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domingo, 18 de dezembro de 2022

A Fé Que Transporta Montanhas

CAPÍTULO XIX

A Fé Que Transporta Montanhas

• O Poder da Fé •  A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável
 • Parábola da Figueira que Secou 

Instruções Dos Espíritos:

• A Fé, Mãe da Esperança e da Caridade
• A Fé Divina e a Fé Humana



O Poder da Fé

1. Quando Jesus veio ao encontro do povo, um homem aproximou-se Dele, ajoelhou-se a Seus pés e disse: "Senhor, tenha piedade de meu filho que está lunático e sofre muito, pois ele, seguidamente, cai, ora no fogo, ora na água. Apresentei meu filho aos Seus discípulos, mas eles não puderam curá-lo.". Jesus respondeu ao pai do menino, dizendo: "Ó, raça incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando sofrerei com vocês? Traga o menino até aqui.". E Jesus, repreendendo o Espírito mau que o acompanhava, fez com que este se afastasse, curando-o no mesmo instante. Então, os discípulos vieram encontrar Jesus e, em particular, Lhe perguntaram: "Por que nós não conseguimos expulsar este demônio?". E Jesus respondeu: "É por causa da pouca fé que possuem. Pois Eu digo, em verdade, que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, diriam a essa montanha: Transporte-se daqui para lá, e ela se transportaria, e nada seria impossível a vocês." (Mateus, 17:14 a 19).

2. A confiança do homem em sua próprias forças faz com que ele seja capaz de realizar coisas materiais que não pode fazer quando duvida de si mesmo. Porém, nesse caso, devemos entender as palavras de Jesus unicamente pelo seu sentido moral. As montanhas que a fé transporta são as dificuldades, as resistências, a má vontade dos homens, mesmo quando tudo está correndo bem. Os preconceitos, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo, as paixões orgulhosas, são, também, montanhas que travam o caminho de todo aquele que trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé, quando forte, fornece a perseverança, a energia e os recursos necessários para vencer os obstáculos, sejam eles pequenos sejam grandes. A fé que vacila provoca em nós a falta de confiança de que se aproveitam os adversários que devemos combater; e, mais ainda, a fé que vacila não procura os meios de vencer, pois nem sequer acredita na possibilidade da vitória.

3. A fé também pode ser considerada como sendo a confiança que se tem na realização de uma determinada tarefa, na certeza de atingir um objetivo. A fé dá uma espécie de lucidez, que faz com que se possa antever, pelo pensamento, a meta a ser alcançada e os meios de chegar até ela. Assim, aquele que a possui caminha com absoluta segurança. Em todos os sentidos, a fé é sempre a responsável pela realização das grandes obras.

A fé sincera e verdadeira é sempre calma, pois confere a paciência que sabe esperar e, também, porque, ao apoiar-se na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de atingir seu objetivo. A fé vacilante conhece sua própria fraqueza; quando é estimulada pelo interesse, torna-se furiosa e acredita suprir, pela violência, a força que lhe falta. A calma durante a luta é sempre um sinal de força e de confiança. A violência é sempre um sinal de fraqueza e descrença em si mesmo.

4. É preciso não confundir a fé com a soberba. A fé verdadeira é uma aliada da Humildade, e aquele que a possui confia mais em Deus do que em si próprio. Quem possui a fé verdadeira sabe que é um simples instrumento da vontade de Deus e que nada pode sem Ele, e é por isso que os bons Espíritos vêm em seu auxílio. A soberba é muito mais um sinal de orgulho do que fé; o orgulho, mais cedo ou mais tarde, é sempre castigado pela decepção e pelos fracassos que lhe são impostos.

5. O poder da fé tem aplicação direta e especial na ação magnética. É pelo pensamento que o homem atua sobre o fluído que está livre no universo, modifica-lhe as qualidades e dá a esse fluído um impulso irresistível. Aquele que já possui um grande poder sobre os fluídos e junta a esse poder uma fé ardente, podem simplesmente pela vontade dirigida ao bem, realizar fenômenos especiais de cura e muitos outros. Antigamente, esses fenômenos eram tidos como milagres, mas, na verdade, eles não passam de consequências da aplicação de uma Lei Natural. Esse é o motivo pelo qual Jesus disse a Seus apóstolos: "Se vocês não o curaram, é porque não tiveram fé.".


A Fé Religiosa - Condições da Fé Inabalável

6. Do ponto de vista religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões. Todas as religiões têm seus artigos de fé, ou seja, a descrição do que os seguidores devem ou não acreditar. Sob esse aspecto, a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega não examina nada, aceita tudo sem verificar, tanto o que é falso quanto o que é verdadeiro, e, a cada passo, se choca com as evidências e a razão. A fé cega, levada ao excesso, produz o fanatismo. Quando a fé está apoiada no erro, cedo ou tarde desmorona. Somente a fé que tem por base a verdade possui um futuro assegurado, pois nada tem a temer com o progresso dos conhecimentos. O que é verdadeiro na sombra, também o é à luz do dia. Toda religião pretende ter a posse exclusiva da verdade, mas impor a alguém a fé cega sobre uma questão de crença é confessar sua impotência para demonstrar que está com a razão.

7. Geralmente, se diz que a não se receita, não se impõe, o que leva muitas pessoas a dizerem que não são culpadas pelo fato de não a possuírem. Sem dúvida, a fé não se receita, e o que é mais correto ainda: a fé não se impõe. A fé deve ser adquirida e ninguém está impedido de possuí-la, nem mesmo aqueles que tenham contra ela muita resistência. Falamos de verdades espirituais básicas, e não dessa ou daquela crença em particular. Não é a fé que deve procurar essas pessoas; elas é que devem procurar a fé, e se o fizerem com sinceridade irão encontrá-la. Fiquem certos de que aqueles que dizem: "Nada mais desejamos do que crer, mas infelizmente não conseguimos.", o dizem com os lábios e não com o coração, pois, ao mesmo tempo que dizem, fecham os ouvidos. São muitas as provas de que a fé existe, mas é o medo de serem forçadas a mudarem seus hábitos. Porém, na grande maioria, é o orgulho que se nega a reconhecer um poder superior, porque teriam que se inclinar diante dele.

Para algumas pessoas, a fé parece ter nascido com elas, pois basta uma faísca para desenvolvê-la. Essa facilidade em aceitar as verdades espirituais é sinal evidente de um progresso anterior. Em outras, ao contrário, as verdades espirituais são assimiladas com muita dificuldade, sinal também evidente de uma natureza em atraso. Aqueles que já possuíam conhecimentos espirituais trazem ao renascer, a intuição do que sabiam. Nesse caso, sua educação já foi realizada. Naqueles que não possuem conhecimentos espirituais e que precisam aprender tudo, a educação está por se realizar. Se ela não for concluída nessa existência, certamente, será na outra.

A resistência daquele que não crê quase sempre se deve à maneira pela qual as coisas lhe são apresentadas. A fé necessita de uma base, e essa base é a perfeita compreensão daquilo em que se deve acreditar. Para acreditar, não basta ver, é preciso compreender. A fé cega não pertence mais aos dias de hoje. É justamente o dogma da fé cega que, atualmente, produz o maior número de incrédulos, pois ela quer se impor exigindo que o homem abra mão do seu raciocínio e do seu livre-arbítrio, que são as maiores conquistas do Espírito. É, principalmente, contra a cega que o incrédulo se revolta, o que prova ser verdade que esse tipo de fé não se impõe. Ao não admitir provas, a fé cega deixa, no Espírito, um vazio que lhe abre o caminho para a dúvida. A fé raciocinada é aquela que se apoia nos fatos e na lógica, é clara e não deixa atrás de si nenhuma dúvida. Acredita-se porque se tem certeza, e só se tem certeza porque se compreende. Eis por que ela não se dobra. Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade. Assim, o Espiritismo triunfa sobre a incredulidade, sempre que não encontra oposição sistemática e interesseira. 


Parábola Da Figueira Que Secou

8. Quando saíram de Betânia, Jesus teve fome e, vendo uma figueira ao longe, foi até ela, para ver se encontrava algum fruto para comer. Ao se aproximar, encontrou apenas folhas, pois não era época de figos. Então, Jesus disse à figueira: "Que ninguém como de você nenhum fruto.", e os discípulos ouviram. No dia seguinte, ao passarem pela figueira, perceberam que ela estava seca até a raiz. Pedro, lembrando-se das palavras de Jesus, disse-Lhe: "Mestre, olha como a figueira, que o Senhor amaldiçoou, tornou-se seca." E Jesus respondeu: "Tenham fé em Deus. Em verdade, Eu lhes digo que todo aquele que disser a esta montanha "Saia daqui e vá para o mar, sem que seu coração hesite, acreditando firmemente no que está dizendo, verá, de fato, sua ordem se cumprir." (Marcos, 11:12 a 14, 20 a 23).

9. A figueira que secou é o símbolo das pessoas que apenas aparentam fazer o bem, mas que, na verdade, não produzem nada de bom. São os oradores que possuem mais brilho do que conhecimento, cujas palavras não têm profundidade e apenas agradam aos ouvidos, mas que, ao serem analisadas, não trazem nada de proveitoso ao coração. Pode-se, então, perguntar: que proveito elas trouxeram a quem as ouviu?

