e se tornará bom.

O Espírita também sabe que a morte apenas o deixa livre da presença material de seu inimigo, e que esse pode persegui-lo com seu ódio, mesmo após ter deixado a Terra. Sabe que qualquer vingança que fizer não atingirá seu objetivo, pelo contrário, vai trazer um desgaste ainda maior, que muitas vezes passa de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo demonstrar, pela experiência e pelas Leis, que regem as relações do Mundo Visível com o Mundo Invisível, que a expressão: "Extingue o ódio com sangue" é completamente falsa, pois o sangue realimenta o ódio, mesmo após a pessoa ter desencarnado. Desse modo, o Espiritismo apresenta uma utilidade prática para o ato de perdoar e para o sublime ensinamento do Cristo: "Amem os seus inimigos". Não existe coração tão perverso que não se deixe tocar pelas boas ações, mesmo a contragosto. Pelo bom proceder, elimina-se todo e qualquer motivo para vinganças. Assim, de um inimigo pode-se fazer um amigo, antes e depois de sua morte. Pelo mau proceder, o homem irrita seu inimigo, fazendo com que ele próprio sirva de instrumento para que se cumpra a Justiça de Deus, que sempre pune aquele que não perdoa.

6. Podemos, assim, ter inimigos entre os encarnados e os desencarnados. Os inimigos desencarnados manifestam sua maldade através das obsessões e subjugações, às quais tantas pessoas estão expostas. Essas obsessões são provações que o homem enfrenta durante a vida e que contribuem para o seu adiantamento na Terra. Por isso, elas devem ser aceitas com resignação e como consequência da natureza inferior dos Espíritos que vivem no nosso globo terrestre. Se não existissem homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu redor. Se devemos perdoar e ter misericórdia para com os inimigos encarnados, devemos ter, também, para com os inimigos desencarnados.

Antigamente, eram sacrificados animais e até pessoas para apaziguar a fúria dos deuses infernais. Mais tarde, esses deuses foram substituídos pelos demônios. O Espiritismo ensina que esses demônios não passam de Espíritos maus, que deixam a Terra e ainda continuam presos aos instintos materiais. Esses Espíritos somente poderão ser pacificados por meio da caridade e do amor que a eles for destinado. A caridade, além de impedir que eles pratiquem o mal, também os conduz ao caminho do bem, contribuindo, assim, para seu esclarecimento e elevação moral. É desse modo que o ensinamento de Jesus: "Amem os seus inimigos" não fica limitado ao planeta Terra e à vida presente, mas inclui, também, a grande Lei da Solidariedade e Fraternidade Universais.


Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, 

Apresenta-lhe Também A Outra


7. Jesus disse: "Aprenderam o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Porém, Eu digo para que não resistam ao mal que lhe queiram fazer. Se alguém bater na sua face direito, apresenta-lhe, também, a outra. E se alguém tentar tirar sua túnica, entregue-lhe, também, o seu manto. E se alguém lhe obrigar a andar mil passos, anda com ele mais dois mil. Procura dar para aquele que lhe pede, e não rejeita nunca aquele que lhe pedir emprestado" (Mateus, 5:38 a 42).

8. Os preconceitos do mundo sobre o que se convencionou chamar de "questão de honra" provocam esses melindres, nascidos do orgulho e da exaltação da personalidade que leva o homem a pagar injúria por injúria, ofensa por ofensa. Esse procedimento parece estar muito certo para aquele cujo senso moral não consegue se elevar acima das paixões terrenas. Essa é a razão por que a Lei de Moisés dizia: "Olho por olho, dente por dente", Lei que estava em harmonia com a época que Moisés vivia. Quando o Cristo veio, disse: "Paguem o mal com o bem". E disse mais: "Não resistam ao mal que lhe queiram fazer; se alguém lhe bater numa face, apresenta-lhe, também, a outra". Ao orgulhoso, esse ensinamento parece uma covardia, pois ele não compreende que é preciso ter mmais coragem para suportar um insulto do que para se vingar. Isso porque sua noção do que significa a vida não ultrapassa o momento presente.

