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sexta-feira, 27 de maio de 2022

Fora Da Caridade Não Há Salvação

  CAPÍTULO XV


Fora Da Caridade Não Há Salvação

• O Que É Preciso Para Ser Salvo - Parábola Do Bom Samaritano
•  O Mandamento Maior 
• Necessidade Da Caridade Segundo O Apóstolo Paulo
• Fora Da Igreja Não Há Salvação 
• Fora da Verdade Não Há Salvação


Instruções Dos Espíritos:
• Fora Da Caridade Não Há Salvação


O Que É Preciso Para Ser Salvo - Parábola Do Bom Samaritano

1. Quando Jesus vier acompanhado de todos os anjos, irá sentar-se no trono de Sua glória. E quando todas as nações estiverem reunidas Ele irá separar os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Ele colocará as ovelhas a Sua direita e os cabritos a Sua esquerda.

Então, Jesus dirá para aqueles que estiverem a Sua direita: "Venham, abençoados de Meu Pai, tomem posse do Reino que foi preparado para vocês desde o início do mundo. Porque Eu tive fome e Me deram de comer, tive sede e Me deram de beber, tive necessidade de abrigo e Me abrigaram, estive nu e Me vestiram, estive doente e foram Me visitar, estive na prisão e foram Me ver.".

Os justos, então, vão perguntar a Jesus: "Senhor, quando foi que O vimos com fome, com sede, sem abrigo, sem roupas, doente ou na prisão e Lhe oferecemos assistência?". E Jesus responderá: "Em verdade, Eu digo a vocês que todas as vezes que fizeram isso a um desses pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizeram."

Ele dirá, em seguida, aos que estiverem a Sua esquerda: "Malditos, afastem-se para longe de Mim; vão para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e todos os seus seguidores. Pois tive fome e não Me deram de comer, tive sede e não Me deram de beber, tive necessidade de abrigo e não Me abrigaram, estive nu e não Me vestiram, estive doente e na prisão e não foram Me visitar."

Então, eles também vão perguntar a Jesus: "Senhor, quando foi que O vimos com fome, com sede, sem abrigo, sem roupas, doente, ou na prisão e não Lhe oferecemos assistência?". E Jesus Lhes responderá: "Em verdade, Eu digo a vocês que todas as vezes que deixaram de dar assistência a um desses pequeninos, foi a Mim mesmo que deixaram de assistir. Vocês irão para o castigo eterno e os justos para a vida eterna" (Mateus, 25:31 a 46).

2. Eis que um doutor da Lei levantou-se e disse, para tentá-lo: "Mestre, o que devo fazer para receber como herança a vida eterna?". E Jesus respondeu: "O que é que está escrito na Lei? Como você consegue interpretá-la?". E ele respondeu: "Devo amar o Senhor meu Deus, de todo meu coração, com toda minha força, e com tod meu entendimento, e o meu próximo como a mim mesmo.". E Jesus disse: "Respondeu muito vem, faça isso e você viverá". Mas o doutor da Lei, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo?". E Jesus, tomando a palavra disse:

"Um homem, que descia de Jerusalém a Jericó, foi assaltado por ladrões que o despojaram de tudo e ainda cobriram-no de feridas, deixando-o quase morto. Um sacerdote, que descia pelo mesmo caminho, quando viu o homem, tratou de passar bem longe. Um levita, que vinha mais atrás, ao ver o homem caído, também passou longe. Mas um samaritano, ao passar por onde o homem estava caído, foi tomado de compaixão. Aproximou-se dele, passou azeite e vinho em suas feridas e depois as enfaixou. Colocou o homem sobre seu cavalo, levou-o a uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas de prata e deu ao hospedeiro dizendo: "Cuide bem desse homem, e tudo o que você gastar a mais, eu lhe pagarei quando retornar.". Qual dos três, a seu ver, parece ter sido o próximo daquele que foi assaltado? E o doutor da Lhe respondeu: 'Aquele que teve misericórdia para com ele.' 'Vá, disse Jesus, 'e faça o mesmo' (Lucas, 10:25 a 37).

3. Toda moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, ou seja, nas duas virtudes contrárias ao orgulho e ao egoísmo. Em todos os ensinamentos, Ele aponta essas duas virtudes, caridade e humildade, como sendo o caminho para a felicidade eterna. Jesus disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito, ou seja, os humildes, porque é deles o Reino dos Céus, bem-aventurados os que têm puro o coração, bem-aventurados os que são mansos e pacíficos, bem-aventurados os que são misericordiosos. Amem o próximo como a vocês mesmos, façam aos outros o que gostariam que os outros fizessem por vocês, respeitem os inimigos, perdoem as ofensas se quiserem ser perdoados, façam o bem sem ostentação, julguem-se a si mesmos antes de julgarem os outros.".

Humildade e caridade, eis o que Jesus não cansa de recomendar e dar o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que Ele não cansa de combater. Jesus faz mais do que recomendar a caridade; Ele coloca, de maneira bem clara, que a caridade é a única condição para se alcançar a felicidade.

No quadro em que Jesus nos apresenta o Juízo Final é necessário separar o que é apenas linguagem figurada. Ele falava a homens incapazes de compreender as questões puramente Espirituais, por isso, devia apresentar imagens materiais surpreendentes e capazes de impressioná-los. Para que essas imagens fossem aceitas, quanto à forma como eram apresentadas, elas não podiam se afastar muito das ideias da época. Jesus reservou para o futuro a verdadeira interpretação de Suas palavras e dos pontos sobre os quais não podia explicar claramente. Entretanto, ao lado da linguagem figurada do quadro que fez sobre o Juízo Final, existe uma ideia dominante: a da felicidade reservada ao justo e a da infelicidade reservada ao mau.

Nesse julgamento Divino, o que realmente está sendo levado em consideração? O juiz não procura saber se a pessoa preencheu esta ou aquela formalidade, se observou as práticas exteriores, se frequentou essa ou aquela religião. Pergunta apenas se a caridade foi praticada e se pronuncia dizendo: "Passem à direita, vocês que deram assistência a seus irmãos, e passem à esquerda, vocês que foram duros para com eles.". O juiz não pergunta sobre a fidelidade aos princípios da fé. Não faz distinção entre os que creem de um modo e os que creem de outro. Jesus coloca o samaritano, contrário aos dogmas da religião, mas que possui amor ao próximo, acima do sacerdote fiel aos princípios da fé, mas que falta com a caridade. Ele não coloca a caridade apenas como uma das condições para a salvação, e sim como a condição única. Se houvesse outras a serem consideradas, Ele as teria mencionado. Se Jesus coloca a caridade como a primeira das virtudes, é porque ela contém, implicitamente, todas as outras, a humildade, a mansidão, a bondade, a indulgência, a justiça, etc, e, também, porque a caridade é totalmente oposta ao orgulho e ao egoísmo.

O Mandamento Maior

4. Os fariseus, quando viram que Jesus tinha feito os saduceus se calarem, reuniram-se em conselho e um deles, que era doutor da Lei, fez a seguinte pergunta para tentá-Lo: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?". E Jesus respondeu: "Você deve amar o Senhor seu Deus de todo o seu coração, com toda sua força e de todo seu entendimento. Esse é o primeiro e o maior mandamento. E eis o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro: Você deve amar o seu próximo como a si mesmo". Toda Lei e os Profetas estão contidos nesses dois mandamentos (Mateus, 22:34 a 40).

5. Caridade e humildade, eis o único caminho para a salvação; egoísmo e orgulho, eis o caminho da perdição. Esse ensinamento está resumido nessas palavras: Você deve amar a Deus com toda sua força e a seu próximo como a si mesmo. Toda Lei e os Profetas estão contidos nesses dois mandamentos.

Para que não houvesse dúvidas na interpretação do amor a Deus e ao próximo, Jesus acrescentou: "Eis o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro", isto é: não se pode amar verdadeiramente a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Assim, tudo o que se faz contra o próximo se faz contra Deus. Não podemos amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo. Todos os deveres do homem se encontram resumidos nesse ensinamento moral: "Fora da caridade não há salvação".

Necessidade Da Caridade Segundo O Apóstolo Paulo

6. Ainda que eu falasse todas as línguas dos homens e até mesmo a língua dos anjos, se não tiver caridade, sou apenas um metal que produz som e um sino que toca. Ainda que eu tivesse o dom de profetizar e conhecer todos os mistérios, e tivesse um perfeito conhecimento de todas as coisas, e ainda que tivesse toda fé possível, capaz de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada serei. E se tivesse distribuído meus bens para alimentar os pobres, e entregado meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, tudo isso de nada me serviria.