A figueira que secou é, também, o símbolo de todas as pessoas que têm a oportunidade de serem úteis, mas não o são. Representa, ainda, todas as utopias, todos os sistemas sem conteúdo e todas as doutrinas sem base sólida. O que falta, na maioria das vezes, é a fé que transporta montanhas. São árvores que têm folhas, mas não têm frutos. Foi por isso que Jesus as condenou à esterilidade, pois chegará o dia em que elas ficarão secas até a raiz. Todos os sistemas, todas as doutrinas que não produzem nenhum bem para a Humanidade, serão reduzidos ao nada. Todos os homens voluntariamente inúteis, que não utilizam seus recursos, também serão tratados como a figueira que secou.

10. Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos. Por possuírem faculdades específicas para essa atividade, eles emprestam seu corpo físico para que os Espíritos possam transmitir suas instruções. Nos tempos atuais, de renovação social, os médiuns têm uma missão particular: são árvores que devem dar alimento espiritual aos seus irmão. Eles são muitos para que o alimento seja farto. São encontrados em todos os países, em todas as classes sociais, entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos. Eles precisam estar em todos os lugares, a fim de que todos recebam os ensinamentos e para mostrar aos homens que todos estão sendo chamados. O objetivo principal da mediunidade é ajudar o próximo e melhorar aquele que a possui. Porém, existem médiuns que a utilizam para coisas fúteis, para prejudicar outras pessoas, para conseguir benefícios materiais em proveito próprio, enfim, deturpam-na de várias maneiras. Esses médiuns serão tratados como a figueira que secou. Deus retirará deles um dom que se tornou inútil em suas mãos, uma semente que não souberam fazer frutificar, e é assim que eles se tornarão alvo dos maus Espíritos.


Instruções Dos Espíritos:

A Fé, Mãe Da Esperança E Da Caridade
José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862.
 
11. A fé, para ser proveitosa, deve ser ativa, não deve ficar adormecida. A fé é a mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus e deve estar sempre atenta para que essas virtudes se desenvolvam.

A esperança e a caridade são as consequências da fé. Essas três virtudes formam um trio inseparável. Não é a fé que dá a esperança de se ver cumprir as promessas do Senhor? Pois, se não há fé, que esperança ter? Não é a fé que dá o amor? E se não há fé, que amor se pode ter? E que amor será esse?

A fé é a divina inspiração de Deus, que desperta todos os nobres sentimentos que conduzem o homem para a prática do bem, tornando-se a base de sua renovação. Porém, é necessários que essa base seja forte e durável, pois se alguma dúvida abalar esse alicerce, o que será do edifício construído sobre ele? Construam esse edifício sobre fundações sólidas, e que a fé de vocês seja mais forte que a zombaria dos incrédulos, pois a fé que não encara a zombaria dos homens não é a fé verdadeira.

A fé sincera é atraente, contagiante e envolve até mesmo aqueles que não a possuem, como também aqueles que não fazem questão de possuí-la. A fé sincera encontra as palavras harmoniosas, deixa aqueles que as escutam frios e indiferentes. Preguem pelo exemplo das boas obras, para que eles vejam o mérito da fé. Preguem através da esperança inabalável, para que os homens percebam a confiança que frutifica e ainda estimula a enfrentar as contrariedades da vida.

Tenham, portanto, a verdadeira fé, na plenitude da sua beleza, da sua bondade, da sua pureza e da sua racionalidade. Não aceitem a fé sem comprovação, pois ela é a filha cega da ignorância. Amem a Deus, mais saibam por que O amam. Acreditem em Suas promessas, mas saibam por que acreditam nelas. Sigam os nossos conselhos, mas sejam conscientes do objetivo que apontamos e dos meios que indicamos para atingi-los. Acreditem e esperem, sem nunca fraquejar, pois os milagres são produzidos pela fé.


A Fé Divina E A Fé Humana
U Espírito Protetor - Paris, 1863.
 
12. A fé é um sentimento que nasce com o homem sobre o seu destino futuro. É a consciência das imensas faculdades que ele possui e que estão, como uma semente, adormecidas no seu íntimo. Cabe ao homem, pela ação da sua vontade, fazer desabrochar e crescer essas faculdades, ao longo do tempo.

Até hoje, a fé é a mais compreendida pelo seu aspecto religioso. Isso acontece porque as pessoas não entenderam o verdadeiro caráter da missão de Cristo, considerando-O apenas como um chefe de religião, capaz de operar milagres através da fé. Porém, esse não é o único objetivo da fé na vida do homem; ela também reflete a confiança que se tem na possibilidade de se realizar alguma coisa.

O Cristo realizou verdadeiros milagres, demonstrando, com eles, o que pode o homem quando possui fé, ou seja, quando tem a vontade de querer e a certeza de que com esta vontade pode realizar muitas coisas. Os apóstolos, tal como Ele, também não realizaram milagres? Os milagres nada maus são do que a ocorrência de fenômenos naturais, que se operam mediante a vontade de quem quer que seja, desde que possua uma fé ardente, sincera e verdadeira. As causas desses efeitos naturais eram desconhecidas pelos homens daquela época. Hoje são, em grande parte, explicados e compreendidos pelo estudo do Espiritismo e do Magnetismo.

A fé pode ser humana, se o homem aplicar suas faculdades na realização de coisas materiais, ou pode ser Divina, quando ele, pensando em seu futuro, usar essas faculdades para seu aperfeiçoamento espiritual. O homem inteligente, que se lança na realização de um grande empreendimento, triunfa se tem fé. Ele sente, em si mesmo, que pode e deve atingir seu objetivo, e é justamente essa certeza íntima que lhe dá uma força extraordinária. O homem de bem, que acredita na continuação da vida após a morte e deseja preencher sua existência com nobres e belas ações, retira de sua fé e da certeza na felicidade que o aguarda, a força necessária para realizar os milagres da caridade, do devotamento e do desapego. Com a fé não existem tendências más que não possam ser vencidas.

O magnetismo, quando colocado em ação, é uma das maiores provas do poder que a fé possui. É pela fé que o Magnetismo cura e produz fenômenos especiais que, antigamente, eram qualificados como milagres.

Repito: A fé é humana e Divina. Se todos os encarnados tivessem consciência da força que trazem consigo, e se quisessem colocar sua vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que até agora chamamos de prodígios, mas que não passam do desenvolvimento das faculdades humanas.


Comentário

1. Lunático - Essa expressão era muito usada, na época de Jesus, referindo-se às pessoas que sofriam de obsessões ou problemas mentais.
 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Não Se Pode Servir A Deus E A Mamon

CAPÍTULO XVI

Não Se Pode Servir 
A Deus E A Mamon

• Salvação dos Ricos
•  Resguardar-se Da Avareza • Jesus Na Casa de Zaqueu
• Parábola do Mau Rico • Parábola dos Talentos
• Utilidade Providencial da Riqueza - Provas da Riqueza e da Miséria
• Desigualdade das Riquezas



Instruções Dos Espíritos:

• A Verdadeira Propriedade
• Emprego da Riqueza
• Desprendimento dos Bens Terrenos
• Transmissão da Riqueza


Salvação dos Ricos

1. Ninguém pode servir a dois senhores porque, ou ele vai odiar a um e amar o outro, ou vai se afeiçoar a um e desprezar o outro. Não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamon (Lucas, 16:13).

2. Um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou: "Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?". E Jesus lhe respondeu: "Por que você Me chama de bom? Só Deus é bom. Se você quer alcançar a vida eterna, siga os mandamentos." "Que mandamentos?", perguntou o jovem. E Jesus respondeu: "Não matar, não cometer adultério, não roubar, não prestar falso testemunho, honrar o pai e a mãe, e amar o próximo como a si mesmo." O jovem, então, replicou: "Sigo todos esses mandamentos desde que cheguei à mocidade, o que ainda me falta?". E Jesus respondeu: "Se você quer alcançar a vida eterna, venda tudo o que tem e dê aos pobres, e então receberá um tesouro no Céu, depois venha e Me siga." Porém, o jovem, ouvindo essas palavras, retirou-se, muito triste, porque possuía muitos bens. Então, Jesus disse a Seus discípulos: "Em verdade, Eu digo a vocês que é bem difícil um rico entrar no Reino dos Céus." E acrescentou: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que que um rico entrar no Reino dos Céus." (Mateus, 16:19 a 24; Lucas, 18:18 a 25; Marcos, 10:17 a 25).


Resguardar a Avareza

3. No meio da multidão, um homem disse a Jesus: "Mestre, ordena a meu irmão que divida comigo a herança que recebemos." E Jesus lhe perguntou: "Homem, que lhe disse que Eu sou juiz para fazer partilhas?". Depois acrescentou: "Tenha cuidado para não ser avarento, porque a nossa vida não dependerá da abundância dos bens que possuímos."

Jesus depois lhe contou essa parábola: "Existia um homem rico, cujas terras haviam produzido muito, e esse homem pensava consigo mesmo: O que farei? Não tenho lugar para guardar tudo o que vou colher. Já sei, pensou ele: derrubarei os meus celeiros e construirei outros maiores ainda, onde colocarei toda minha colheita e todos os meus bens, e então direi a minha alma: você tem agora muitos bens de reserva que irão durar anos. Descanse, coma, beba, divirta-se." Porém, Deus, nesse mesmo instante, disse a esse homem: "Como você é insensato! Sua alma será arrebatada ainda esta noite, e para quem ficará tudo o que acumulou?".