Devemos levar ao pé da letra este ensinamento de Jesus? Não, da mesma maneira que não devemos levar aquele que manda arrancar o olho, se este for motivo de escândalo. Se o ensinamento fosse seguido literalmente, a consequência seria a condenação de toda a repressão, deixando o campo livre aos maus, que nada teriam a temer. Se não colocarmos um freio em suas agressões, logo todos os homens de bem seriam suas vítimas. O próprio instinto de conservação, que é uma Lei da Natureza, diz que não se deve desistir da vida sem luta. Por esse ensinamento: "oferecer a outra face", Jesus não quis proibir a defesa, e sim condenar a vingança. Quando disse para oferecer a outra face, quando uma for batida, quis dizer, em outras palavras, que não é preciso pagar o mal com o mal, pois o homem deve aceitar com humildade tudo o que faz rebaixar seu orgulho. Que é mais glorioso ser ferido do que ferir, suportar pacientemente uma injustiça do que arruinar os outros. Ao falar assim, Jesus condena o duelo, que nada mais é do que uma manifestação do orgulho. Somente a fé na vida futura e na Justiça de Deus, que nunca deixa o mal impune, pode nos dar força para suportarmos pacientemente os golpes desferidos contra os nossos interesses e contra o nosso amor-próprio. Eis por que dizemos sempre: "Olhem para frente, quanto mais se elevarem pelo pensamento acima da vida material, menos serão atingidos pelas coisas da Terra".


Instruções dos Espíritos

A Vingança

Jules Olivier - Paris, 1862


9. A vingança e o duelo são vestígios da barbárie, que tendem a desaparecer entre os homens. São costumes selvagens que fazem a Humanidade sofrer. A vingança é um sinal da inferioridade dos homens que a ela recorrem e dos Espíritos que se juntam a eles para inspirá-la. Portanto, meus amigos, esse sentimento não deve, jamais, fazer parte do coração daquele que se diga Espírita. Vingar-se é totalmente contrário ao ensinamento do Cristo que diz: "Perdoem os seus inimigos", e aquele que se recusa a perdoar, não é espírita e também não é cristão.

A vingança é um sentimento tão nocivo quanto a falsidade e a baixeza, que são suas companheiras constantes, porque todo aquele que se vinga, quase nunca o faz a céu aberto. Quando é mais forte, ataca ferozmente aquele a quem considera seu inimigo, bastando, para isso, a simples presença do desafeto para que cresça nele a cólera, a paixão e ódio. Na maioria das vezes, ele toma uma aparência fingida, disfarçando, no fundo do coração, seus maus sentimentos. Seguindo caminhos escusos, persegue, na sombra, seu inimigo, sem que ele de nada desconfie. Espera o momento mais favorável para executar sua vingança, evitando correr algum risco. Escondendo-se, vigia o inimigo sem cessar, preparando-lhe armadilhas odiosas, e, quando surge a ocasião, derrama-lhe no copo o veneno mortal.

Quando seu ódio não chega a tais extremos, ele ataca o inimigo em sua honra e em suas afeições. Faz uso da calúnia e das falsas insinuações, que, habilmente semeadas aos quatro ventos, vão crescendo por onde passam. Dessa forma, quando o perseguido se apresenta nos lugares onde a calúnia e as falsas insinuações já passaram, se admira ao encontrar rostos frios onde encontrava, antigamente, rostos amigos e bondosos. Fica surpreso quando as mãos que se estendiam para ele agora se recusam a cumprimentá-lo. Enfim, fica arrasado quando seus melhores amigos e parentes se desviam e fogem dele. O covarde que se vinga dessa maneira é cem vezes mais culpado do que aquele que enfrenta seu inimigo e o insulta pela frente.

Parem, portanto, com esses costumes selvagens! Parem com esses costumes de outros tempos! Todo espírita que se achar no direito de se vingar, não será digno de figurar por mais tempo entre aqueles que tomaram por lema: "Fora da caridade não há salvação!". Recuso-me a aceitar a simples ideia de que um membro da grande família espírita possa ceder ao impulso da vingança em vez de perdoar.


O Ódio

Fénelon - Bordeaux, 1861

10. Amem-se uns aos outros e serão felizes. Procurem amar, principalmente, aqueles que inspiram em vocês a indiferença, o ódio e o desprezo. Cristo, que deve ser o modelo de todos, deu o exemplo desse devotamento. Missionário do amor, Ele amou a ponto de dar Seu sangue e Sua própria vida. O sacrifício de amar aqueles que nos ofendem e nos perseguem é difícil, mas é isso que nos tornará superiores a eles. Se os odiarmos como eles nos odeiam, não valeremos mais do que eles. Amar os inimigos é o presente que devemos oferecer a Deus, pois esse gesto chegará até Ele como um perfume de agradável aroma. 