A caridade é paciente, é doce e benigna, não é invejosa, não é afoita, nem precipitada. Não se enche de orgulho, não despreza ninguém, não procura seus próprios interesses, não se vangloria, nem se irrita com nada. A caridade também não faz julgamentos precipitados, não se alegra com a injustiça, e sim com a verdade. Ela tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo sofre.

Entre essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a maior delas é a caridade (Paulo, 1ª Carta aos Coríntios, 13:1 a 7,13).

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Que A Sua Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz A Sua Mão Direita

CAPÍTULO XIII

Que A Sua Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz A Sua Mão Direita

• Fazer O Bem Sem Ostentação
•  Os Infortúnios Ocultos
• O Óbolo Da Viúva
• Convidar Os Pobres E Os Estropiados - Ajudar
Sem Esperar Recompensa
 

Instruções Dos Espíritos:
• A Caridade Material E A Caridade Moral
 • A Beneficência • A Piedade • Os Órfãos
• Benefícios Pagos Com Ingratidão • Beneficência Exclusiva

Fazer O Bem Sem Ostentação

1. Tomem cuidados para não fazerem suas boas obras diante dos homens, para que elas não sejam vistas por eles, porque assim não serão recompensados por Deus. Quando derem uma esmola, não façam alarde, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens. Em verdade, Eu digo a vocês que eles já receberam sua recompensa. Quando derem uma esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita, a fim de que a esmola fique em segredo e Deus, que vê o que se passa em segredo, os recompensará (Mateus, 6:1 a 4).

2. Uma grande multidão seguia Jesus quando Ele descia da montanha. Nesse momento, um leproso veio ao Seu encontro e, respeitosamente, Lhe disse: "Senhor, se quiser, poderá me curar.". Jesus, estendendo a mão, tocou-o e disse: "Assim Eu quero, fica curado!". E, no mesmo instante, a lepra foi curada. Depois, Jesus lhe disse: "Procura não flar sobre esse assunto a quem quer que seja, mas vai mostrar sua cura aos sacerdotes, a fim de que ela sirva de testemunho a eles. Depois disso, você poderá fazer sua oferenda, conforme prescreveu Moisés." (Mateus, 8:1 a 4).

3. Fazer o bem sem ostentação é um grande mérito. Ocultar a mão que dá é ainda mais louvável. É sinal incontestável de uma grande superioridade moral. Para compreender as coisas mais elevadas, acima do conhecimento comum do povo, é preciso elevar-se acima da vida presente. É preciso colocar-se acima da Humanidade para renunciar à satisfação que o aplauso dos homens proporciona, e preocupar-se somente com a aprovação de Deus. Aquele que prefere ser aprovados pelos homens, em vez de ser aprovado por Deus, demonstra possuir mais fé nos homens do que em Deus. Para ele, a vida presente é mais importante do que a vida futura, ou, melhor, ele não acredita na vida futura. Se disser o contrário, age como se não acreditasse no que diz.

Quantas pessoas ajudam apenas na esperança de que essa ajuda tenha grande repercussão. Que, em público, dariam grandes somas em dinheiro, e que, sozinhas, não dariam sequer uma moeda! Foi por isso que Jesus disse: "Aqueles que fazem o bem com ostentação, já receberam sua recompensa.". Aquele que procura sua glorificação na Terra pelo bem que fez, já pagou a si mesmo; Deus nada mais lhe deve; resta-lhe apenas receber a punição pelo seu orgulho.

"Que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita" é um ensinamento que caracteriza, admiravelmente, a caridade praticada com modéstia. Entretanto, se existe a verdadeira caridade, também existe a falsa, isto é, aquela modéstia que fica só na aparência. Existem pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar aparecer uma parte de sua ação, na esperança de que alguém observe o que estão fazendo. Ato ridículo em relação aos ensinamentos do Cristo. Se os benfeitores orgulhosos já são desconsiderados entre os homens, imaginem o quanto não serão diante de Deus. Eles também já receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos e ficaram satisfeitos por terem sido vistos. É tudo o que terão.

Qual será a recompensa daquele que faz com que o seu irmão sinta o peso do benefício recebido? que lhe exige demonstrações de reconhecimento? Que faz com que ele sinta sua posição inferior ao ressaltar os sacrifícios que precisou passar para beneficiá-lo? Oh! Para esse, nem mesmo a recompensa terrena existe, pois é privado da satisfação de ouvir outras pessoas falando bem de seu nome. Esse é o primeiro castigo para seu orgulho. As lágrimas que ele seca ao beneficiar os outros servem apenas para satisfazer sua vaidade e, em vez de subirem ao Céu, recaem sobre o coração do beneficiado, ferindo-o ainda mais. O bem que realizou não lhe traz nenhum proveito, pois ele lamenta ter feito esse bem, e todo bem que é lamentado não possui valor algum.

Fazer o bem sem ostentação tem um duplo mérito, pois além, de ser caridade material é também caridade moral. Quem age dessa maneira, respeita os sentimentos do beneficiado. Faz com que ele aceite o benefício, sem ferir seu amor-próprio, resguardando, assim, sua dignidade humana. Existem pessoas que aceitam um serviço mas recusam uma esmola. Converter um serviço em esmola, pela maneira como ele é realizado, é humilhar aquele que o recebe, e sempre existirá orgulho e maldade em humilhar alguém. A verdadeira caridade, ao contrário, é habilidosa e disfarça, de modo sutil, o benefício, evitando, assim, a menor possibilidade de melindre, uma vez que toda ofensa moral aumenta ainda mais o sofrimento do necessitado. Ela também sabe encontrar palavras doces e afáveis que deixam o beneficiado à vontade diante do benfeitor, enquanto que a caridade orgulhosa o humilha. A verdadeira generosidade encontra seu ponto mais sublime quando o benfeitor, invertendo os papéis, encontra um meio de parecer ser ele próprio o beneficiado perante aquele a quem está ajudando. É isso o que significam essas palavras de Jesus: "Que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita.".

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Amem Os Seus Inimigos


CAPÍTULO XII

Amem Os Seus Inimigos

• Pagar O Mal Com O Bem
•  Os Inimigos Desencarnados
• Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, Apresenta-lhe, Também, A Outra


Instruções Dos Espíritos:
• A Vingança • O Ódio • O Duelo

Pagar O Mal Com O Bem

1. Jesus disse para aqueles que O escutavam: "Aprenderam o que foi dito: Amem o próximo e odeiem os inimigos. Porém, Eu digo a vocês: Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, orem por aqueles que os perseguem e caluniam, para que sejam filhos do Meu Pai, que está nos Céus, que faz nascer o sol sobre os bons e os maus e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas os que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E, se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que estarão fazendo mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Porém, Eu digo a vocês que, se não aplicarem uma justiça maior e mais perfeita que a dos escribas e fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus" (Mateus, 5:5 a 20, 43 a 47).


2. "Se saudarem apenas os parentes e amigos, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não fazem o mesmo? E se fizerem o bem apenas para aqueles que fazem o bem a vocês que recompensa terão? E se emprestarem somente para aqueles que podem lhes retribuir, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não se ajudam umas às outras para receberem a mesma vantagem?"

"Quanto a vocês, amem os inimigos, façam o bem a todos, emprestem sem nada esperar em troca, e suas recompensas serão bem maiores. Serão os filhos do Altíssimo. Pois Ele é bom para os ingratos e também para os maus. Sejam, pois, misericordiosos, assim como seu Pai o é" (Lucas, 6:32 a 36).

3. Se a caridade tem como princípio amar o próximo, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio. A virtude de amar os inimigos é uma das maiores vitórias alcançadas sobre o egoísmo e o orgulho.

A palavra amar, utilizada por Jesus neste ensinamento, pode causar algum equívoco quanto a sua interpretação, pois Ele não quis dizer que devemos ter pelo inimigo a mesma ternura que temos por um amigo. A ternura requer confiança e não podemos depositar confiança em uma pessoa sabendo que ela nos quer mal. Não podemos ter por ela a mesma demonstração de amizade, sabendo que ela pode abusar dessa amizade. Entre pessoas que desconfiam umas das outras, não pode haver a mesma simpatia que existe entre aqueles que possuem as mesmas ideias. Quando encontramos um inimigo, não podemos sentir por ele a mesma alegria que sentimos quando encontramos um amigo.