"O mesmo acontece com aquele que guarda tesouros para si mesmo, mas não é rico perante Deus." (Lucas, 12:13 a 21)


Jesus Na Casa De Zaqueu

4. Jesus entrou em Jericó e atravessou a cidade. Lá existia um homem muito rico chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos. Zaqueu queria encontrar Jesus para conhecê-Lo, mas não conseguia devido à multidão e à sua baixa estatura. Assim, correu na frente e subiu em uma grande árvore para vê-Lo, pois Ele deveria passar por ali. Quando Jesus chegou, levantou os olhos e, vendo Zaqueu desceu, rápido, e O recebeu com alegria. Vendo isso, todos murmuraram, dizendo: "Ele vai se hospedar na casa de um homem de má conduta?" (ver, ma Introdução desta obra: Publicanos).

Entretanto, Zaqueu apresentou-se diante de Jesus e Lhe disse: "Senhor, dou a metade dos meus bens ao pobres, e, se fiz o mal a quem quer que seja, pago-lhe quatro vezes mais." E Jesus lhe respondeu: "Esta casa recebeu hoje a salvação, pois você também é filho de Abraão. Porque Eu vim para procurar e salvar o que estava perdido." (Lucas, 19:1 a 10).


Parábola do Mau Rico

5. Havia um homem muito rico que se vestia de púrpura e linho, e que se banqueteava todos os dias. Havia, também, um mendigo chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de chagas e que desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Mas não lhe sobrava quase nada, e os cães ainda vinham lamber suas feridas. O mendigo morreu e foi levado pelos anjos ao encontro de Abraão. O rico também morreu e foi para o inferno. Quando o rico estava no auge do seu sofrimento, elevou os olhos ao alto e viu de longe Abraão com Lázaro ao seu lado, e, aos gritos, disse: "Meu pai Abraão, tenha piedade de mim e mande Lázaro aqui, para que ele molhe a ponta do seu dedo na água e refresque minha sede, pois sofro muito nesse lugar."

Porém, Abraão lhe respondeu: "Meu filho, você deve lembrar que recebeu seus bens em vida, enquanto Lázaro apenas recebeu migalhas. Por isso, ele está agora na consolação e você nos tormentos. Além disso, nesse momento, existe um grande abismo entre nós, pois aqueles que estão aqui não conseguem chegar até aí, e os que estão aí também não conseguem passar para o lado de cá."

Então, o rico disse: "Eu lhe suplico, pai Abraão, para que envie Lázaro à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, a fim de contar-lhes o quanto estou sofrendo, para que eles também não venham parar nesse lugar horrível." E Abraão lhe respondeu: "Eles já têm os ensinamentos de Moisés e dos Profetas, que eles sigam esses ensinamentos." "Meu pai Abraão", disse o rico, "se algum dos mortos for encontrá-los, eles se submeterão a sacrifícios a fim de resgatar os pecados que cometeram." Abraão lhe respondeu: "Se eles não ouvem nem a Moisés e nem aos Profetas, não acreditarão em mais nada, ainda que algum dos mortos ressuscite." (Lucas, 16:19 a 31)


Parábola dos Talentos

6. O Senhor age como um homem que, tendo que fazer uma longa viagem para fora de seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Distribuiu seus talentos segundo a capacidade de cada um. Ao primeiro, deu cinco, ao segundo, dois e ao terceiro, somente um, e depois partiu. Aquele que havia recebido cinco talentos negociou com o dinheiro e ganhou outros cinco. Aquele que havia recebido dois, também negociou e ganhou mais dois talentos. Porém, o servidor que recebeu apenas um talento, cavou um buraco na Terra e lá guardou o dinheiro de seu amo. Depois de muito tempo, o Senhor retornou da viagem e chamou seus servidores para que lhe prestassem contas. Aquele que recebeu cinco talentos, apresentou-se e disse: "Senhor, recebi cinco talentos e trago, além desses, outros cinco que ganhei." E o amo lhe disse: "Bom e fiel servidor, porque você foi fiel com pouca coisa, vou dar-lhe muito mais, venha e compartilhe da minha alegria." Aquele que recebeu dois talentos também se apresentou e disse: "Senhor, recebi dois talentos e trago, além desses, outros dois que ganhei." E o amo lhe disse: "Bom e fiel servidor, porque você foi fiel com pouca coisa, vou dar-lhe muito mais, venha e compartilhe, também, da minha alegria." Aquele que tinha recebido apenas um talento apresentou-se em seguida e disse: "Senhor, sei o quanto é exigente e que colhe onde não semeou, por isso, com medo, escondi o talento na Terra, devolvo agora o que lhe pertence." Porém, o amo lhe disse: "Servidor mau e preguiçoso, se você sabia que eu era exigente, deveria ter colocado meu dinheiro no banco para que, após o meu retorno, eu pudesse retirar com juros o que me pertencia. Tirem dele o talento e deem ao servidor que possui dez talentos. Porque é preciso dar a todos os que têm e eles ficarão na abundância, mas daquele que nada tem, deve-se tirar até mesmo o que ele parece ter. Joguem, portanto, esse servidor inútil nas trevas, onde haverá prantos e ranger de dentes." (Mateus, 25:14 a 30)


Utilidade Providencial da Riqueza - Provas
da Riqueza e da Miséria

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Fora Da Caridade Não Há Salvação

  CAPÍTULO XV


Fora Da Caridade Não Há Salvação

• O Que É Preciso Para Ser Salvo - Parábola Do Bom Samaritano
•  O Mandamento Maior 
• Necessidade Da Caridade Segundo O Apóstolo Paulo
• Fora Da Igreja Não Há Salvação 
• Fora da Verdade Não Há Salvação


Instruções Dos Espíritos:
• Fora Da Caridade Não Há Salvação


O Que É Preciso Para Ser Salvo - Parábola Do Bom Samaritano

1. Quando Jesus vier acompanhado de todos os anjos, irá sentar-se no trono de Sua glória. E quando todas as nações estiverem reunidas Ele irá separar os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Ele colocará as ovelhas a Sua direita e os cabritos a Sua esquerda.

Então, Jesus dirá para aqueles que estiverem a Sua direita: "Venham, abençoados de Meu Pai, tomem posse do Reino que foi preparado para vocês desde o início do mundo. Porque Eu tive fome e Me deram de comer, tive sede e Me deram de beber, tive necessidade de abrigo e Me abrigaram, estive nu e Me vestiram, estive doente e foram Me visitar, estive na prisão e foram Me ver.".

Os justos, então, vão perguntar a Jesus: "Senhor, quando foi que O vimos com fome, com sede, sem abrigo, sem roupas, doente ou na prisão e Lhe oferecemos assistência?". E Jesus responderá: "Em verdade, Eu digo a vocês que todas as vezes que fizeram isso a um desses pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizeram."

Ele dirá, em seguida, aos que estiverem a Sua esquerda: "Malditos, afastem-se para longe de Mim; vão para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e todos os seus seguidores. Pois tive fome e não Me deram de comer, tive sede e não Me deram de beber, tive necessidade de abrigo e não Me abrigaram, estive nu e não Me vestiram, estive doente e na prisão e não foram Me visitar."

Então, eles também vão perguntar a Jesus: "Senhor, quando foi que O vimos com fome, com sede, sem abrigo, sem roupas, doente, ou na prisão e não Lhe oferecemos assistência?". E Jesus Lhes responderá: "Em verdade, Eu digo a vocês que todas as vezes que deixaram de dar assistência a um desses pequeninos, foi a Mim mesmo que deixaram de assistir. Vocês irão para o castigo eterno e os justos para a vida eterna" (Mateus, 25:31 a 46).

2. Eis que um doutor da Lei levantou-se e disse, para tentá-lo: "Mestre, o que devo fazer para receber como herança a vida eterna?". E Jesus respondeu: "O que é que está escrito na Lei? Como você consegue interpretá-la?". E ele respondeu: "Devo amar o Senhor meu Deus, de todo meu coração, com toda minha força, e com tod meu entendimento, e o meu próximo como a mim mesmo.". E Jesus disse: "Respondeu muito vem, faça isso e você viverá". Mas o doutor da Lei, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo?". E Jesus, tomando a palavra disse:

"Um homem, que descia de Jerusalém a Jericó, foi assaltado por ladrões que o despojaram de tudo e ainda cobriram-no de feridas, deixando-o quase morto. Um sacerdote, que descia pelo mesmo caminho, quando viu o homem, tratou de passar bem longe. Um levita, que vinha mais atrás, ao ver o homem caído, também passou longe. Mas um samaritano, ao passar por onde o homem estava caído, foi tomado de compaixão. Aproximou-se dele, passou azeite e vinho em suas feridas e depois as enfaixou. Colocou o homem sobre seu cavalo, levou-o a uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas de prata e deu ao hospedeiro dizendo: "Cuide bem desse homem, e tudo o que você gastar a mais, eu lhe pagarei quando retornar.". Qual dos três, a seu ver, parece ter sido o próximo daquele que foi assaltado? E o doutor da Lhe respondeu: 'Aquele que teve misericórdia para com ele.' 'Vá, disse Jesus, 'e faça o mesmo' (Lucas, 10:25 a 37).