A Lei do Amor, que manda amar indistintamente a todos, não nos livra o coração do convívio e da ação dos maus. Amar a todos é uma das provas mais difíceis, eu bem sei, pois, durante a minha última existência terrena, passei por essa tortura. Os que violam a Lei do Amor serão punidos por Deus, nessa vida ou na outra. Não esqueçam, meus queridos filhos, o amor nos aproxima de Deus e o ódio nos afasta Dele.


O Duelo

Adolpho, Bispo de Argel - Marmande, 1861

11. Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando aa vida como uma viagem que deve conduzi-lo a um destino certo, não se importa com as contrariedades do caminho, e não deixa que seus passos se desviem, nem por um instante, do objetivo a ser alcançado. Com o olhar fixo em sua meta, pouca importância dá aos obstáculos e espinhos que o ameaçam. Eles apenas o roçam sem ferir e não o impedem de avançar. Arriscar-se em duelo para se vingar de uma ofensa é recuar diante das provas da vida. Além do que, o duelo será sempre um crime aos olhos de Deus. Se não estivessem iludidos pelos preconceitos que possuem, este ato seria ridículo aos olhos da Humanidade.

O homicídio por duelo é crime e a própria legislação dos homens reconhece. Ninguém tem o direito, sob hipótese alguma, de tirar a vida de seu semelhante. Como já dissemos, o duelo é um crime aos olhos de Deus, pois para cada ser humano Ele traçou uma linha de conduta a ser seguida. Nesse caso, mais do que em qualquer outro, vocês são juízes em causa própria. Lembrem-se de que serão perdoados conforme perdoarem. O perdão aproxime as criaturas da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue humano correr na Terra pela mão do homem, o verdadeiro Reino de Deus ainda não terá chegado. Reino de paz e de amor que afastará para sempre do planeta o rancor, a discórdia e a guerra. Assim, a palavra duelo não existirá mais na linguagem humana. Ela será apenas uma vaga lembrança de um passado distante. Os homens só aceitarão disputar, entre si, competições voltadas à nobre prática do bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862

12. O duelo pode, em alguns casos, ser considerado como prova de coragem física e de desprezo pela vida, mas é, indiscutivelmente, uma prova de covardia moral, assim como o suicídio. O suicida não tem coragem para enfrentar as dificuldades da vida e o duelista não tem coragem para suportar as ofensas. O Cristo disse: "É preciso ter mais coragem para oferecer a face esquerda quando alguém nos bater na direita, do que para se vingar de uma ofensa". O Cristo também disse a Pedro, no Jardim das Oliveiras: "Coloca a sua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada, pela espada morrerá". Assim falando, Jesus condenou o duelo para sempre.

Meus filhos, que coragem é essa, nascida de um temperamento violento, homicida e colérico, que reage à primeira ofensa? Que grandeza pode possuir a alma daquele que, ao sofrer uma ofensa, quer lavá-la com sangue? Mas que ele trema! Porque sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: "Caim! Caim! O que você fez com seu irmão?". E ele responderá a essa voz: "Foi necessário derramar sangue para lavar minha honra". E a voz, então, lhe dirá: "Você quis salvá-la diante dos homens pelo pouco tempo de vida que ainda lhe restava na Terra e não pensou em salvá-la diante de Deus". Pobre tolo! Quanto sangue o Cristo precisará lhe pedir pelas ofensas que tem recebido de você! Além de feri-lo com os espinhos e a lança, ainda O pregou na cruz infame, fazendo com que Ele escutasse as zombarias que Lhe foram dirigidas. Após tantas ofensas, que reparação Ele lhe pediu? O último grito do Cordeiro foi uma prece para Seus carrascos. Tal como Ele, perdoem e rezem por aqueles que insistem em ofendê-los.

Amigos, lembrem-se desse princípio: "Amem-se uns aos outros", e ao golpe desferido pelo ódio, respondam com um sorriso, e à ofensa, com o perdão. Sem dúvida, o mundo se voltará furioso contra vocês, pois serão chamados de covardes; elevem a cabeça bem alto e mostrem que sua fronte também não tem medo de ser coroado com espinhos, a exemplo de Cristo. Que a mão de vocês nunca sirva para ser cúmplice de um homicídio que tem a falsa aparência de honra, e que na verdade não passa de uma manifestação de orgulho e amor-próprio. Ao criar o homem, Deus não deu a ele o direito de decidir sobre a vida ou a morte de seu semelhante. ele só deu esse direito à Natureza, para que ela possa se reformar e se reconstruir. Quanto a vocês, nem sobre o próprio corpo possuem total domínio. Assim como o suicida, o duelista também estará manchado de sangue quando comparecer perante Deus, e tanto para um quanto para o outro, a Justiça Divina reserva longos e dolorosos anos de sofrimento. Se Deus, através de Jesus, ameaçou com a Sua Justiça aquele que dissesse Racca a seu irmão, que pena severa não estará reservada para aquele que se apresentar diante Dele com as mãos sujas do sangue do seu irmão!

Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861

13. O duelo, que antigamente era chamado de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda têm vestígios na sociedade. O que diriam se vissem dois adversários mergulhados em água fervente ou em contato com um ferro em brasa, para resolverem suas questões e dar ganho de causa para aquele que melhor suportasse a prova? Diriam tratar-se de costumes insensatos. Pois o duelo é ainda pior que tudo isso. O duelista habilidoso comete um assassinato a sangue-frio, pois, com toda ação planejada antecipadamente, está seguro do golpe que desferirá. Para o adversário, quase certo de que vai morrer na luta, em razão de sua fraqueza e inabilidade, é um suicídio cometido com a mais fria reflexão. Muitas vezes, procuramos evitar o duelo usando a alternativa, igualmente criminosa, que elege o acaso como juiz. Mas isso é o mesmo que voltar ao que chamávamos de julgamento de Deus, na Idade Média. Porém, naquela época, éramos infinitamente menos culpados, pois até mesmo a denominação julgamento de Deus indicava uma fé ingênua na justiça divina, que não deixaria morrer um inocente. No duelo, tudo é resolvido pela força bruta, onde o ofendido é quem geralmente morre.

Estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho! Quando iremos trocar tudo isso pela caridade cristã, pelo amor ao próximo e pela humildade que Cristo tanto ensinou e deu o exemplo? Somente quando isso acontecer é que irão desaparecer da Terra esses costumes monstruosos que ainda governam os homens e que as Leis são impotentes para reprimir. Não basta impedir o mal e querer o bem. É preciso que o sentimento do bem e do horror ao mal estejam gravados no coração do homem.

Francisco Xavier - Bordeaux, 1861

14. Que juízo farão de mim, se eu me recusar a tirar satisfação daquele que me ofendeu? Os loucos e os homens atrasados, como vocês, irão me censurar. Porém, aqueles que são esclarecidos, intelectual e moralmente, dirão que eu agi com muita sabedoria. Reflita um pouco: por uma palavra inofensiva, muitas vezes, dita sem querer, seu orgulho fica machucado e, ao responder de maneira agressiva, acontece a provocação. Antes que chegue o momento de tomar uma atitude decisiva, pergunte a si mesmo: "Será que agi como cristão? Se você eliminar da sociedade um de seus membros, como explicará isso? Como alguém poderá não sentir remorso em tirar de uma mulher, o seu marido, de uma mãe, o seu filho, das crianças, o seu pai e com ele, o sustento delas?".

Certamente, aquele que ofendeu deve uma satisfação. Não seria muito mais honroso para ele reparar a ofensa espontaneamente, reconhecendo seu erro? Por que, então, arriscar a vida daquele que tem o direito de se queixar, convidando-o para um duelo? Concordo que, algumas vezes, o ofendido pode sentir-se seriamente atingido, seja em seu amor-próprio, seja em relação aos que lhe são caros. Não é somente o amor-próprio que está em jogo, o coração também está ferido e sofrendo muito. Ainda assim, é uma estupidez arriscar a vida contra um miserável capaz de praticar infâmias. Mesmo que ele venha a morrer, por acaso a afronta deixará de existir? O sangue derramado chamará ainda mais atenção sobre o fato, pois, se ele for falso, cairá por si mesmo no esquecimento, e se for verdadeiro, melhor seria que ele ficasse no silêncio. Nesse caso, só restaria a satisfação da vingança executada, nada mais. Triste satisfação, que já nesta vida deixa insuportáveis remorsos! E se o ofendido morrer, onde ficará a reparação da ofensa?

Quando a caridade for a regra de conduta entre homens, eles deverão ajustar seus atos e palavras ao ensinamento de Jesus: "Não façam aos outros o que não gostariam que os outros fizessem a vocês". Quando isso acontecer, desaparecerão todas as causas de desavenças, e, com elas os duelos e também as guerras, que são duelos entre povos!