Esse sentimento de amor e aversão resulta de uma das Leis da Física: A Lei da Assimilação e da Repulsão dos Fluidos. A corrente fluídica emitida pelo mau pensamento traz consigo uma influência muito ruim; já o bom pensamento nos envolve agradavelmente. Por isso a diferença das sensações que experimentamos quando nos aproximamos de um amigo ou de um inimigo. Portanto, amar os inimigos não pode significar que não se deva fazer nenhuma distinção entre amigos e inimigos. Este ensinamento nos parece difícil e até mesmo impossível de ser praticado, porque entendemos, erradamente, que ele manda dar aos amigos e aos inimigos o mesmo lugar no coração. Devido à pobreza das línguas humanas, somos obrigados a usar a palavra AMAR para expressar diversas formas de sentimentos. Assim, precisamos completar seu significado, explicando que amar os inimigos é ter para com eles um sentimento desprovido de animosidade.

Amar os inimigos não é ter para com eles uma afeição forçada, que não seja natural, já que o encontro com um inimigo faz bater nosso coração de uma maneira diferente da que quando encontramos um amigo. Amar os inimigos, segundo esse ensinamento de Jesus, é não ter contra eles nem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança. É perdoar o mal que eles nos fazem, sem impor condições e sem ter segundas intenções. É não colocar nenhum obstáculo à reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É alegrar-se pelo bem que lhes aconteça, em vez de ficarmos tristes. É socorrê-los em caso de necessidade. É não usar palavras nem cometer atos que possam prejudicá-los. É, enfim, pagar-lhes todo o mal com o bem, sem intenção de humilhá-los. Quem fizer isso, estará seguindo o mandamento: "Amem os seus inimigos".

4. O ensinamento amar os inimigos é um absurdo para o incrédulo. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê em seu inimigo um ser nocivo e perturbador de sua tranquilidade. Pensa que somente a morte poderá livrá-lo de sua presença, surgindo, assim, o desejo de vingança. O incrédulo não possui nenhum interesse em perdoar, a menos que seja para satisfazer seu orgulho aos olhos do mundo. O próprio ato de perdoar, em certos casos, parece mesmo uma fraqueza, indigna de sua personalidade. Se não consegue se vingar, nem por isso deixará de guardar rancor e um desejo secreto de lhe fazer o mal.

Para aquele que crê, e especialmente para o Espírita, a maneira de ver as coisas é completamente diferente. Ao observar os fatos olhando para o passado e também para o futuro, ele percebe que a vida presente não passa de um momento. O Espírita também sabe que, pela própria destinação da Terra, é natural encontrar, nela, homens maus e perversos. Sabe que a maldade da qual é vítima faz parte das provas que precisa suportar. O esclarecimento maior que possui faz com que ele veja os problemas da vida de maneiro menos amarga, venham eles dos homens ou das coisas. Se o Espírito não reclama das provas, não deve reclamar também dos que servem de instrumento para que essas provas se cumpram. Em vez de se lamentar, deve agradecer a Deus por querer experimentá-lo. Deve agradecer também àquele que lhe oferece a oportunidade de testar sua paciência e sua resignação. Esse pensamento leva o Espírita, naturalmente, ao perdão. Ele sente que, quanto mais generoso for, mais se engrandece aos seus próprios olhos, ficando, desse modo, fora do alcance do ódio de seu inimigo.

O homem que ocupa no mundo uma posição de destaque não se ofende com os insultos de seus inferiores. O mesmo ocorre com aquele que se eleva, moralmente, acima da Humanidade material. Ele compreende que o ódio e o rancor o fariam sentir-se desprezível e o rebaixariam. Para ser superior ao seu adversário, é preciso possuir uma alma maior, mais nobre e mais generosa.


Os Inimigos Desencarnados

5. O Espírita tem, ainda, outros motivos para perdoar seus inimigos. Ele sabe que a maldade não é o estado permanente dos homens, mas que ela é fruto de uma imperfeição temporária. Assim como a criança se corrige de seus defeitos, o homem mau, um dia, reconhecerá seus erros e se tornará bom.

O Espírita também sabe que a morte apenas o deixa livre da presença material de seu inimigo, e que esse pode persegui-lo com seu ódio, mesmo após ter deixado a Terra. Sabe que qualquer vingança que fizer não atingirá seu objetivo, pelo contrário, vai trazer um desgaste ainda maior, que muitas vezes passa de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo demonstrar, pela experiência e pelas Leis, que regem as relações do Mundo Visível com o Mundo Invisível, que a expressão: "Extingue o ódio com sangue" é completamente falsa, pois o sangue realimenta o ódio, mesmo após a pessoa ter desencarnado. Desse modo, o Espiritismo apresenta uma utilidade prática para o ato de perdoar e para o sublime ensinamento do Cristo: "Amem os seus inimigos". Não existe coração tão perverso que não se deixe tocar pelas boas ações, mesmo a contragosto. Pelo bom proceder, elimina-se todo e qualquer motivo para vinganças. Assim, de um inimigo pode-se fazer um amigo, antes e depois de sua morte. Pelo mau proceder, o homem irrita seu inimigo, fazendo com que ele próprio sirva de instrumento para que se cumpra a Justiça de Deus, que sempre pune aquele que não perdoa.

6. Podemos, assim, ter inimigos entre os encarnados e os desencarnados. Os inimigos desencarnados manifestam sua maldade através das obsessões e subjugações, às quais tantas pessoas estão expostas. Essas obsessões são provações que o homem enfrenta durante a vida e que contribuem para o seu adiantamento na Terra. Por isso, elas devem ser aceitas com resignação e como consequência da natureza inferior dos Espíritos que vivem no nosso globo terrestre. Se não existissem homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu redor. Se devemos perdoar e ter misericórdia para com os inimigos encarnados, devemos ter, também, para com os inimigos desencarnados.

Antigamente, eram sacrificados animais e até pessoas para apaziguar a fúria dos deuses infernais. Mais tarde, esses deuses foram substituídos pelos demônios. O Espiritismo ensina que esses demônios não passam de Espíritos maus, que deixam a Terra e ainda continuam presos aos instintos materiais. Esses Espíritos somente poderão ser pacificados por meio da caridade e do amor que a eles for destinado. A caridade, além de impedir que eles pratiquem o mal, também os conduz ao caminho do bem, contribuindo, assim, para seu esclarecimento e elevação moral. É desse modo que o ensinamento de Jesus: "Amem os seus inimigos" não fica limitado ao planeta Terra e à vida presente, mas inclui, também, a grande Lei da Solidariedade e Fraternidade Universais.


Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, 

Apresenta-lhe Também A Outra


7. Jesus disse: "Aprenderam o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Porém, Eu digo para que não resistam ao mal que lhe queiram fazer. Se alguém bater na sua face direito, apresenta-lhe, também, a outra. E se alguém tentar tirar sua túnica, entregue-lhe, também, o seu manto. E se alguém lhe obrigar a andar mil passos, anda com ele mais dois mil. Procura dar para aquele que lhe pede, e não rejeita nunca aquele que lhe pedir emprestado" (Mateus, 5:38 a 42).

8. Os preconceitos do mundo sobre o que se convencionou chamar de "questão de honra" provocam esses melindres, nascidos do orgulho e da exaltação da personalidade que leva o homem a pagar injúria por injúria, ofensa por ofensa. Esse procedimento parece estar muito certo para aquele cujo senso moral não consegue se elevar acima das paixões terrenas. Essa é a razão por que a Lei de Moisés dizia: "Olho por olho, dente por dente", Lei que estava em harmonia com a época que Moisés vivia. Quando o Cristo veio, disse: "Paguem o mal com o bem". E disse mais: "Não resistam ao mal que lhe queiram fazer; se alguém lhe bater numa face, apresenta-lhe, também, a outra". Ao orgulhoso, esse ensinamento parece uma covardia, pois ele não compreende que é preciso ter mmais coragem para suportar um insulto do que para se vingar. Isso porque sua noção do que significa a vida não ultrapassa o momento presente.

Devemos levar ao pé da letra este ensinamento de Jesus? Não, da mesma maneira que não devemos levar aquele que manda arrancar o olho, se este for motivo de escândalo. Se o ensinamento fosse seguido literalmente, a consequência seria a condenação de toda a repressão, deixando o campo livre aos maus, que nada teriam a temer. Se não colocarmos um freio em suas agressões, logo todos os homens de bem seriam suas vítimas. O próprio instinto de conservação, que é uma Lei da Natureza, diz que não se deve desistir da vida sem luta. Por esse ensinamento: "oferecer a outra face", Jesus não quis proibir a defesa, e sim condenar a vingança. Quando disse para oferecer a outra face, quando uma for batida, quis dizer, em outras palavras, que não é preciso pagar o mal com o mal, pois o homem deve aceitar com humildade tudo o que faz rebaixar seu orgulho. Que é mais glorioso ser ferido do que ferir, suportar pacientemente uma injustiça do que arruinar os outros. Ao falar assim, Jesus condena o duelo, que nada mais é do que uma manifestação do orgulho. Somente a fé na vida futura e na Justiça de Deus, que nunca deixa o mal impune, pode nos dar força para suportarmos pacientemente os golpes desferidos contra os nossos interesses e contra o nosso amor-próprio. Eis por que dizemos sempre: "Olhem para frente, quanto mais se elevarem pelo pensamento acima da vida material, menos serão atingidos pelas coisas da Terra".