3. Toda moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, ou seja, nas duas virtudes contrárias ao orgulho e ao egoísmo. Em todos os ensinamentos, Ele aponta essas duas virtudes, caridade e humildade, como sendo o caminho para a felicidade eterna. Jesus disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito, ou seja, os humildes, porque é deles o Reino dos Céus, bem-aventurados os que têm puro o coração, bem-aventurados os que são mansos e pacíficos, bem-aventurados os que são misericordiosos. Amem o próximo como a vocês mesmos, façam aos outros o que gostariam que os outros fizessem por vocês, respeitem os inimigos, perdoem as ofensas se quiserem ser perdoados, façam o bem sem ostentação, julguem-se a si mesmos antes de julgarem os outros.".

Humildade e caridade, eis o que Jesus não cansa de recomendar e dar o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que Ele não cansa de combater. Jesus faz mais do que recomendar a caridade; Ele coloca, de maneira bem clara, que a caridade é a única condição para se alcançar a felicidade.

No quadro em que Jesus nos apresenta o Juízo Final é necessário separar o que é apenas linguagem figurada. Ele falava a homens incapazes de compreender as questões puramente Espirituais, por isso, devia apresentar imagens materiais surpreendentes e capazes de impressioná-los. Para que essas imagens fossem aceitas, quanto à forma como eram apresentadas, elas não podiam se afastar muito das ideias da época. Jesus reservou para o futuro a verdadeira interpretação de Suas palavras e dos pontos sobre os quais não podia explicar claramente. Entretanto, ao lado da linguagem figurada do quadro que fez sobre o Juízo Final, existe uma ideia dominante: a da felicidade reservada ao justo e a da infelicidade reservada ao mau.

Nesse julgamento Divino, o que realmente está sendo levado em consideração? O juiz não procura saber se a pessoa preencheu esta ou aquela formalidade, se observou as práticas exteriores, se frequentou essa ou aquela religião. Pergunta apenas se a caridade foi praticada e se pronuncia dizendo: "Passem à direita, vocês que deram assistência a seus irmãos, e passem à esquerda, vocês que foram duros para com eles.". O juiz não pergunta sobre a fidelidade aos princípios da fé. Não faz distinção entre os que creem de um modo e os que creem de outro. Jesus coloca o samaritano, contrário aos dogmas da religião, mas que possui amor ao próximo, acima do sacerdote fiel aos princípios da fé, mas que falta com a caridade. Ele não coloca a caridade apenas como uma das condições para a salvação, e sim como a condição única. Se houvesse outras a serem consideradas, Ele as teria mencionado. Se Jesus coloca a caridade como a primeira das virtudes, é porque ela contém, implicitamente, todas as outras, a humildade, a mansidão, a bondade, a indulgência, a justiça, etc, e, também, porque a caridade é totalmente oposta ao orgulho e ao egoísmo.

O Mandamento Maior

4. Os fariseus, quando viram que Jesus tinha feito os saduceus se calarem, reuniram-se em conselho e um deles, que era doutor da Lei, fez a seguinte pergunta para tentá-Lo: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?". E Jesus respondeu: "Você deve amar o Senhor seu Deus de todo o seu coração, com toda sua força e de todo seu entendimento. Esse é o primeiro e o maior mandamento. E eis o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro: Você deve amar o seu próximo como a si mesmo". Toda Lei e os Profetas estão contidos nesses dois mandamentos (Mateus, 22:34 a 40).

5. Caridade e humildade, eis o único caminho para a salvação; egoísmo e orgulho, eis o caminho da perdição. Esse ensinamento está resumido nessas palavras: Você deve amar a Deus com toda sua força e a seu próximo como a si mesmo. Toda Lei e os Profetas estão contidos nesses dois mandamentos.

Para que não houvesse dúvidas na interpretação do amor a Deus e ao próximo, Jesus acrescentou: "Eis o segundo mandamento, que é semelhante ao primeiro", isto é: não se pode amar verdadeiramente a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Assim, tudo o que se faz contra o próximo se faz contra Deus. Não podemos amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo. Todos os deveres do homem se encontram resumidos nesse ensinamento moral: "Fora da caridade não há salvação".

Necessidade Da Caridade Segundo O Apóstolo Paulo

6. Ainda que eu falasse todas as línguas dos homens e até mesmo a língua dos anjos, se não tiver caridade, sou apenas um metal que produz som e um sino que toca. Ainda que eu tivesse o dom de profetizar e conhecer todos os mistérios, e tivesse um perfeito conhecimento de todas as coisas, e ainda que tivesse toda fé possível, capaz de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada serei. E se tivesse distribuído meus bens para alimentar os pobres, e entregado meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, tudo isso de nada me serviria.

A caridade é paciente, é doce e benigna, não é invejosa, não é afoita, nem precipitada. Não se enche de orgulho, não despreza ninguém, não procura seus próprios interesses, não se vangloria, nem se irrita com nada. A caridade também não faz julgamentos precipitados, não se alegra com a injustiça, e sim com a verdade. Ela tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo sofre.

Entre essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a maior delas é a caridade (Paulo, 1ª Carta aos Coríntios, 13:1 a 7,13).

domingo, 17 de abril de 2022

Honrar O Pai E A Mãe

 CAPÍTULO XIV


Honrar O Pai E A Mãe

• Piedade Filial
•  Quem É Minha Mães e Quem São Meus Irmãos?
• Parentesco Corporal E Parentesco Espiritual


Instruções Dos Espíritos:
• A Ingratidão Dos Filhos E Os Laços De Família

1. Jesus disse para aqueles que O escutavam: "Vocês conhecem os mandamentos: Não cometer adultério, não matar, não roubar, não prestar falso testemunho, não fazer mal a ninguém, honrar o pai e a mãe" (Marcos, 10:19, Lucas, 18:20, Mateus, 19:18 e 19).

2. Honrem o pai e a mãe, a fim de viverem muito tempo na Terra que Deus dará a vocês (Decálogo, Êxodo, 20:12)

Piedade Filial

3. O mandamento "honrar o pai e a mãe" é uma consequência da Lei da Caridade e de Amor ao próximo, porque não se pode amar o próximo sem amar ao pai e a mão. O termo "honrar" encerra um dever a mais para com eles: o da piedade filial. Deus quer que ao amor que se deve ter pelos pais se junte o respeito, a atenção, a obediência e a paciência. Assim, é preciso ser mais caridoso e atencioso para com os pais do que para com o próximo de um modo geral. Deve-se ter também o mesmo carinho e atenção para com aqueles que assumem o papel de pai e mãe. O mérito desses pais será proporcional à dedicação que dispensarem a seus filhos não biológicos. Deus sempre pune com rigor toda violação a este mandamento.

Honrar pai e mãe não é somente respeitá-los, é, também, ajudá-los em suas necessidades. É proporcionar a eles o repouso na velhice, cercando-os de cuidados como eles fizeram conosco na infância.

É, principalmente, para com os pais sem recursos que se demonstra a verdadeira piedade filial. Existem filhos que julgam estar cumprindo o mandamento "honrar pai e mãe" dando-lhes apenas o necessário para que não morram de fome, enquanto eles não se privam de nada. Colocam seus pais nos piores cômodos da casa, só para não deixá-los na rua, reservando para si o que há de melhor e mais confortável. Menos mal, quando não o fazem de má vontade, obrigando os pais a fazerem os trabalhos domésticos pelo resto de suas vidas! Caberá aos pais velhos e fracos servirem aos filhos jovens e fortes? Quando eles ainda estavam no berço, sua mãe cobrou-lhes o leite com que os alimentava? Contou quantas vezes deixou de dormir quando estavam doentes? Contou quantos passos deu para lhes proporcionar os cuidados necessários? Não. O que os filhos devem a seus pais pobres não é só o estritamente necessário. Devem dar a eles as pequenas alegrias do supérfluo, as atenções, os cuidados carinhosos, pois estarão apenas retribuindo o amor que receberam e pagando uma dívida sagrada! Essa é a única piedade filial aceita por Deus.

Infeliz daquele que esquece sua dívida para com aqueles que o sustentaram na infância, aqueles que com a vida material lhe deram também a vida moral e que, muitas vezes, se submeteram a duras privações para lhe assegurar o bem-estar. Infeliz do ingrato, porque será punido com a ingratidão e o abandono. Será atingido em suas afeições mais caras, algumas vezes já na vida presente, mas, certamente, em outras existências em que sofrerá o que fez os outros sofrerem. 

É bem verdade que alguns pais descuidam-se de seus filhos e não são para eles o que deveriam ser. Cabe a Deus puni-los. Não cabe aos filhos censurá-los, porque, talvez, eles mesmos fizessem por merecer pais assim. Se a Lei de Caridade manda pagar o mal com o bem, ser indulgente para com as imperfeições alheias, não maldizer seu próximo, esquecer e perdoar as faltas e amar até mesmo os inimigos, quanto maior não deverão ser as obrigações em relação aos pais? Os filhos devem, portanto, tomar como regra de conduta para com os pais, todos os ensinamentos que Jesus recomenda para com o próximo; também devem estar cientes de que toda conduta condenável em relação a estranhos é ainda mais condenável em relação aos pais. O erro que se comete em relação a estranhos pode ser considerado apenas uma falta leve, mas o mesmo erro cometido em relação aos pais pode ser considerado um crime, pois, nesse caso, existe falta de caridade e ingratidão.