Agostinho - Bordeaux, 1861

15. O homem que, por uma palavra ofensiva, um motivo fútil, arrisca sua vida e a de seu semelhante em um duelo, é cem vezes mais culpado que o miserável que, levado pela cobiça e às vezes pela necessidade, entra em uma casa para roubar e mata aqueles que tentam impedi-lo. Esse infeliz é, quase sempre, uma criatura sem educação, com imperfeitas noções do bem e do mal, enquanto o duelista pertence, geralmente, às classes mais esclarecidas. O infeliz mata brutalmente, o duelista mata com método e cortesia, o que faz a sociedade desculpá-lo. Acrescento, ainda, que o duelista é infinitamente mais culpado que o infeliz que, levado por um sentimento de vingança, mata num momento de desespero. O duelista não tem como desculpa o sentimento da violenta emoção, pois entre o insulto e a reparação existe sempre um tempo para refletir. Ele age planejada e friamente, tudo é estudado e calculado para matar com mais segurança seu adversário. É verdade que ele também arrisca sua vida, e é isso que justifica o duelo aos olhos do mundo, pois consideram um ato de coragem e desapego pela própria vida. Mas será que existe realmente coragem quando se está seguro de si? O duelo data dos tempos selvagens, quando o direito do mais forte fazia a Lei. Ele desaparecerá com uma análise mais criteriosa e justa do que significa realmente o verdadeiro ponto de honra, e à  medida que o homem depositar uma fé mais viva na vida futura.

16. Nota: os duelos tornaram-se cada vez mais raros e se, de vez em quando, ainda vemos alguns dolorosos exemplos, seu número não é mais comparável ao que foi no passado. Antigamente, um homem não saía de casa sem prever um confronto e, por isso, tomava sempre as precauções necessárias. Usar armas, de forma visível ou não, era um sinal característico da cultura daqueles tempos. A abolição desse uso já revela o abrandamento dos costumes. É interessante acompanhar-se as modificações ao longo do tempo. Antigamente, os cavaleiros só cavalgavam com armaduras de ferro e armados de lança. A espada, que a princípio era uma arma, mais tarde tornou-se apenas um enfeite, um acessório de nobreza. Outra característica do abrandamento dos costumes é que, naqueles tempos, os combates pessoais aconteciam em plena rua, diante da multidão que se afastava para deixar o campo livre. Hoje, os combatentes procuram se esconder. Atualmente, a morte de um homem é um acontecimento que provoca comoção, enquanto que esses últimos vestígios de selvageria, despertando na mente dos homens o espírito de caridade e de fraternidade.

Comentário

12. Racca - Entre os hebreus, a palavra Racca significava homem de má conduta, e se pronunciava cuspindo no chão e virando o rosto para o lado. 


 


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O Duelo - Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861




13 - O duelo, que antigamente era chamado de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda têm vestígios na sociedade. O que diriam se vissem dois adversários mergulhados em água fervente ou em contato com um ferro em brasa, para resolverem suas questões e dar ganho de causa para aquele que melhor suportasse a prova? Diriam tratar-se de costumes insensatos. Pois o duelo é ainda pior que tudo isso. O duelista habilidoso comete um assassinato a sangue-frio, pois, com toda ação planejada antecipadamente, está seguro do golpe que desferirá. Para o adversário, quase certo de que vai morrer na luta, em razão de sua fraqueza e inabilidade, é um suicídio cometido com a mais fria reflexão. Muitas vezes, procuramos evitar o duelo usando a alternativa, igualmente criminosa, que elege o acaso como juiz. Mas isso é o mesmo que voltar ao que chamávamos de julgamento de Deus, na Idade Média. Porém, naquela época, éramos infinitamente menos culpados, pois até mesmo a denominação julgamento de Deus indicava uma fé ingênua na justiça divina, que não deixaria morrer um inocente. No duelo, tudo é resolvido pela força bruta, onde o ofendido é quem geralmente morre.

Estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho! Quando iremos trocar tudo isso pela caridade cristã, pelo amor ao próximo e pela humildade que Cristo tanto ensinou e deu o exemplo? Somente quando isso acontecer é que irão desaparecer da Terra esses costumes monstruosos que ainda governam os homens e que as Leis são impotentes para reprimir. Não basta impedir o mal e querer o bem. É preciso que o sentimento do bem e do horror ao mal estejam gravados no coração do homem.

O Evangelho Segundo o Espiritismo | Allan Kardec | Por Claudio Damasceno Ferreira Junior Capítulo 12 | Página 155 | Amem os seus Inimigos