Instruções dos Espíritos

A Vingança

Jules Olivier - Paris, 1862


9. A vingança e o duelo são vestígios da barbárie, que tendem a desaparecer entre os homens. São costumes selvagens que fazem a Humanidade sofrer. A vingança é um sinal da inferioridade dos homens que a ela recorrem e dos Espíritos que se juntam a eles para inspirá-la. Portanto, meus amigos, esse sentimento não deve, jamais, fazer parte do coração daquele que se diga Espírita. Vingar-se é totalmente contrário ao ensinamento do Cristo que diz: "Perdoem os seus inimigos", e aquele que se recusa a perdoar, não é espírita e também não é cristão.

A vingança é um sentimento tão nocivo quanto a falsidade e a baixeza, que são suas companheiras constantes, porque todo aquele que se vinga, quase nunca o faz a céu aberto. Quando é mais forte, ataca ferozmente aquele a quem considera seu inimigo, bastando, para isso, a simples presença do desafeto para que cresça nele a cólera, a paixão e ódio. Na maioria das vezes, ele toma uma aparência fingida, disfarçando, no fundo do coração, seus maus sentimentos. Seguindo caminhos escusos, persegue, na sombra, seu inimigo, sem que ele de nada desconfie. Espera o momento mais favorável para executar sua vingança, evitando correr algum risco. Escondendo-se, vigia o inimigo sem cessar, preparando-lhe armadilhas odiosas, e, quando surge a ocasião, derrama-lhe no copo o veneno mortal.

Quando seu ódio não chega a tais extremos, ele ataca o inimigo em sua honra e em suas afeições. Faz uso da calúnia e das falsas insinuações, que, habilmente semeadas aos quatro ventos, vão crescendo por onde passam. Dessa forma, quando o perseguido se apresenta nos lugares onde a calúnia e as falsas insinuações já passaram, se admira ao encontrar rostos frios onde encontrava, antigamente, rostos amigos e bondosos. Fica surpreso quando as mãos que se estendiam para ele agora se recusam a cumprimentá-lo. Enfim, fica arrasado quando seus melhores amigos e parentes se desviam e fogem dele. O covarde que se vinga dessa maneira é cem vezes mais culpado do que aquele que enfrenta seu inimigo e o insulta pela frente.

Parem, portanto, com esses costumes selvagens! Parem com esses costumes de outros tempos! Todo espírita que se achar no direito de se vingar, não será digno de figurar por mais tempo entre aqueles que tomaram por lema: "Fora da caridade não há salvação!". Recuso-me a aceitar a simples ideia de que um membro da grande família espírita possa ceder ao impulso da vingança em vez de perdoar.


O Ódio

Fénelon - Bordeaux, 1861

10. Amem-se uns aos outros e serão felizes. Procurem amar, principalmente, aqueles que inspiram em vocês a indiferença, o ódio e o desprezo. Cristo, que deve ser o modelo de todos, deu o exemplo desse devotamento. Missionário do amor, Ele amou a ponto de dar Seu sangue e Sua própria vida. O sacrifício de amar aqueles que nos ofendem e nos perseguem é difícil, mas é isso que nos tornará superiores a eles. Se os odiarmos como eles nos odeiam, não valeremos mais do que eles. Amar os inimigos é o presente que devemos oferecer a Deus, pois esse gesto chegará até Ele como um perfume de agradável aroma. 

A Lei do Amor, que manda amar indistintamente a todos, não nos livra o coração do convívio e da ação dos maus. Amar a todos é uma das provas mais difíceis, eu bem sei, pois, durante a minha última existência terrena, passei por essa tortura. Os que violam a Lei do Amor serão punidos por Deus, nessa vida ou na outra. Não esqueçam, meus queridos filhos, o amor nos aproxima de Deus e o ódio nos afasta Dele.


O Duelo

Adolpho, Bispo de Argel - Marmande, 1861

11. Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando aa vida como uma viagem que deve conduzi-lo a um destino certo, não se importa com as contrariedades do caminho, e não deixa que seus passos se desviem, nem por um instante, do objetivo a ser alcançado. Com o olhar fixo em sua meta, pouca importância dá aos obstáculos e espinhos que o ameaçam. Eles apenas o roçam sem ferir e não o impedem de avançar. Arriscar-se em duelo para se vingar de uma ofensa é recuar diante das provas da vida. Além do que, o duelo será sempre um crime aos olhos de Deus. Se não estivessem iludidos pelos preconceitos que possuem, este ato seria ridículo aos olhos da Humanidade.

O homicídio por duelo é crime e a própria legislação dos homens reconhece. Ninguém tem o direito, sob hipótese alguma, de tirar a vida de seu semelhante. Como já dissemos, o duelo é um crime aos olhos de Deus, pois para cada ser humano Ele traçou uma linha de conduta a ser seguida. Nesse caso, mais do que em qualquer outro, vocês são juízes em causa própria. Lembrem-se de que serão perdoados conforme perdoarem. O perdão aproxime as criaturas da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue humano correr na Terra pela mão do homem, o verdadeiro Reino de Deus ainda não terá chegado. Reino de paz e de amor que afastará para sempre do planeta o rancor, a discórdia e a guerra. Assim, a palavra duelo não existirá mais na linguagem humana. Ela será apenas uma vaga lembrança de um passado distante. Os homens só aceitarão disputar, entre si, competições voltadas à nobre prática do bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862

12. O duelo pode, em alguns casos, ser considerado como prova de coragem física e de desprezo pela vida, mas é, indiscutivelmente, uma prova de covardia moral, assim como o suicídio. O suicida não tem coragem para enfrentar as dificuldades da vida e o duelista não tem coragem para suportar as ofensas. O Cristo disse: "É preciso ter mais coragem para oferecer a face esquerda quando alguém nos bater na direita, do que para se vingar de uma ofensa". O Cristo também disse a Pedro, no Jardim das Oliveiras: "Coloca a sua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada, pela espada morrerá". Assim falando, Jesus condenou o duelo para sempre.

Meus filhos, que coragem é essa, nascida de um temperamento violento, homicida e colérico, que reage à primeira ofensa? Que grandeza pode possuir a alma daquele que, ao sofrer uma ofensa, quer lavá-la com sangue? Mas que ele trema! Porque sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: "Caim! Caim! O que você fez com seu irmão?". E ele responderá a essa voz: "Foi necessário derramar sangue para lavar minha honra". E a voz, então, lhe dirá: "Você quis salvá-la diante dos homens pelo pouco tempo de vida que ainda lhe restava na Terra e não pensou em salvá-la diante de Deus". Pobre tolo! Quanto sangue o Cristo precisará lhe pedir pelas ofensas que tem recebido de você! Além de feri-lo com os espinhos e a lança, ainda O pregou na cruz infame, fazendo com que Ele escutasse as zombarias que Lhe foram dirigidas. Após tantas ofensas, que reparação Ele lhe pediu? O último grito do Cordeiro foi uma prece para Seus carrascos. Tal como Ele, perdoem e rezem por aqueles que insistem em ofendê-los.

Amigos, lembrem-se desse princípio: "Amem-se uns aos outros", e ao golpe desferido pelo ódio, respondam com um sorriso, e à ofensa, com o perdão. Sem dúvida, o mundo se voltará furioso contra vocês, pois serão chamados de covardes; elevem a cabeça bem alto e mostrem que sua fronte também não tem medo de ser coroado com espinhos, a exemplo de Cristo. Que a mão de vocês nunca sirva para ser cúmplice de um homicídio que tem a falsa aparência de honra, e que na verdade não passa de uma manifestação de orgulho e amor-próprio. Ao criar o homem, Deus não deu a ele o direito de decidir sobre a vida ou a morte de seu semelhante. ele só deu esse direito à Natureza, para que ela possa se reformar e se reconstruir. Quanto a vocês, nem sobre o próprio corpo possuem total domínio. Assim como o suicida, o duelista também estará manchado de sangue quando comparecer perante Deus, e tanto para um quanto para o outro, a Justiça Divina reserva longos e dolorosos anos de sofrimento. Se Deus, através de Jesus, ameaçou com a Sua Justiça aquele que dissesse Racca a seu irmão, que pena severa não estará reservada para aquele que se apresentar diante Dele com as mãos sujas do sangue do seu irmão!

Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861

13. O duelo, que antigamente era chamado de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda têm vestígios na sociedade. O que diriam se vissem dois adversários mergulhados em água fervente ou em contato com um ferro em brasa, para resolverem suas questões e dar ganho de causa para aquele que melhor suportasse a prova? Diriam tratar-se de costumes insensatos. Pois o duelo é ainda pior que tudo isso. O duelista habilidoso comete um assassinato a sangue-frio, pois, com toda ação planejada antecipadamente, está seguro do golpe que desferirá. Para o adversário, quase certo de que vai morrer na luta, em razão de sua fraqueza e inabilidade, é um suicídio cometido com a mais fria reflexão. Muitas vezes, procuramos evitar o duelo usando a alternativa, igualmente criminosa, que elege o acaso como juiz. Mas isso é o mesmo que voltar ao que chamávamos de julgamento de Deus, na Idade Média. Porém, naquela época, éramos infinitamente menos culpados, pois até mesmo a denominação julgamento de Deus indicava uma fé ingênua na justiça divina, que não deixaria morrer um inocente. No duelo, tudo é resolvido pela força bruta, onde o ofendido é quem geralmente morre.

Estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho! Quando iremos trocar tudo isso pela caridade cristã, pelo amor ao próximo e pela humildade que Cristo tanto ensinou e deu o exemplo? Somente quando isso acontecer é que irão desaparecer da Terra esses costumes monstruosos que ainda governam os homens e que as Leis são impotentes para reprimir. Não basta impedir o mal e querer o bem. É preciso que o sentimento do bem e do horror ao mal estejam gravados no coração do homem.

Francisco Xavier - Bordeaux, 1861

14. Que juízo farão de mim, se eu me recusar a tirar satisfação daquele que me ofendeu? Os loucos e os homens atrasados, como vocês, irão me censurar. Porém, aqueles que são esclarecidos, intelectual e moralmente, dirão que eu agi com muita sabedoria. Reflita um pouco: por uma palavra inofensiva, muitas vezes, dita sem querer, seu orgulho fica machucado e, ao responder de maneira agressiva, acontece a provocação. Antes que chegue o momento de tomar uma atitude decisiva, pergunte a si mesmo: "Será que agi como cristão? Se você eliminar da sociedade um de seus membros, como explicará isso? Como alguém poderá não sentir remorso em tirar de uma mulher, o seu marido, de uma mãe, o seu filho, das crianças, o seu pai e com ele, o sustento delas?".

Certamente, aquele que ofendeu deve uma satisfação. Não seria muito mais honroso para ele reparar a ofensa espontaneamente, reconhecendo seu erro? Por que, então, arriscar a vida daquele que tem o direito de se queixar, convidando-o para um duelo? Concordo que, algumas vezes, o ofendido pode sentir-se seriamente atingido, seja em seu amor-próprio, seja em relação aos que lhe são caros. Não é somente o amor-próprio que está em jogo, o coração também está ferido e sofrendo muito. Ainda assim, é uma estupidez arriscar a vida contra um miserável capaz de praticar infâmias. Mesmo que ele venha a morrer, por acaso a afronta deixará de existir? O sangue derramado chamará ainda mais atenção sobre o fato, pois, se ele for falso, cairá por si mesmo no esquecimento, e se for verdadeiro, melhor seria que ele ficasse no silêncio. Nesse caso, só restaria a satisfação da vingança executada, nada mais. Triste satisfação, que já nesta vida deixa insuportáveis remorsos! E se o ofendido morrer, onde ficará a reparação da ofensa?

Quando a caridade for a regra de conduta entre homens, eles deverão ajustar seus atos e palavras ao ensinamento de Jesus: "Não façam aos outros o que não gostariam que os outros fizessem a vocês". Quando isso acontecer, desaparecerão todas as causas de desavenças, e, com elas os duelos e também as guerras, que são duelos entre povos!

Agostinho - Bordeaux, 1861

15. O homem que, por uma palavra ofensiva, um motivo fútil, arrisca sua vida e a de seu semelhante em um duelo, é cem vezes mais culpado que o miserável que, levado pela cobiça e às vezes pela necessidade, entra em uma casa para roubar e mata aqueles que tentam impedi-lo. Esse infeliz é, quase sempre, uma criatura sem educação, com imperfeitas noções do bem e do mal, enquanto o duelista pertence, geralmente, às classes mais esclarecidas. O infeliz mata brutalmente, o duelista mata com método e cortesia, o que faz a sociedade desculpá-lo. Acrescento, ainda, que o duelista é infinitamente mais culpado que o infeliz que, levado por um sentimento de vingança, mata num momento de desespero. O duelista não tem como desculpa o sentimento da violenta emoção, pois entre o insulto e a reparação existe sempre um tempo para refletir. Ele age planejada e friamente, tudo é estudado e calculado para matar com mais segurança seu adversário. É verdade que ele também arrisca sua vida, e é isso que justifica o duelo aos olhos do mundo, pois consideram um ato de coragem e desapego pela própria vida. Mas será que existe realmente coragem quando se está seguro de si? O duelo data dos tempos selvagens, quando o direito do mais forte fazia a Lei. Ele desaparecerá com uma análise mais criteriosa e justa do que significa realmente o verdadeiro ponto de honra, e à  medida que o homem depositar uma fé mais viva na vida futura.

16. Nota: os duelos tornaram-se cada vez mais raros e se, de vez em quando, ainda vemos alguns dolorosos exemplos, seu número não é mais comparável ao que foi no passado. Antigamente, um homem não saía de casa sem prever um confronto e, por isso, tomava sempre as precauções necessárias. Usar armas, de forma visível ou não, era um sinal característico da cultura daqueles tempos. A abolição desse uso já revela o abrandamento dos costumes. É interessante acompanhar-se as modificações ao longo do tempo. Antigamente, os cavaleiros só cavalgavam com armaduras de ferro e armados de lança. A espada, que a princípio era uma arma, mais tarde tornou-se apenas um enfeite, um acessório de nobreza. Outra característica do abrandamento dos costumes é que, naqueles tempos, os combates pessoais aconteciam em plena rua, diante da multidão que se afastava para deixar o campo livre. Hoje, os combatentes procuram se esconder. Atualmente, a morte de um homem é um acontecimento que provoca comoção, enquanto que esses últimos vestígios de selvageria, despertando na mente dos homens o espírito de caridade e de fraternidade.

Comentário

12. Racca - Entre os hebreus, a palavra Racca significava homem de má conduta, e se pronunciava cuspindo no chão e virando o rosto para o lado. 


 


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Bem-Aventurados os Que São Misericordiosos




CAPÍTULO X

Bem-Aventurados Os Que São Misericordiosos

• Perdoem Para Que Deus Possa Lhes Perdoar 
•  Reconciliem-se Com Seus Adversários
• O Sacrifício Mais Agradável A Deus
• O Cisco E A Trave No Olho • Não Julguem Para Não Serem Julgados - Aquele Que Estiver Sem Pecado, Atire A Primeira Pedra


Instruções Dos Espíritos:
• O Perdão Das Ofensas • A Indulgência
• É Permitido Repreender Os Outros? • É Permitido Observar As Imperfeições Alheias? • É Permitido Divulgar O Mal Alheio?

Perdoem Para Que Deus Possa Lhes Perdoar

1. "Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque eles próprios alcançarão a misericórdia" (Mateus, 5:7).

2.  "Se perdoarem as faltas que os homens cometem contra vocês, também receberão o perdão de Meu Pai Celestial. Mas, se não perdoarem os homens quando forem ofendidos, Meu Pai Celestial também não os perdoará" (Mateus, 6:14 e 15).

3. "Se um irmão pecou contra vocês, vão e acertem a falta em particular com ele, e, se ele ouvir, terão ganho um irmão". Pedro, aproximando-se de Jesus, perguntou: "Senhor, quantas vezes terei que perdoar meu irmão, quando ele pecar contra mim? Será até sete vezes?". E Jesus lhe respondeu: "Você deve perdoá-lo não apenas sete vezes, mas sim, setenta vezes sete vezes" (Mateus, 18:15, 21 e 22).

4. A misericórdia é o complemento da doçura, pois aquele que não for misericordioso também não será manso nem pacífico. A misericórdia consiste no esquecimento e no perdão das ofensas. O ódio e o rancor são próprio de uma alma sem elevação e sem grandeza. O esquecimento das ofensas é próprio de uma alma elevada que está acima do mal que lhe queiram fazer. A alma que odeia é sempre ansiosa, sua sensibilidade é sombria, desconfiada e cheia de amargura. A alma elevada é calma, cheia de mansidão e caridade. 