4. Nos Dez Mandamentos está escrito: Honrem o pai e a mãe, a fim de viverem por muito tempo na Terra que Deus dará a vocês.

Por que Deus promete recompensa a vida na Terra e não a vida no Céu? A explicação encontra-se nesta frase: "que Deus dará a vocês", que foi suprimida dos Dez Mandamentos na versão moderna da Bíblia. O trecho que permaneceu foi: "Honrem o pai e a mãe, a fim de viverem muito tempo na Terra". Ao suprimir i trecho: "que Deus dará a vocês", o sentido do ensinamento ficou completamente alterado. Para compreender melhor essas palavras, é preciso voltar ao tempo em que elas foram pronunciadas, entender como os hebreus viviam e qual eram suas ideias e seus pensamentos na época. Eles não compreendiam ainda a vida futura, e seu entendimento não ia além da vida presente. Portanto, deviam ser mais sensibilizados pelas coisas que viam do que pelas coisas que não viam. É por isso que Deus fala com os hebreus utilizando uma linguagem que estivesse ao seu alcance como se estivesse falando com crianças e dando-lhes uma perspectiva que poderia satisfazê-los. Eles estavam ainda no deserto. A Terra que Deus lhes dará é a Terra Prometida, objeto de suas aspirações. Eles não desejavam nada além disso e Deus lhes diz que viveriam lá por muito tempo, ou seja, que eles a possuiriam se cumprissem Seus mandamentos.

Quando Jesus chegou, as ideias dos hebreus já estavam mais desenvolvidas e era então o momento de receberem um esclarecimento maior. Jesus os inicia na vida espiritual dizendo: "O Meu Reino não é deste mundo e será nele, e não na Terra, que receberão a recompensa por suas boas obras". Com essas palavras, a Terra Prometida deixa de ser Material e passa a ser uma Pátria Espiritual. Assim, quando Jesus lhes recomenda o respeito pelo mandamento: "Honrar o pai e a mãe, já não é mais a Terra que Ele promete, e sim o Céu (ver, nesta obra, os cap. 2 e 3).

Quem é Minha Mãe E Quem São Meus Irmãos?

5. Quando Jesus chegou em casa, lá reuniu-se uma multidão tão grande de pessoas que nem mesmo puderam completar sua refeição. Ao saberem disso, seus parentes saíram para prendê-lo, pois diziam: "Ele perdeu o Espírito".

Sua mãe e Seus irmãos chegaram, e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-Lo. O povo que estava sentado ao seu redor lhe disse: "Sua mãe e seus irmãos estão lá fora e chamam por Você". Jesus, então, respondeu: "Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos?". E olhando para aqueles que estavam ao Seu redor, disse: "Eis, aqui, Minha mãe e Meus irmãos, pois quem quer que faça a vontade de Deus, é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe" (Marcos, 3:20, 21 e 31 1 35, Mateus, 12:46 a 50).

6. Certas palavras ditas por Jesus parecem estranhas e não combinam com sua bondade e meiguice. Os incrédulos aproveitaram a ocasião para dizer que Jesus estava se contradizendo. Sua Doutrina baseia-se principalmente na Lei do Amor e da Caridade, sendo assim, não é possível que Ele destruísse de um lado o que tinha estabelecido de outro. Se alguns ensinamentos estão em contradição com a Lei do Amor e da Caridade, surge uma consequência inevitável: as palavras atribuídas a Jesus foram mal traduzidas, mal compreendidas ou não Lhe pertencem.

7. É mesmo de se admirar que nessa passagem Jesus mostre tanta indiferença para com seus parentes e, de certo modo, renegue Sua mãe.

Em relação a Seus irmãos, sabe-se que eles nunca tiveram simpatia por Jesus. Eram Espíritos pouco adiantados e não compreendiam Sua missão. Achavam Sua conduta estranha e Seus ensinamentos não os convenciam, tanto que nenhum deles tornou-se Seu discípulo. Até certo ponto, concordavam com as prevenções que os inimigos de Jesus tinham contra Ele. Em família, ele O tratavam mais como um estranho do que como um irmão. É o Apóstolo Joao quem afirma claramente: "Os irmãos de Jesus não acreditavam Nele" (João cap. 7:5).

Quanto a sua mãe, ninguém poderá contestar a ternura que dedicava ao filho, mas é preciso deixar claro que ela também não fazia uma ideia exata de Sua missão. Até onde se sabe, ela nunca seguiu Seus ensinamentos, nem deu testemunho deles, como fez João Batista. O cuidado maternal era seu sentimento dominante. Quanto a Jesus, imaginar que Ele pudesse ter renegado Sua mãe, seria desconhecer-lhe o caráter. Tal pensamento não poderia partir Daquele que disse: "Honrem o pai e a mãe". É preciso procurar um outro significado para as palavras de Jesus, quase sempre encobertas pela forma figurada de falar.

Jesus não perdia nenhuma oportunidade para transmitir um ensinamento. Aproveitou a chegada de Sua família para estabelecer a diferença que existe entre o parentesco corporal e o parentesco espiritual.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Que A Sua Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz A Sua Mão Direita

CAPÍTULO XIII

Que A Sua Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz A Sua Mão Direita

• Fazer O Bem Sem Ostentação
•  Os Infortúnios Ocultos
• O Óbolo Da Viúva
• Convidar Os Pobres E Os Estropiados - Ajudar
Sem Esperar Recompensa
 

Instruções Dos Espíritos:
• A Caridade Material E A Caridade Moral
 • A Beneficência • A Piedade • Os Órfãos
• Benefícios Pagos Com Ingratidão • Beneficência Exclusiva

Fazer O Bem Sem Ostentação

1. Tomem cuidados para não fazerem suas boas obras diante dos homens, para que elas não sejam vistas por eles, porque assim não serão recompensados por Deus. Quando derem uma esmola, não façam alarde, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens. Em verdade, Eu digo a vocês que eles já receberam sua recompensa. Quando derem uma esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita, a fim de que a esmola fique em segredo e Deus, que vê o que se passa em segredo, os recompensará (Mateus, 6:1 a 4).

2. Uma grande multidão seguia Jesus quando Ele descia da montanha. Nesse momento, um leproso veio ao Seu encontro e, respeitosamente, Lhe disse: "Senhor, se quiser, poderá me curar.". Jesus, estendendo a mão, tocou-o e disse: "Assim Eu quero, fica curado!". E, no mesmo instante, a lepra foi curada. Depois, Jesus lhe disse: "Procura não flar sobre esse assunto a quem quer que seja, mas vai mostrar sua cura aos sacerdotes, a fim de que ela sirva de testemunho a eles. Depois disso, você poderá fazer sua oferenda, conforme prescreveu Moisés." (Mateus, 8:1 a 4).

3. Fazer o bem sem ostentação é um grande mérito. Ocultar a mão que dá é ainda mais louvável. É sinal incontestável de uma grande superioridade moral. Para compreender as coisas mais elevadas, acima do conhecimento comum do povo, é preciso elevar-se acima da vida presente. É preciso colocar-se acima da Humanidade para renunciar à satisfação que o aplauso dos homens proporciona, e preocupar-se somente com a aprovação de Deus. Aquele que prefere ser aprovados pelos homens, em vez de ser aprovado por Deus, demonstra possuir mais fé nos homens do que em Deus. Para ele, a vida presente é mais importante do que a vida futura, ou, melhor, ele não acredita na vida futura. Se disser o contrário, age como se não acreditasse no que diz.

Quantas pessoas ajudam apenas na esperança de que essa ajuda tenha grande repercussão. Que, em público, dariam grandes somas em dinheiro, e que, sozinhas, não dariam sequer uma moeda! Foi por isso que Jesus disse: "Aqueles que fazem o bem com ostentação, já receberam sua recompensa.". Aquele que procura sua glorificação na Terra pelo bem que fez, já pagou a si mesmo; Deus nada mais lhe deve; resta-lhe apenas receber a punição pelo seu orgulho.

"Que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita" é um ensinamento que caracteriza, admiravelmente, a caridade praticada com modéstia. Entretanto, se existe a verdadeira caridade, também existe a falsa, isto é, aquela modéstia que fica só na aparência. Existem pessoas que escondem a mão que dá, tendo o cuidado de deixar aparecer uma parte de sua ação, na esperança de que alguém observe o que estão fazendo. Ato ridículo em relação aos ensinamentos do Cristo. Se os benfeitores orgulhosos já são desconsiderados entre os homens, imaginem o quanto não serão diante de Deus. Eles também já receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos e ficaram satisfeitos por terem sido vistos. É tudo o que terão.

Qual será a recompensa daquele que faz com que o seu irmão sinta o peso do benefício recebido? que lhe exige demonstrações de reconhecimento? Que faz com que ele sinta sua posição inferior ao ressaltar os sacrifícios que precisou passar para beneficiá-lo? Oh! Para esse, nem mesmo a recompensa terrena existe, pois é privado da satisfação de ouvir outras pessoas falando bem de seu nome. Esse é o primeiro castigo para seu orgulho. As lágrimas que ele seca ao beneficiar os outros servem apenas para satisfazer sua vaidade e, em vez de subirem ao Céu, recaem sobre o coração do beneficiado, ferindo-o ainda mais. O bem que realizou não lhe traz nenhum proveito, pois ele lamenta ter feito esse bem, e todo bem que é lamentado não possui valor algum.