Infeliz daquele que diz: "Nunca perdoarei!". Se não for condenado pelos homens, certamente, o será por Deus. Com que direito pedirá o perdão para suas próprias faltas, se ele mesmo não consegue perdoar as que os outros cometem? Jesus nos ensina que a misericórdia não deve ter limites, quando diz que "devemos perdoar nosso irmão, não sete, mas setenta vezes sete vezes".

Existem duas maneiras bem diferentes de perdoar: A primeira  é grande, nobre e verdadeiramente generosa, pois esquece o que passou e, evita com delicadeza, ferir o amor-próprio e a suscetibilidade do agressor, mesmo que ele seja culpado. A segunda é quando aquele que se julga ofendido impõe condições humilhantes ao seu ofensor, fazendo com que ele sinta todo o peso de um perdão que irrita em vez de acalmar. Se estende a mão, não o faz com bondade, e sim com ostentação, para que possa dizer a todos: "Vejam como sou generoso!". Em tais condições, é impossível que a reconciliação seja sincera de ambas as parte. Isto não é generosidade, é, antes, uma maneira de satisfazer o orgulho. Portanto, aquele que possui uma alma verdadeiramente grande, em todas as disputas, se mostrará mais pacificador, mais tolerante e mais caridoso. Agindo assim, conquistará sempre a simpatia das pessoas imparciais.

Reconciliem-se com Seus Adversários

5. "Reconciliem-se o mais rápido possível com seus adversários, enquanto estiverem com eles a caminho, para que não ocorra que seus adversários os entreguem ao juiz, e o juiz os entregue ao ministro da justiça, e que sejam enviados à prisão. Em verdade, Eu digo a vocês que não sairão de lá enquanto não pagarem até o último centavo" (Mateus, 5:25 e 26).

6. Na prática do perdão, assim como na prática do bem, além do efeito moral, existe, também o efeito material. Sabemos que a morte não nos livra dos nossos inimigos. Os Espíritos desencarnados que desejam vingança perseguem, frequentemente, com seu ódio, aqueles contra os quais ainda guardam rancor. Por isso, o provérbio que diz "morta a cobra, morto o veneno" torna-se falso, quando aplicado ao homem. O Espírito mau, por estar desligado do corpo físico, possui mais liberdade. Ele se aproveita dessa condição para atormentar sua vítima, que está presa ao corpo, prejudicando seus interesses ou suas afeição mais caras. O Espírito que já desencarnou continua sentido ódio e rancor e não consegue perdoar aquele que lhe fez mal. Aí reside a causa da maior parte dos casos de obsessão, principalmente, aqueles que apresentam maior gravidade, como a subjugação e a possessão.

O obsediado e o possesso são quase sempre vítimas de uma vingança, cuja causa se encontra em uma existência anterior, onde os dois foram responsáveis por condutas erradas. Deus permite que a obsessão aconteça como uma espécie de punição para aqueles que não foram caridosos nem misericordiosos ao não perdoarem os que lhe fizeram mal. É importante, para tranquilidade futura, corrigir, o mais rápido possível, os erros que cada um de nós comete contra nosso próximo. Devemos perdoar os inimigos a fim de eliminar, antes de desencarnar, qualquer motivo de desavença, ódio ou rancor. Desse modo, pode-se fazer de um inimigo neste mundo um amigo no Mundo Espiritual, ou, pelo menos, ficar do lado do bem. Deus sempre ampara aqueles que perdoam.

Quando Jesus recomenda que nos reconciliemos, o mais rápido possível, com nossos adversários, não quer somente evitar as discórdias na vida presente, mas, principalmente, evitar que elas continuem nas existências futuras. Jesus disse: "Não sairão de lá enquanto não pagarem até o último centavo". Isso quer dizer: "Enquanto não perdoarmos uns aos outros, estaremos sempre presos em cadeias de ódio e rancor, das quais só nos libertaremos quando a Justiça de Deus for integralmente cumprida. É preciso, também, que tenhamos a consciência de essa Justiça age sobre nós de forma isenta e correta".

O Sacrifício Mais Agradável A Deus

7. "Quando estiverem fazendo a oferenda diante do altar e lembrarem-se de que seu irmão tem alguma coisa contra vocês, deixem a oferenda ao pé do altar e vão primeiro se reconciliar com seu irmão, e só depois voltem para fazer a oferenda" (Mateus, 5:23 e 24).

8. Quando Jesus disse: "Reconciliem-se primeiro com seu irmão, antes de apresentarem a oferenda ao altar", ensinou que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o sacrifício do próprio ressentimento, pois, antes de solicitar o perdão de Deus, é preciso já ter perdoado. Se cometemos alguma injustiça contra um de nossos irmãos, é preciso que essa injustiça já tenha sido reparada. Somente assim a oferenda será agradável a Deus, pois virá de um coração puro e livre de qualquer mau pensamento. Naquela época, era costume, entre os judeus, oferecer bens materiais a Deus. Eles faziam isso como forma de demonstrar seu amor e respeito. Pelo ensinamento de que primeiro era preciso se reconciliar com o irmão, antes de apresentar a oferenda, Jesus estava adequando Suas palavras aos costumes que vigoravam na época. O verdadeiro cristão não precisa fazer doações materiais a Deus, pois ele espiritualizou o sacrifício e sabe que o ensinamento do perdão é muito mais importante que a oferenda. Ele oferece sua alma e essa deve estar purificada. Ao entrarem no Templo do Senhor, devem deixar do lado de fora todo mau pensamento contra seu irmão e todo sentimento de ódio e animosidade. Só então os Espíritos Superiores levarão suas preces ao Altíssimo. Eis o que Jesus ensina com estas palavras: "Deixem sua oferenda ao pé do altar e vão primeiro se reconciliar com seus irmãos, se quiserem ser agradáveis ao Senhor".

O Cisco E A Trave No Olho

9. Como vocês conseguem ver um cisco que está no olho de seu irmão e não conseguem ver a trave que está em seu próprio olho? Como podem dizer a seu irmão: Deixe-me tirar o cisco que está em seu olho, se no de vocês possui uma trave? Hipócritas, retirem primeiro a trave que está em seu olho, para depois retirarem o cisco que está no olho de seu irmão (Mateus, 7:3 a 5).

10. Um dos defeitos da Humanidade é ver primeiro o mal alheio, para depois ver o seu próprio. Para fazer um julgamento correto, seria preciso que o homem olhasse seu interior num espelho, se transportasse de alguma forma para fora de si mesmo e, considerando-se como outra pessoa, perguntasse: O que eu iria pensar se visse alguém fazendo o que eu faço? Indiscutivelmente, é o orgulho que faz com que o homem disfarce seus próprios defeitos, tanto morais quanto físicos. Esse comportamento é totalmente contrário à caridade, pois a verdadeira caridade é modesta, simples e tolerante. Não faz sentido praticar a caridade de maneira orgulhosa, pois a caridade e o orgulho são sentimentos que se neutralizam um ao outro. Aquele que é orgulhoso não consegue praticar a caridade. Um homem bastante vaidoso, que acredita possuir qualidades superiores, não consegue ressaltar o bem em outras pessoas, pois isso poderia ofuscá-lo. Assim, prefere ressaltar o mal que poderia promovê-lo. O orgulho, além de ser o pai de muitos vícios, ainda impede a manifestação de muitas virtudes. Ele é a razão de quase todas as más ações do homem, e foi por isso que Jesus se dedicou tanto em combatê-lo. O orgulho é, sem dúvida, o principal obstáculo ao progresso da Humanidade.

Não Julguem Para Não Serem Julgados - Aquele Que Estiver Sem Pecado, Atire a Primeira Pedra

11. Não julguem para não serem julgados, pois serão julgados conforme julgarem os outros. E será aplicada a vocês a mesma medida que usaram para medir os outros (Mateus, 7:1 e 2).

12. Então, escribas e fariseus levaram até Jesus uma mulher que havia sido surpreendida em adultério e, fazendo com que ela ficasse em pé, no meio do povo, disseram: "Mestre, essa mulher acaba de ser surpreendida em adultério. Moisés nos ordena, na Lei, apedrejar as adúlteras. Qual é a Sua opinião a respeito desse assunto?". Eles diziam isso querendo tentar Jesus, a fim de terem do que acusá-lo. Porém, Jesus, abaixando-se, começou a escrever com Seu dedo na areia. Como continuassem a interrogá-lo. Ele levantou e disse: "Aquele dentre vocês que estiver sem pecado atire a primeira pedra". Após isso, abaixou-se novamente e continuou a escrever na areia. Mas eles, tendo ouvido Jesus falar assim, retiraram-se um após o outro, saindo em primeiro lugar os mais velhos, porque possuíam mais pecados. Após todos se retirarem, Jesus ficou sozinho com a mulher no meio da praça.

Então, Ele levantou-se de novo e disse: "Mulher, onde estão os que lhe acusavam? Ninguém condenou você?". E ela respondeu: "Ninguém, Senhor". Então, Jesus lhe disse: "Eu também não vou lhe condenar. Vá e não volte a pecar" (João, 8:3 a 11).

13. Com esse ensinamento: "Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra", Jesus faz do perdão um dever, pois não existe ninguém que não precise dele para si mesmo. Ele nos ensina que não devemos julgar os outros mais severamente do que julgaríamos a nós mesmos, e nem condenar no próximo o que perdoaríamos em nós. Antes de condenar alguém por uma falta, vejamos se a mesma reprovação não nos pode ser aplicada.

A censura da conduta alheia pode ter dois motivos: o primeiro é reprimir o mal, e o segundo é desacreditar a pessoa cujos atos estamos criticando. No segundo caso, nunca encontraremos desculpa, pois a crítica tem origem na maledicência e na maldade. Reprimir o mal é louvável e constitui, em alguns casos, até mesmo um dever, principalmente, se dessa repressão resultar um bem. Sem esse procedimento, o mal nunca seria combatido na sociedade, e o homem deve ajudar sempre no progresso de seus semelhantes. Este princípio: "Não julguem para não serem julgados", não deve ser aplicado em sentido absoluto, porque a letra mata e o Espírito vivifica, ou seja, o que estiver escrito não terá valor nenhum se o ensinamento não for seguido.

Não é possível que Jesus tenha proibido a censura do mal, pois em todas as oportunidades Ele o combateu de maneira enérgica. Ensinou que a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura. Se nos sentimos culpados por aquilo que condenamos nos outros, não temos o direito de ter autoridade para censurar e, ainda mais, estaríamos condenando alguém de forma injusta. Em nosso íntimo, não conseguimos obedecer a alguém que, mesmo tendo poder, não respeita as Leis e os princípios da autoridade que está querendo aplicar. Não existe autoridade mais legítima aos olhos de Deus do que aquela que se apoia no exemplo dado pelo homem de bem. Isso é o que fica ressaltado, de forma bem clara, nos ensinamentos de Jesus. 

Instruções dos Espíritos

O Perdão Das Ofensas
Simeão - Bordeaux, 1862

14. "Quantas vezes perdoarei ao meu irmão?", perguntou Pedro a Jesus. "Você deve perdoá-lo não sete vezes, mas sim, setenta vezes sete vezes." Esse é um dos ensinamentos de Jesus que mais deve marcar a inteligência de vocês e falar bem alto a seus corações. Comparem essas palavras de misericórdia com a prece tão simples, tão resumida e tão grande em suas aspirações, a oração do Pai Nosso que Jesus ensinou a Seus discípulos, e encontrarão sempre o mesmo pensamento. Jesus, o justo por excelência, responde a Pedro: "Você perdoará, mas sem limites; perdoará ainda que a ofensa lhe seja feita muitas vezes; ensinará a seus irmãos o esquecimento de si mesmo, que os torna invulneráveis às agressões, aos maus tratos e às injúrias. Será doce e humilde de coração, nunca medindo sua mansidão e brandura. Fará aos outros o que deseja que o Pai Celestial faça por você. Não tem, Ele, o perdoado sempre? Por acaso, conta as inúmeras vezes que o Seu perdão vem apagar as suas faltas?". Prestem atenção na resposta de Jesus e, como Pedro, procurem aplicá-la a vocês mesmos. Deem, e o Senhor lhes restituirá. Perdoem, e o Senhor vai perdoá-los. Abaixem-se, e o Senhor os reerguerá. Humilhem-se, e o Senhor fará com que sentem à Sua direita.

Vão, meus bem-amados, estudem e comentem essas palavras que eu dirijo a todos, da parte Daquele que, do alto dos esplendores Celestes, sempre cuida de vocês e continua, com amor, a tarefa ingrata que começou há dezoito séculos.

Perdoem o próximo, pois também precisam do seu perdão. Se vocês são prejudicados pelos atos dos seus irmãos, é mais um motivo para serem tolerantes, porque o mérito de perdoar é proporcional à gravidade do mal cometido. Além disso, nenhum merecimento terão, se não perdoarem, sinceramente, seus irmãos pelas pequenas ofensas que eles fazem.

Espíritas, nunca esqueçam que, tanto nas palavras como nas ações, o perdão dos insultos nunca deve ser uma palavra vazia. Se vocês se dizem Espíritas, então o sejam de fato. Esqueçam o mal que lhes foi feito e pensem apenas em uma coisa: No bem que podem fazer. Aquele que entrou nesse caminho não deve se afastar dele, nem mesmo em pensamento, porque todos são responsáveis por aquilo que pensam e Deus conhece bem o que andam pensam. Cuidem para que todos pensamento seja desprovido de qualquer sentimento de rancor. Deus sabe o que se passa no coração de cada um de Seus filhos. Feliz daquele que, a cada noite, pode deitar-se e dizer: "Nada tenho contra meu próximo".

Paulo, apóstolo - Lyon, 1861

15. Perdoar os inimigos é pedir perdão para si mesmo. Perdoar os amigos é dar a eles uma prova de amizade. Perdoar as ofensas é demonstrar que se está melhorando. Perdoem, meus amigos, para que Deus também possa perdoá-los. Se forem duros, exigentes e rigorosos, mesmo por uma pequena ofensa, como vão querer que Deus esqueça que, a cada dia, vocês também têm necessidade de perdão.

Infeliz daquele que diz: "Nunca perdoarei", pois está pronunciando a sua própria condenação. Será que fazendo uma autoanálise não irão encontrar, em vocês mesmos, o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por um simples desentendimento e termina numa ruptura, o primeiro golpe não partiu de vocês? Será que não deixaram escapar uma palavra ofensiva? Será que usaram a moderação necessária? Sem dúvida, o adversário errou em se mostrar tão melindroso. mas isso deve ser mais uma razão para serem indulgentes e não o censurarem. Vamos admitir que foram, realmente, os ofendidos em uma determinada circunstância; quem garante que não envenenaram a situação por vingança, transformando em disputa séria o que poderia ter caído facilmente no esquecimento? Se dependeu de vocês impedir as consequências e não o fizeram, então são realmente culpados. Vamos imaginar também que não tenham absolutamente nada a reprovar em suas condutas; nesse caso, quanto maior tiver sido a capacidade de perdoar, maior será o mérito de vocês.

Existem duas maneiras diferentes de perdoar: o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem a respeito do seu adversário: "Eu o perdoo", enquanto, interiormente, alegram-se com o mal que lhe acontece, dizendo a si mesmos que ele bem o mereceu. Quantos dizem: "Eu perdoo" e acrescentam: "Mas nunca me reconciliarei, não quero vê-lo pelo resto de minha vida"; será esse o perdão ensinado pelo Evangelho? Não! O verdadeiro perdão ensinado pelo Cristo é aquele que lança um véu sobre o passado. É o único que será levado em consideração, pois Deus não se contenta com aparências. Ele examina o fundo dos corações e os mais secretos pensamentos, não aceitando apenas palavras e simples fingimentos. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas. O rancor é sempre um sinal de inferioridade. O verdadeiro perdão se reconhece mais pelos atos do que pelas palavras.

A Indulgência
Joseph, Espírito Protetor - Bordeaux, 1863

16. Espíritas, gostaríamos de falar hoje sobre a indulgência, ou, melhor, sobre o perdão, a misericórdia, a tolerância, sentimentos tão doces, tão fraternais que todo homem deveria ter para com seus irmãos, mas que poucos praticam.

A indulgência jamais vê os defeitos alheios, e, se os vê, evita falar deles e divulgá-los. Ao contrário, ela os esconde, a fim de que não sejam conhecidos. Se a maledicência os descobre, a indulgência sempre tem uma desculpa pronta para amenizá-los, mas sempre uma desculpa razoável, séria, e não daquelas que, em vez de atenuar a falta, ressaltam-na de um modo maldoso.

A indulgência jamais se ocupa com os erros alheios, a menos que eles possam ser usados para servir de exemplo à sociedade e, ainda assim, os utiliza tomando o cuidado para atenuá-los tanto quanto possível.

A indulgência não faz observações ofensivas, nem censuras verbais, mas apenas limita-se a dar conselhos, quase sempre de maneira despercebida. Quando criticam, que conclusão devem tirar de suas palavras? É a de que vocês criticam jamais irão fazer o que reprovam e, também, de que são melhores do que o culpado. Quando será que irão julgar seus próprios corações, seus próprios pensamentos, seus atos, sem se ocuparem com o que fazem seus irmãos? Quando irão olhar com severidade somente para vocês mesmos?