Fazer o bem sem ostentação tem um duplo mérito, pois além, de ser caridade material é também caridade moral. Quem age dessa maneira, respeita os sentimentos do beneficiado. Faz com que ele aceite o benefício, sem ferir seu amor-próprio, resguardando, assim, sua dignidade humana. Existem pessoas que aceitam um serviço mas recusam uma esmola. Converter um serviço em esmola, pela maneira como ele é realizado, é humilhar aquele que o recebe, e sempre existirá orgulho e maldade em humilhar alguém. A verdadeira caridade, ao contrário, é habilidosa e disfarça, de modo sutil, o benefício, evitando, assim, a menor possibilidade de melindre, uma vez que toda ofensa moral aumenta ainda mais o sofrimento do necessitado. Ela também sabe encontrar palavras doces e afáveis que deixam o beneficiado à vontade diante do benfeitor, enquanto que a caridade orgulhosa o humilha. A verdadeira generosidade encontra seu ponto mais sublime quando o benfeitor, invertendo os papéis, encontra um meio de parecer ser ele próprio o beneficiado perante aquele a quem está ajudando. É isso o que significam essas palavras de Jesus: "Que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita.".

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Amem Os Seus Inimigos


CAPÍTULO XII

Amem Os Seus Inimigos

• Pagar O Mal Com O Bem
•  Os Inimigos Desencarnados
• Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, Apresenta-lhe, Também, A Outra


Instruções Dos Espíritos:
• A Vingança • O Ódio • O Duelo

Pagar O Mal Com O Bem

1. Jesus disse para aqueles que O escutavam: "Aprenderam o que foi dito: Amem o próximo e odeiem os inimigos. Porém, Eu digo a vocês: Amem os inimigos, façam o bem para aqueles que os odeiam, orem por aqueles que os perseguem e caluniam, para que sejam filhos do Meu Pai, que está nos Céus, que faz nascer o sol sobre os bons e os maus e faz chover sobre os justos e os injustos. Pois, se amarem apenas os que amam vocês, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? E, se saudarem apenas os irmãos mais próximos, o que estarão fazendo mais do que os outros? Os pagãos também não fazem o mesmo? Porém, Eu digo a vocês que, se não aplicarem uma justiça maior e mais perfeita que a dos escribas e fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus" (Mateus, 5:5 a 20, 43 a 47).


2. "Se saudarem apenas os parentes e amigos, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não fazem o mesmo? E se fizerem o bem apenas para aqueles que fazem o bem a vocês que recompensa terão? E se emprestarem somente para aqueles que podem lhes retribuir, que recompensa terão? As pessoas de má vida também não se ajudam umas às outras para receberem a mesma vantagem?"

"Quanto a vocês, amem os inimigos, façam o bem a todos, emprestem sem nada esperar em troca, e suas recompensas serão bem maiores. Serão os filhos do Altíssimo. Pois Ele é bom para os ingratos e também para os maus. Sejam, pois, misericordiosos, assim como seu Pai o é" (Lucas, 6:32 a 36).

3. Se a caridade tem como princípio amar o próximo, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio. A virtude de amar os inimigos é uma das maiores vitórias alcançadas sobre o egoísmo e o orgulho.

A palavra amar, utilizada por Jesus neste ensinamento, pode causar algum equívoco quanto a sua interpretação, pois Ele não quis dizer que devemos ter pelo inimigo a mesma ternura que temos por um amigo. A ternura requer confiança e não podemos depositar confiança em uma pessoa sabendo que ela nos quer mal. Não podemos ter por ela a mesma demonstração de amizade, sabendo que ela pode abusar dessa amizade. Entre pessoas que desconfiam umas das outras, não pode haver a mesma simpatia que existe entre aqueles que possuem as mesmas ideias. Quando encontramos um inimigo, não podemos sentir por ele a mesma alegria que sentimos quando encontramos um amigo.

Esse sentimento de amor e aversão resulta de uma das Leis da Física: A Lei da Assimilação e da Repulsão dos Fluidos. A corrente fluídica emitida pelo mau pensamento traz consigo uma influência muito ruim; já o bom pensamento nos envolve agradavelmente. Por isso a diferença das sensações que experimentamos quando nos aproximamos de um amigo ou de um inimigo. Portanto, amar os inimigos não pode significar que não se deva fazer nenhuma distinção entre amigos e inimigos. Este ensinamento nos parece difícil e até mesmo impossível de ser praticado, porque entendemos, erradamente, que ele manda dar aos amigos e aos inimigos o mesmo lugar no coração. Devido à pobreza das línguas humanas, somos obrigados a usar a palavra AMAR para expressar diversas formas de sentimentos. Assim, precisamos completar seu significado, explicando que amar os inimigos é ter para com eles um sentimento desprovido de animosidade.

Amar os inimigos não é ter para com eles uma afeição forçada, que não seja natural, já que o encontro com um inimigo faz bater nosso coração de uma maneira diferente da que quando encontramos um amigo. Amar os inimigos, segundo esse ensinamento de Jesus, é não ter contra eles nem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança. É perdoar o mal que eles nos fazem, sem impor condições e sem ter segundas intenções. É não colocar nenhum obstáculo à reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É alegrar-se pelo bem que lhes aconteça, em vez de ficarmos tristes. É socorrê-los em caso de necessidade. É não usar palavras nem cometer atos que possam prejudicá-los. É, enfim, pagar-lhes todo o mal com o bem, sem intenção de humilhá-los. Quem fizer isso, estará seguindo o mandamento: "Amem os seus inimigos".

4. O ensinamento amar os inimigos é um absurdo para o incrédulo. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê em seu inimigo um ser nocivo e perturbador de sua tranquilidade. Pensa que somente a morte poderá livrá-lo de sua presença, surgindo, assim, o desejo de vingança. O incrédulo não possui nenhum interesse em perdoar, a menos que seja para satisfazer seu orgulho aos olhos do mundo. O próprio ato de perdoar, em certos casos, parece mesmo uma fraqueza, indigna de sua personalidade. Se não consegue se vingar, nem por isso deixará de guardar rancor e um desejo secreto de lhe fazer o mal.

Para aquele que crê, e especialmente para o Espírita, a maneira de ver as coisas é completamente diferente. Ao observar os fatos olhando para o passado e também para o futuro, ele percebe que a vida presente não passa de um momento. O Espírita também sabe que, pela própria destinação da Terra, é natural encontrar, nela, homens maus e perversos. Sabe que a maldade da qual é vítima faz parte das provas que precisa suportar. O esclarecimento maior que possui faz com que ele veja os problemas da vida de maneiro menos amarga, venham eles dos homens ou das coisas. Se o Espírito não reclama das provas, não deve reclamar também dos que servem de instrumento para que essas provas se cumpram. Em vez de se lamentar, deve agradecer a Deus por querer experimentá-lo. Deve agradecer também àquele que lhe oferece a oportunidade de testar sua paciência e sua resignação. Esse pensamento leva o Espírita, naturalmente, ao perdão. Ele sente que, quanto mais generoso for, mais se engrandece aos seus próprios olhos, ficando, desse modo, fora do alcance do ódio de seu inimigo.

O homem que ocupa no mundo uma posição de destaque não se ofende com os insultos de seus inferiores. O mesmo ocorre com aquele que se eleva, moralmente, acima da Humanidade material. Ele compreende que o ódio e o rancor o fariam sentir-se desprezível e o rebaixariam. Para ser superior ao seu adversário, é preciso possuir uma alma maior, mais nobre e mais generosa.


Os Inimigos Desencarnados

5. O Espírita tem, ainda, outros motivos para perdoar seus inimigos. Ele sabe que a maldade não é o estado permanente dos homens, mas que ela é fruto de uma imperfeição temporária. Assim como a criança se corrige de seus defeitos, o homem mau, um dia, reconhecerá seus erros e se tornará bom.

O Espírita também sabe que a morte apenas o deixa livre da presença material de seu inimigo, e que esse pode persegui-lo com seu ódio, mesmo após ter deixado a Terra. Sabe que qualquer vingança que fizer não atingirá seu objetivo, pelo contrário, vai trazer um desgaste ainda maior, que muitas vezes passa de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo demonstrar, pela experiência e pelas Leis, que regem as relações do Mundo Visível com o Mundo Invisível, que a expressão: "Extingue o ódio com sangue" é completamente falsa, pois o sangue realimenta o ódio, mesmo após a pessoa ter desencarnado. Desse modo, o Espiritismo apresenta uma utilidade prática para o ato de perdoar e para o sublime ensinamento do Cristo: "Amem os seus inimigos". Não existe coração tão perverso que não se deixe tocar pelas boas ações, mesmo a contragosto. Pelo bom proceder, elimina-se todo e qualquer motivo para vinganças. Assim, de um inimigo pode-se fazer um amigo, antes e depois de sua morte. Pelo mau proceder, o homem irrita seu inimigo, fazendo com que ele próprio sirva de instrumento para que se cumpra a Justiça de Deus, que sempre pune aquele que não perdoa.

6. Podemos, assim, ter inimigos entre os encarnados e os desencarnados. Os inimigos desencarnados manifestam sua maldade através das obsessões e subjugações, às quais tantas pessoas estão expostas. Essas obsessões são provações que o homem enfrenta durante a vida e que contribuem para o seu adiantamento na Terra. Por isso, elas devem ser aceitas com resignação e como consequência da natureza inferior dos Espíritos que vivem no nosso globo terrestre. Se não existissem homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu redor. Se devemos perdoar e ter misericórdia para com os inimigos encarnados, devemos ter, também, para com os inimigos desencarnados.