Sejam severos para consigo mesmos e indulgentes para com os outros. Lembrem-se Daquele que julga em última instância e que vê os pensamentos secretos de cada coração. Por isso, muitas vezes, Deus perdoa as faltas que vocês censuram em seus irmãos, e condena as que vocês desculpam, porque Ele conhece bem a causa de todos os atos. Muitas vezes, aqueles que pedem para que o próximo seja castigado, talvez, tenham cometido erros ainda mais graves.

Sejam indulgentes, meus amigos, pois a indulgência atrai, acalma e reergue, ao passo que o rigor demasiado desanima, afasta e irrita.

João, Bispo de Bordeaux, 1862

17. Sejam indulgentes para com as faltas alheias, quaisquer que sejam elas. Julguem com severidade apenas as próprias ações e o Senhor usará de indulgência para com vocês, da mesma maneira que usam para com os outros.

Apoiem os fortes, encorajando-os a prosseguir no bem. Fortifiquem os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em consideração o menos arrependimento. Mostrem a todos o anjo do arrependimento estendendo suas asas brancas sobre as faltas humanas, ocultando-as dos olhos daqueles que não veem senão o que é impuro. Compreendam a misericórdia infinita do Pai e não esqueçam nunca de Lhe dizer pelo pensamento, mas, principalmente, pelos atos: "Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido". Compreendam bem o valor dessas sublimes palavras, não só sua letra é admirável, mas também o ensinamento que elas contêm.

O que pedem ao Senhor quando solicitam o seu perdão? Somente o esquecimento das faltas que cometeram? Se Deus se contentasse em esquecer suas faltas, Ele não os puniria, mas também não os recompensaria. A recompensa não pode ser o prêmio pelo bem que não fizeram e menos ainda pelo mal que praticaram, mesmo que esse mal tenha sido esquecido. Ao pedirem a Deus para que perdoe seus desvios, peçam a Ele a graça para não mais cometê-los, e a força necessária para entrar em um novo caminho de obediência e amor, no qual, junto com o arrependimento, poderão acrescentar a reparação do erro.

Quando perdoarem seus irmãos, não se contentem em estender o véu do esquecimento sobre suas faltas. Esse véu é, na maioria das vezes, muito transparente aos olhos de vocês. Ao perdoarem, acrescentem, também, o amor, façam aos outros o que gostariam que o Pai Celestial fizesse por vocês. Troquem a cólera que desonra pelo amor que purifica. Preguem dando o exemplo dessa caridade incansável que Jesus ensinou. Preguem como Ele próprio fez, durante o tempo em que viveu na Terra, e como ainda prega, sem cessar, depois que retornou ao Plano Espiritual. Sigam o Divino Modelo, sigam Seus passos, pois eles os conduzirão a um lugar de refúgio, onde encontrarão o repouso após a luta. Como Jesus, carreguem sua cruz e subam, com coragem, o calvário, pois no seu cume está a glorificação.

Dufêtre, Bispo de Nevers - Bordeaux

18. Sejam severos para consigo mesmos e indulgentes para com as fraquezas alheias. Esta é uma prática caridosa que poucas pessoas observam. Todos têm tendências ruins a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar. Todos têm um fardo mais ou menos pesado e precisam se livrar dele para chegar ao cume da montanha do progresso. Por que são tão exigentes para com o próximo e tão cegos para consigo mesmos? Quando deixarão de perceber, no olho do irmão, o cisco que o fere, enquanto vocês possuem uma trave que os cega e faz com que caminhem de queda em queda? Creiam nos Espíritos, pois eles são irmãos. Todo homem orgulhoso que se achar superior, em virtude e mérito, a seus irmãos encarnados, é sempre um insensato, e Deus o julgará por isso no dia de Sua justiça. O verdadeiro sentido da caridade é a modéstia e a humildade. Ambas consistem em ver apenas superficialmente os defeitos alheios e ressaltar, no próximo, as virtudes e o que existe de bom. Ainda que o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre existe, em alguma de suas regiões mais profundas, o gérmen dos bons sentimentos, como se fosse uma lembrança de sua realidade espiritual.

Espiritismo, Doutrina consoladora e bendita! Felizes são aqueles que a conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para ele, o caminho está iluminado e, ao longo da jornada terrena, podem ler essas palavras que lhes indicam o meio de chegar ao objetivo: caridade praticada com o coração, caridade para com o próximo e para consigo mesmo. Resumindo, caridade para com todos e o amor a Deus acima de todas as coisas. O amor a Deus resume todos os deveres e é impossível amar realmente a Deus sem praticar a caridade, da qual Ele fez uma Lei para todas as criaturas.

É Permitido Repreender Os Outros?
São Luís - Paris, 1860

19. Se ninguém é perfeito, significa que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?

Certamente que não é essa a conclusão a ser tirada, pois cada um deve trabalhar pelo progresso de todos e, principalmente, pelo progresso daqueles a quem Deus nos confiou a proteção. Por isso, essa repreensão deve ser feita com moderação, com um objetivo útil e não como se faz, na maioria das vezes, pelo prazer de denegrir. Nesse caso, a repreensão será sempre uma maldade. A censura feita com moderação é um dever que a caridade manda realizar com todos os cuidados possíveis. E, ainda mais, a repreensão que se faz aos outros deve, ao mesmo tempo, ser dirigida a nós, para vermos se também não a merecemos.

É Permitido Observar As Imperfeições Alheias?
São Luís - Paris, 1860

20. Seremos repreendidos em observar as imperfeições alheias, quando disso não resultar nenhum proveito para eles, mesmo que não as divulguemos?

Tudo vai depender da intenção com que se faz essa repreensão. Certamente, não é proibido ver o mal, quando o mal existe. Seria mesmo inconveniente ver, por parte, somente o bem. Essa ilusão prejudicaria o progresso. O erro está em fazer tal observação em prejuízo do próximo, rebaixando-o sem necessidade perante a opinião pública. Seria, ainda condenável observar as imperfeições alheias apenas para satisfazer nossos sentimentos de maldade e de alegria, ao verificar o defeito dos outros. Ocorre o contrário quando lançamos um véu sobre o mal, ocultando-o do público e nos limitando a observá-lo para proveito próprio, ou seja, para estudá-lo a fim de evitar fazer o que repreendemos nos outros. Esta observação é útil aos homens sérios que se dedicam ao estudo da moral, pois, como eles descreveriam os defeitos da Humanidade, se não estudassem seus exemplos?

É Permitido Divulgar O Mal Alheio?
São Luís - Paris, 1860

21. Haverá casos em que pode ser útil revelar o mal dos outros?

Esta questão é muito delicada e é nesse ponto que a caridade precisa ser bem compreendida. Se os defeitos de uma pessoa prejudicam apenas a ela mesma, não existe nenhuma utilidade em divulgá-los. Porém, se esses defeitos podem prejudicar outras pessoas, é preferível o interesse da maioria ao interesse de um só. Em alguns casos, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, pois é preferível a queda de um homem do que vários serem vítimas de sua enganação. Neste caso, é preciso pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.

Comentários

5. "Enquanto estiverem com eles a caminho" - Essa expressão significa que devemos nos reconciliar com os nossos adversários enquanto estivermos vivendo com eles na Terra, nesta encarnação.

Prisão - A prisão referida por Jesus, no ensinamento do item 5 pode ser entendida como um lugar de sofrimento e aflição no Plano Espiritual, para onde vão aqueles que deixam a Terra sem terem perdoado ou se reconciliado com seus adversários. Ele adverte que o Espírito não sairá de lá até que se arrependa, do fundo do coração, dos erros que cometeu.

6. Obsessão - É a influência maléfica de um Espírito desencarnado sobre um Espírito encarnado. Essa influência maléfica também pode dar-se: de um Espírito encarnado sobre um Espírito desencarnado, entre Espíritos desencarnados e, finalmente, entre Espíritos encarnados.

Subjugação - É uma forma de obsessão em que a vítima perde a vontade própria e sofre uma dominação profunda do obsessor.

Possessão - É um estado bem mais avançado de obsessão, pois a vítima, além de perder o domínio total dos sentidos e das ações, passa a agir sob o comando do obsessor.

9. Trave - Na época de Jesus, era um tronco de árvore empregado em construção, uma madeira grossa.

16. Indulgência - É uma das virtudes que caracteriza o verdadeiro cristão e que se manifesta pela postura complacente, condescendente e compreensiva, perante as faltas e imperfeições alheias.

17. Calvário - Em aramaico, Gólgota. É o nome dado à colina que, na época de Cristo, ficava fora da cidade de Jerusalém, onde Jesus foi crucificado. O termo calvário também pode ser usado como sinônimo de martírio, longo sofrimento.