Antigamente, eram sacrificados animais e até pessoas para apaziguar a fúria dos deuses infernais. Mais tarde, esses deuses foram substituídos pelos demônios. O Espiritismo ensina que esses demônios não passam de Espíritos maus, que deixam a Terra e ainda continuam presos aos instintos materiais. Esses Espíritos somente poderão ser pacificados por meio da caridade e do amor que a eles for destinado. A caridade, além de impedir que eles pratiquem o mal, também os conduz ao caminho do bem, contribuindo, assim, para seu esclarecimento e elevação moral. É desse modo que o ensinamento de Jesus: "Amem os seus inimigos" não fica limitado ao planeta Terra e à vida presente, mas inclui, também, a grande Lei da Solidariedade e Fraternidade Universais.


Se Alguém Bater Na Sua Face Direita, 

Apresenta-lhe Também A Outra


7. Jesus disse: "Aprenderam o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Porém, Eu digo para que não resistam ao mal que lhe queiram fazer. Se alguém bater na sua face direito, apresenta-lhe, também, a outra. E se alguém tentar tirar sua túnica, entregue-lhe, também, o seu manto. E se alguém lhe obrigar a andar mil passos, anda com ele mais dois mil. Procura dar para aquele que lhe pede, e não rejeita nunca aquele que lhe pedir emprestado" (Mateus, 5:38 a 42).

8. Os preconceitos do mundo sobre o que se convencionou chamar de "questão de honra" provocam esses melindres, nascidos do orgulho e da exaltação da personalidade que leva o homem a pagar injúria por injúria, ofensa por ofensa. Esse procedimento parece estar muito certo para aquele cujo senso moral não consegue se elevar acima das paixões terrenas. Essa é a razão por que a Lei de Moisés dizia: "Olho por olho, dente por dente", Lei que estava em harmonia com a época que Moisés vivia. Quando o Cristo veio, disse: "Paguem o mal com o bem". E disse mais: "Não resistam ao mal que lhe queiram fazer; se alguém lhe bater numa face, apresenta-lhe, também, a outra". Ao orgulhoso, esse ensinamento parece uma covardia, pois ele não compreende que é preciso ter mmais coragem para suportar um insulto do que para se vingar. Isso porque sua noção do que significa a vida não ultrapassa o momento presente.

Devemos levar ao pé da letra este ensinamento de Jesus? Não, da mesma maneira que não devemos levar aquele que manda arrancar o olho, se este for motivo de escândalo. Se o ensinamento fosse seguido literalmente, a consequência seria a condenação de toda a repressão, deixando o campo livre aos maus, que nada teriam a temer. Se não colocarmos um freio em suas agressões, logo todos os homens de bem seriam suas vítimas. O próprio instinto de conservação, que é uma Lei da Natureza, diz que não se deve desistir da vida sem luta. Por esse ensinamento: "oferecer a outra face", Jesus não quis proibir a defesa, e sim condenar a vingança. Quando disse para oferecer a outra face, quando uma for batida, quis dizer, em outras palavras, que não é preciso pagar o mal com o mal, pois o homem deve aceitar com humildade tudo o que faz rebaixar seu orgulho. Que é mais glorioso ser ferido do que ferir, suportar pacientemente uma injustiça do que arruinar os outros. Ao falar assim, Jesus condena o duelo, que nada mais é do que uma manifestação do orgulho. Somente a fé na vida futura e na Justiça de Deus, que nunca deixa o mal impune, pode nos dar força para suportarmos pacientemente os golpes desferidos contra os nossos interesses e contra o nosso amor-próprio. Eis por que dizemos sempre: "Olhem para frente, quanto mais se elevarem pelo pensamento acima da vida material, menos serão atingidos pelas coisas da Terra".


Instruções dos Espíritos

A Vingança

Jules Olivier - Paris, 1862


9. A vingança e o duelo são vestígios da barbárie, que tendem a desaparecer entre os homens. São costumes selvagens que fazem a Humanidade sofrer. A vingança é um sinal da inferioridade dos homens que a ela recorrem e dos Espíritos que se juntam a eles para inspirá-la. Portanto, meus amigos, esse sentimento não deve, jamais, fazer parte do coração daquele que se diga Espírita. Vingar-se é totalmente contrário ao ensinamento do Cristo que diz: "Perdoem os seus inimigos", e aquele que se recusa a perdoar, não é espírita e também não é cristão.

A vingança é um sentimento tão nocivo quanto a falsidade e a baixeza, que são suas companheiras constantes, porque todo aquele que se vinga, quase nunca o faz a céu aberto. Quando é mais forte, ataca ferozmente aquele a quem considera seu inimigo, bastando, para isso, a simples presença do desafeto para que cresça nele a cólera, a paixão e ódio. Na maioria das vezes, ele toma uma aparência fingida, disfarçando, no fundo do coração, seus maus sentimentos. Seguindo caminhos escusos, persegue, na sombra, seu inimigo, sem que ele de nada desconfie. Espera o momento mais favorável para executar sua vingança, evitando correr algum risco. Escondendo-se, vigia o inimigo sem cessar, preparando-lhe armadilhas odiosas, e, quando surge a ocasião, derrama-lhe no copo o veneno mortal.

Quando seu ódio não chega a tais extremos, ele ataca o inimigo em sua honra e em suas afeições. Faz uso da calúnia e das falsas insinuações, que, habilmente semeadas aos quatro ventos, vão crescendo por onde passam. Dessa forma, quando o perseguido se apresenta nos lugares onde a calúnia e as falsas insinuações já passaram, se admira ao encontrar rostos frios onde encontrava, antigamente, rostos amigos e bondosos. Fica surpreso quando as mãos que se estendiam para ele agora se recusam a cumprimentá-lo. Enfim, fica arrasado quando seus melhores amigos e parentes se desviam e fogem dele. O covarde que se vinga dessa maneira é cem vezes mais culpado do que aquele que enfrenta seu inimigo e o insulta pela frente.

Parem, portanto, com esses costumes selvagens! Parem com esses costumes de outros tempos! Todo espírita que se achar no direito de se vingar, não será digno de figurar por mais tempo entre aqueles que tomaram por lema: "Fora da caridade não há salvação!". Recuso-me a aceitar a simples ideia de que um membro da grande família espírita possa ceder ao impulso da vingança em vez de perdoar.


O Ódio

Fénelon - Bordeaux, 1861

10. Amem-se uns aos outros e serão felizes. Procurem amar, principalmente, aqueles que inspiram em vocês a indiferença, o ódio e o desprezo. Cristo, que deve ser o modelo de todos, deu o exemplo desse devotamento. Missionário do amor, Ele amou a ponto de dar Seu sangue e Sua própria vida. O sacrifício de amar aqueles que nos ofendem e nos perseguem é difícil, mas é isso que nos tornará superiores a eles. Se os odiarmos como eles nos odeiam, não valeremos mais do que eles. Amar os inimigos é o presente que devemos oferecer a Deus, pois esse gesto chegará até Ele como um perfume de agradável aroma. 

A Lei do Amor, que manda amar indistintamente a todos, não nos livra o coração do convívio e da ação dos maus. Amar a todos é uma das provas mais difíceis, eu bem sei, pois, durante a minha última existência terrena, passei por essa tortura. Os que violam a Lei do Amor serão punidos por Deus, nessa vida ou na outra. Não esqueçam, meus queridos filhos, o amor nos aproxima de Deus e o ódio nos afasta Dele.


O Duelo

Adolpho, Bispo de Argel - Marmande, 1861

11. Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando aa vida como uma viagem que deve conduzi-lo a um destino certo, não se importa com as contrariedades do caminho, e não deixa que seus passos se desviem, nem por um instante, do objetivo a ser alcançado. Com o olhar fixo em sua meta, pouca importância dá aos obstáculos e espinhos que o ameaçam. Eles apenas o roçam sem ferir e não o impedem de avançar. Arriscar-se em duelo para se vingar de uma ofensa é recuar diante das provas da vida. Além do que, o duelo será sempre um crime aos olhos de Deus. Se não estivessem iludidos pelos preconceitos que possuem, este ato seria ridículo aos olhos da Humanidade.

O homicídio por duelo é crime e a própria legislação dos homens reconhece. Ninguém tem o direito, sob hipótese alguma, de tirar a vida de seu semelhante. Como já dissemos, o duelo é um crime aos olhos de Deus, pois para cada ser humano Ele traçou uma linha de conduta a ser seguida. Nesse caso, mais do que em qualquer outro, vocês são juízes em causa própria. Lembrem-se de que serão perdoados conforme perdoarem. O perdão aproxime as criaturas da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue humano correr na Terra pela mão do homem, o verdadeiro Reino de Deus ainda não terá chegado. Reino de paz e de amor que afastará para sempre do planeta o rancor, a discórdia e a guerra. Assim, a palavra duelo não existirá mais na linguagem humana. Ela será apenas uma vaga lembrança de um passado distante. Os homens só aceitarão disputar, entre si, competições voltadas à nobre prática do bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862

12. O duelo pode, em alguns casos, ser considerado como prova de coragem física e de desprezo pela vida, mas é, indiscutivelmente, uma prova de covardia moral, assim como o suicídio. O suicida não tem coragem para enfrentar as dificuldades da vida e o duelista não tem coragem para suportar as ofensas. O Cristo disse: "É preciso ter mais coragem para oferecer a face esquerda quando alguém nos bater na direita, do que para se vingar de uma ofensa". O Cristo também disse a Pedro, no Jardim das Oliveiras: "Coloca a sua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada, pela espada morrerá". Assim falando, Jesus condenou o duelo para sempre.

Meus filhos, que coragem é essa, nascida de um temperamento violento, homicida e colérico, que reage à primeira ofensa? Que grandeza pode possuir a alma daquele que, ao sofrer uma ofensa, quer lavá-la com sangue? Mas que ele trema! Porque sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: "Caim! Caim! O que você fez com seu irmão?". E ele responderá a essa voz: "Foi necessário derramar sangue para lavar minha honra". E a voz, então, lhe dirá: "Você quis salvá-la diante dos homens pelo pouco tempo de vida que ainda lhe restava na Terra e não pensou em salvá-la diante de Deus". Pobre tolo! Quanto sangue o Cristo precisará lhe pedir pelas ofensas que tem recebido de você! Além de feri-lo com os espinhos e a lança, ainda O pregou na cruz infame, fazendo com que Ele escutasse as zombarias que Lhe foram dirigidas. Após tantas ofensas, que reparação Ele lhe pediu? O último grito do Cordeiro foi uma prece para Seus carrascos. Tal como Ele, perdoem e rezem por aqueles que insistem em ofendê-los.

Amigos, lembrem-se desse princípio: "Amem-se uns aos outros", e ao golpe desferido pelo ódio, respondam com um sorriso, e à ofensa, com o perdão. Sem dúvida, o mundo se voltará furioso contra vocês, pois serão chamados de covardes; elevem a cabeça bem alto e mostrem que sua fronte também não tem medo de ser coroado com espinhos, a exemplo de Cristo. Que a mão de vocês nunca sirva para ser cúmplice de um homicídio que tem a falsa aparência de honra, e que na verdade não passa de uma manifestação de orgulho e amor-próprio. Ao criar o homem, Deus não deu a ele o direito de decidir sobre a vida ou a morte de seu semelhante. ele só deu esse direito à Natureza, para que ela possa se reformar e se reconstruir. Quanto a vocês, nem sobre o próprio corpo possuem total domínio. Assim como o suicida, o duelista também estará manchado de sangue quando comparecer perante Deus, e tanto para um quanto para o outro, a Justiça Divina reserva longos e dolorosos anos de sofrimento. Se Deus, através de Jesus, ameaçou com a Sua Justiça aquele que dissesse Racca a seu irmão, que pena severa não estará reservada para aquele que se apresentar diante Dele com as mãos sujas do sangue do seu irmão!

Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861

13. O duelo, que antigamente era chamado de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda têm vestígios na sociedade. O que diriam se vissem dois adversários mergulhados em água fervente ou em contato com um ferro em brasa, para resolverem suas questões e dar ganho de causa para aquele que melhor suportasse a prova? Diriam tratar-se de costumes insensatos. Pois o duelo é ainda pior que tudo isso. O duelista habilidoso comete um assassinato a sangue-frio, pois, com toda ação planejada antecipadamente, está seguro do golpe que desferirá. Para o adversário, quase certo de que vai morrer na luta, em razão de sua fraqueza e inabilidade, é um suicídio cometido com a mais fria reflexão. Muitas vezes, procuramos evitar o duelo usando a alternativa, igualmente criminosa, que elege o acaso como juiz. Mas isso é o mesmo que voltar ao que chamávamos de julgamento de Deus, na Idade Média. Porém, naquela época, éramos infinitamente menos culpados, pois até mesmo a denominação julgamento de Deus indicava uma fé ingênua na justiça divina, que não deixaria morrer um inocente. No duelo, tudo é resolvido pela força bruta, onde o ofendido é quem geralmente morre.

Estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho! Quando iremos trocar tudo isso pela caridade cristã, pelo amor ao próximo e pela humildade que Cristo tanto ensinou e deu o exemplo? Somente quando isso acontecer é que irão desaparecer da Terra esses costumes monstruosos que ainda governam os homens e que as Leis são impotentes para reprimir. Não basta impedir o mal e querer o bem. É preciso que o sentimento do bem e do horror ao mal estejam gravados no coração do homem.

Francisco Xavier - Bordeaux, 1861

14. Que juízo farão de mim, se eu me recusar a tirar satisfação daquele que me ofendeu? Os loucos e os homens atrasados, como vocês, irão me censurar. Porém, aqueles que são esclarecidos, intelectual e moralmente, dirão que eu agi com muita sabedoria. Reflita um pouco: por uma palavra inofensiva, muitas vezes, dita sem querer, seu orgulho fica machucado e, ao responder de maneira agressiva, acontece a provocação. Antes que chegue o momento de tomar uma atitude decisiva, pergunte a si mesmo: "Será que agi como cristão? Se você eliminar da sociedade um de seus membros, como explicará isso? Como alguém poderá não sentir remorso em tirar de uma mulher, o seu marido, de uma mãe, o seu filho, das crianças, o seu pai e com ele, o sustento delas?".

Certamente, aquele que ofendeu deve uma satisfação. Não seria muito mais honroso para ele reparar a ofensa espontaneamente, reconhecendo seu erro? Por que, então, arriscar a vida daquele que tem o direito de se queixar, convidando-o para um duelo? Concordo que, algumas vezes, o ofendido pode sentir-se seriamente atingido, seja em seu amor-próprio, seja em relação aos que lhe são caros. Não é somente o amor-próprio que está em jogo, o coração também está ferido e sofrendo muito. Ainda assim, é uma estupidez arriscar a vida contra um miserável capaz de praticar infâmias. Mesmo que ele venha a morrer, por acaso a afronta deixará de existir? O sangue derramado chamará ainda mais atenção sobre o fato, pois, se ele for falso, cairá por si mesmo no esquecimento, e se for verdadeiro, melhor seria que ele ficasse no silêncio. Nesse caso, só restaria a satisfação da vingança executada, nada mais. Triste satisfação, que já nesta vida deixa insuportáveis remorsos! E se o ofendido morrer, onde ficará a reparação da ofensa?

Quando a caridade for a regra de conduta entre homens, eles deverão ajustar seus atos e palavras ao ensinamento de Jesus: "Não façam aos outros o que não gostariam que os outros fizessem a vocês". Quando isso acontecer, desaparecerão todas as causas de desavenças, e, com elas os duelos e também as guerras, que são duelos entre povos!

Agostinho - Bordeaux, 1861

15. O homem que, por uma palavra ofensiva, um motivo fútil, arrisca sua vida e a de seu semelhante em um duelo, é cem vezes mais culpado que o miserável que, levado pela cobiça e às vezes pela necessidade, entra em uma casa para roubar e mata aqueles que tentam impedi-lo. Esse infeliz é, quase sempre, uma criatura sem educação, com imperfeitas noções do bem e do mal, enquanto o duelista pertence, geralmente, às classes mais esclarecidas. O infeliz mata brutalmente, o duelista mata com método e cortesia, o que faz a sociedade desculpá-lo. Acrescento, ainda, que o duelista é infinitamente mais culpado que o infeliz que, levado por um sentimento de vingança, mata num momento de desespero. O duelista não tem como desculpa o sentimento da violenta emoção, pois entre o insulto e a reparação existe sempre um tempo para refletir. Ele age planejada e friamente, tudo é estudado e calculado para matar com mais segurança seu adversário. É verdade que ele também arrisca sua vida, e é isso que justifica o duelo aos olhos do mundo, pois consideram um ato de coragem e desapego pela própria vida. Mas será que existe realmente coragem quando se está seguro de si? O duelo data dos tempos selvagens, quando o direito do mais forte fazia a Lei. Ele desaparecerá com uma análise mais criteriosa e justa do que significa realmente o verdadeiro ponto de honra, e à  medida que o homem depositar uma fé mais viva na vida futura.

16. Nota: os duelos tornaram-se cada vez mais raros e se, de vez em quando, ainda vemos alguns dolorosos exemplos, seu número não é mais comparável ao que foi no passado. Antigamente, um homem não saía de casa sem prever um confronto e, por isso, tomava sempre as precauções necessárias. Usar armas, de forma visível ou não, era um sinal característico da cultura daqueles tempos. A abolição desse uso já revela o abrandamento dos costumes. É interessante acompanhar-se as modificações ao longo do tempo. Antigamente, os cavaleiros só cavalgavam com armaduras de ferro e armados de lança. A espada, que a princípio era uma arma, mais tarde tornou-se apenas um enfeite, um acessório de nobreza. Outra característica do abrandamento dos costumes é que, naqueles tempos, os combates pessoais aconteciam em plena rua, diante da multidão que se afastava para deixar o campo livre. Hoje, os combatentes procuram se esconder. Atualmente, a morte de um homem é um acontecimento que provoca comoção, enquanto que esses últimos vestígios de selvageria, despertando na mente dos homens o espírito de caridade e de fraternidade.

Comentário

12. Racca - Entre os hebreus, a palavra Racca significava homem de má conduta, e se pronunciava cuspindo no chão e virando o rosto para o lado.